Vice-presidente da Bolívia apresenta áudio que liga consultor de Milei a esquema de narcotráfico
Vice-presidente da Bolívia apresenta áudio que liga o consultor argentino Fernando Cerimedo a um esquema de proteção a avionetas do narcotráfico; EUA revogam visto do procurador que investiga o caso
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- O vice-presidente da Bolívia, Edmand Lara, apresentou áudios que atribuem ao consultor argentino Fernando Cerimedo a cobrança de US$ 15 mil por avioneta ligada ao narcotráfico
- Os EUA revogaram o visto do procurador-geral boliviano que investiga Cerimedo, decisão questionada publicamente pela advogada Nadia Beller, ex-companheira do consultor
- Beller divulgou fotos de Cerimedo ao lado de Donald Trump Jr. e do ex-chefe de campanha de Trump, Brad Parscale
- Por que isso importa: Cerimedo assessorou campanhas de direita em pelo menos seis países da América Latina, incluindo a de Javier Milei, e o caso reacende o debate sobre financiamento e métodos dessas campanhas
O vice-presidente da Bolívia, Edmand Lara, apresentou nesta semana áudios que, segundo ele, comprovam que o consultor político argentino Fernando Cerimedo mantinha um esquema de cobrança para proteger voos ligados ao narcotráfico no departamento do Beni. É essencial deixar claro desde já: o que existe são áudios atribuídos a Cerimedo e apresentados por uma autoridade política — não uma sentença judicial. Cerimedo está preso na Bolívia desde setembro, mas segue sob investigação, não condenado.
O que dizem os áudios
Segundo Lara, em um dos trechos uma mulher não identificada diz a Cerimedo: "Me tienes que decir. Ellos ya quieren hacer los arreglos. Pagan 15.000 (dólares) por carro (avión)" — ao que a voz atribuída a Cerimedo responde pedindo duas horas para falar com "Cabrera". Lara identificou esse nome como o coronel Franz Cabrera Quispe, ex-diretor da Força Especial de Luta Contra o Narcotráfico (FELCN) da Bolívia. "Fernando Cerimedo manejaba los tentáculos del narcotráfico", afirmou o vice-presidente, em discurso político que atribui ao áudio uma gravidade que ainda cabe à Justiça boliviana confirmar.
"Dame dos horas y te contesto."
— voz atribuída a Fernando Cerimedo, segundo áudio apresentado pelo vice-presidente Edmand Lara
Lara afirmou que o material foi encaminhado ao Ministério Público boliviano. Cerimedo já enfrenta, segundo reportagens bolivianas, ao menos quatro processos distintos no país — e seu advogado ou ele próprio não teve resposta pública localizada por esta apuração até a publicação.
O visto cassado do procurador
Um dia depois de os áudios ganharem repercussão, o Departamento de Estado dos Estados Unidos revogou o visto do procurador-geral da Bolívia, Róger Mariaca, responsável por supervisionar as investigações contra Cerimedo — informação atribuída pelo jornal mexicano La Jornada e por veículos bolivianos a fontes oficiais americanas, sem detalhamento público, até agora, da justificativa da medida pelo governo dos EUA.
As fotos de Nadia Beller
No dia seguinte à revogação do visto, a advogada Nadia Beller, ex-companheira de Cerimedo, publicou em suas redes fotos (incluindo a de destaque) que mostram o consultor ao lado de Donald Trump Jr., filho do presidente americano; Brad Parscale, ex-chefe de campanha de Trump em 2020; e Andy Rivas, sócio de Cerimedo. Beller — que, segundo reportagens argentinas, acusa o próprio Cerimedo de ter mandado atirar contra ela — questionou publicamente se a restrição de visto a Mariaca seria uma forma de proteger essa rede de contatos. É uma pergunta feita por ela, não uma conclusão estabelecida por nenhuma investigação até aqui.
Os fios que conectam Cerimedo à direita latino-americana
Fernando Cerimedo se apresenta como "consultor político e estrategista de marketing digital" e é cofundador do portal La Derecha Diario. Reportagens da Nueva Sociedad e da revista Perfil mostram que ele foi o segundo maior doador individual da campanha de Javier Milei em 2023 e que seu nome também aparece ligado ao vazamento de áudios que atingiu o ex-diretor da agência Andis, no centro de um escândalo de corrupção na Argentina — ligação que, segundo essas reportagens, o próprio Cerimedo nega e minimiza.
Em Honduras, o New York Times e o jornal El Heraldo confirmam que Cerimedo foi figura central na campanha do atual presidente Nasry Asfura, com Brad Parscale prestando consultoria técnica remota à mesma campanha. Asfura, porém, já se desvinculou publicamente do ex-assessor: "Él es responsable de sus actuaciones. No es con Honduras, no es conmigo", disse o presidente hondurenho em setembro — uma declaração de distanciamento, não uma acusação contra Cerimedo.
Já na Argentina, o empresário Fred Machado — preso e acusado de integrar organização criminosa de narcotráfico e lavagem de dinheiro — reconheceu publicamente ter financiado a campanha de José Luis Espert em 2019 com cerca de US$ 200 mil, incluindo o custeio da vinda do consultor americano Dick Morris. Essa mesma reunião de campanha, segundo relatos de pelo menos três participantes a diferentes veículos argentinos, teve a presença de Luis Rosales, que viria a ser candidato a vice de Espert e que depois se associou profissionalmente a Dick Morris. Espert renunciou à sua candidatura em 2026 depois que o escândalo veio à tona — uma renúncia política, não uma condenação judicial.
No Peru, a presidente Keiko Fujimori negou publicamente qualquer relação pessoal ou profissional com Cerimedo, depois que veículos peruanos noticiaram que ele teria atuado na campanha dela.
O que fica em aberto
O fio que originou esta matéria também afirma que Cerimedo teria uma foto com o "chefe da CIA" e que Rosales seria sócio do próprio Cerimedo — e não apenas de Dick Morris — numa "academia de consultores". A conclusão de que o chamado Escudo das Américas serviria para "administrar o narcotráfico" na região é uma interpretação do autor do fio — uma leitura política dos fatos relatados, não um achado de investigação jornalística ou judicial, e deveria ser tratada como tal se for citada.
Contexto e antecedentes
Cerimedo construiu, ao longo da última década, uma carreira como consultor de campanhas de direita e ultradireita em pelo menos seis países — Chile, Argentina, Bolívia, Honduras, Peru e, segundo acusações ainda não confirmadas, outros. O caso boliviano é o primeiro em que seu nome aparece associado diretamente a uma investigação por narcotráfico, e a revogação do visto do procurador que conduz essa apuração adiciona uma camada diplomática ao episódio, em meio à já tensa relação entre o governo Trump e o Judiciário de países latino-americanos.
Entre o áudio apresentado por um vice-presidente, o visto cassado de um procurador e fotos publicadas por uma ex-companheira, o Caso Cerimedo ainda tem mais perguntas abertas do que respostas confirmadas — e cabe à Justiça boliviana, não às redes sociais, dizer qual delas se sustenta.
Versão em áudio disponível no topo do post.