Banco Master: BC detectou fraude ao ver carteiras novas em crise
Em audiência no Senado, Gabriel Galípolo detalha como movimentos atípicos do banco de Daniel Vorcaro aceleraram intervenção e revelaram esquema de R$ 12,2 bilhões
📋 Em resumo ▾
- BC identificou irregularidades quando Banco Master criou novas carteiras durante crise de liquidez
- Galípolo detalhou no Senado a cronologia que levou à liquidação extrajudicial em novembro de 2025
- Operação com BRB é investigada pela PF por suspeita de fraude de R$ 12,2 bilhões
- Presidente do BC defende que intervenção não gera risco sistêmico e protege correntistas
- Por que isso importa: Caso expõe falhas na governança bancária e testa mecanismos de supervisão do sistema financeiro
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, revelou ao Senado que a criação de novas carteiras de investimento pelo Banco Master durante crise de liquidez foi o sinal que acelerou a intervenção na instituição. A declaração, feita nesta terça-feira (19), detalha os bastidores de um caso que envolve suspeita de fraude de R$ 12,2 bilhões.
O sinal de alerta: carteiras novas em meio à falta de caixa
A lógica bancária é simples: bancos com dificuldade de caixa vendem ativos para levantar recursos, não criam novos. Foi essa contradição que chamou a atenção da equipe técnica do BC. "Se você tem um banco com dificuldade de liquidez, você não forma carteira. Se você está com dificuldade de dinheiro, você vende carteira. Aí tudo bem, mas como é que você está vendendo uma carteira nova? Foi isso que chamou a atenção do BC imediatamente", explicou Galípolo aos senadores.
O movimento atípico ocorreu a partir de janeiro de 2025, quando o Banco Master, já sob observação, passou a estruturar novas carteiras de investimentos enquanto enfrentava restrições para captar recursos via Fundo de Garantia de Créditos (FGC). Para a autoridade monetária, a manobra indicava que algo estava errado na gestão do banco comandado por Daniel Vorcaro.
"Se você tem um banco com dificuldade de liquidez, você não forma carteira. Se você está com dificuldade de dinheiro, você vende carteira."
Cronologia da queda: do termo de compromisso à liquidação
A intervenção não foi imediata. Em novembro de 2024, o BC assinou um termo de compromisso com o Banco Master, concedendo seis meses para adequações em governança, capital e liquidez. O banco, então, tentou captar recursos no mercado com garantias do FGC, mas enfrentou restrições crescentes. Sem sucesso com fundos de investimento, intensificou vendas de carteira — em especial para o Banco Regional de Brasília (BRB), banco público ligado ao Governo do Distrito Federal.
A partir de janeiro de 2025, com a formação de novas carteiras em pleno cenário de iliquidez, o BC criou um grupo específico para monitorar essas operações. Dez meses depois, em 18 de novembro de 2025, veio a liquidação extrajudicial — após o BC negar autorização para a compra do Banco Master pelo BRB.
BRB, FGC e investidores árabes: as tentativas frustradas de salvamento
Antes da liquidação, o Banco Master propôs uma "saída organizada do mercado", mencionando supostos investidores árabes como parte de um plano de autoliquidação. Galípolo foi categórico: "Jamais tive conhecimento deles". A operação com o BRB, por sua vez, é alvo de investigação da Polícia Federal, que apura suspeita de fraude em cerca de R$ 12,2 bilhões em créditos vendidos.
A tentativa de aquisição do Banco Master pelo BRB também não prosperou. O BC barrou a operação por entender que não havia condições técnicas para viabilizá-la sem comprometer a instituição pública compradora. O episódio reforça o desafio de equilibrar preservação de empregos e depósitos com a necessidade de impedir contágio em operações de risco.
Risco sistêmico ou problema de governança? A defesa do BC
Galípolo rebateu preocupações sobre efeito dominó no sistema financeiro. "Ele é um banco que não oferece risco sistêmico, ele é menos de 0,5% [do sistema bancário]. Parece-me que o que tem chamado a atenção das pessoas é o que se fazia com o dinheiro que estava no Banco Master", afirmou.
O presidente do BC também diferenciou punição a gestores de proteção ao público. "Punir uma instituição que foi vítima de maus gestores é um equívoco. É dobrar a punição em quem é vítima, que são, inclusive, os correntistas daquela instituição. Então, liquidar uma instituição não é punir os gestores. Liquidar uma instituição, isso você só vai fazer porque aquela instituição chegou a um ponto específico", completou.
"Liquidar uma instituição não é punir os gestores. Liquidar uma instituição, isso você só vai fazer porque aquela instituição chegou a um ponto específico."
O que fica: supervisão preventiva e governança em xeque
O caso do Banco Master coloca em teste a capacidade do BC de identificar sinais de irregularidade antes que se tornem crises maiores. A criação de carteiras em contexto de iliquidez pode parecer um detalhe técnico, mas foi a pista que desmontou um esquema bilionário.
A pergunta que resta: em um sistema financeiro cada vez mais complexo, até que ponto a supervisão consegue antecipar manobras que misturam inovação, pressão por resultados e fragilidade institucional? A resposta definirá não apenas o futuro de bancos menores, mas a confiança de todo o mercado.
Versão em áudio disponível no topo do post.