Aliado dos Bolsonaro que atacou as urnas, Cerimedo é levado a presídio na Bolívia
Transferido sob escolta a uma prisão de máxima segurança no altiplano boliviano, o consultor argentino responde por enriquecimento ilícito e tentativa de feminicídio — e foi peça central do ataque às urnas de 2022
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- O consultor argentino Fernando Cerimedo foi transferido nesta terça para o presídio de máxima segurança de Chonchocoro, no altiplano boliviano.
- Ele cumpre prisão preventiva por enriquecimento ilícito e responde ainda por tentativa de feminicídio contra a ex-companheira, a advogada Nadia Beller.
- Cerimedo é o autor da "live das urnas" de novembro de 2022, peça central da desinformação eleitoral que alimentou o golpismo no Brasil.
- A PF o incluiu no chamado "Núcleo de Desinformação e Ataques ao Sistema Eleitoral" do bolsonarismo.
- Por que isso importa: um dos principais operadores digitais da extrema direita latino-americana está preso — e o desdobramento tem pouca cobertura na imprensa tradicional brasileira.
Sob forte escolta policial, na madrugada desta terça-feira, o consultor político argentino Fernando Cerimedo foi transferido da cidade de Santa Cruz para La Paz, a fim de cumprir prisão preventiva no presídio de máxima segurança de Chonchocoro, no altiplano boliviano, a quase 4 mil metros de altitude. Por volta das 4h, deixou a penitenciária de Palmasola rumo ao aeroporto internacional de Viru Viru, de onde embarcou, escoltado por dois agentes, em um voo da empresa estatal boliviana com destino à capital. A transferência atende a uma segunda ordem de detenção, que determinou 180 dias de reclusão pelo suposto crime de enriquecimento ilícito.
O nome pode não dizer muito ao leitor desatento — mas Cerimedo é figura central em um dos capítulos mais graves da recente história eleitoral brasileira. E o fato de sua queda estar passando quase em silêncio na imprensa tradicional do país torna ainda mais necessário relembrar quem ele é.
Quem é Fernando Cerimedo
Argentino, Cerimedo se apresenta como consultor político e especialista em marketing digital, e é apontado como um dos principais estrategistas da direita e da extrema direita latino-americana. Fundou em 2021 o portal La Derecha Diario e integrou a estratégia de comunicação de Javier Milei na campanha presidencial argentina de 2023. Sua rede de influência atravessa fronteiras: prestou serviços ou forjou laços com nomes da direita no Brasil, no Chile e na Argentina, incluindo a família Bolsonaro.
A "live das urnas" e o núcleo golpista
A projeção de Cerimedo no Brasil tem data e hora. Em 4 de novembro de 2022, poucos dias após a vitória de Lula sobre Jair Bolsonaro, ele protagonizou uma transmissão ao vivo em que apresentou um documento apócrifo alegando que urnas fabricadas antes de 2020 não teriam sido auditadas e teriam registrado mais votos para Lula — algo que o material classificava, sem qualquer evidência, como "estatisticamente impossível de justificar". A live alcançou centenas de milhares de visualizações e foi massivamente compartilhada por apoiadores do então presidente.
Aquele "estudo" fraudulento não foi um episódio isolado. Ele embasou a representação com que o Partido Liberal (PL), de Bolsonaro, pediu ao TSE a anulação dos votos das urnas mais antigas. E, segundo a Polícia Federal, Cerimedo integrava o chamado "Núcleo de Desinformação e Ataques ao Sistema Eleitoral" — uma engrenagem que produzia supostas análises técnicas sobre as urnas, repassava o material ao argentino e usava sua estrutura de comunicação para amplificar as alegações falsas, inclusive para o exterior, driblando ordens judiciais de bloqueio. A PF chegou a indicá-lo para indiciamento como parte do núcleo golpista.
Vale o registro de rigor: o procurador-geral Paulo Gonet decidiu não denunciar Cerimedo no inquérito do golpe, argumentando que a PF não conseguiu provar que ele sabia que as informações eram falsas e que faziam parte de um plano de ruptura. A acusação, portanto, não virou processo nessa frente específica — o que não apaga o papel documentado de sua live na cadeia de desinformação.
As causas na Bolívia
A prisão atual, porém, nada tem a ver diretamente com o Brasil. Cerimedo foi detido em 18 de agosto de 2026, no aeroporto de Viru Viru, quando tentava embarcar para a Argentina, no âmbito da investigação sobre o ataque a tiros contra sua ex-companheira, a advogada e operadora política Nadia Beller, baleada três vezes em um hotel. Nesse processo, a Promotoria o acusa de tentativa de feminicídio, sob suspeita de ter contratado atiradores para matá-la.
Horas depois daquela primeira prisão, a Fiscalia abriu, de ofício, a investigação por enriquecimento ilícito — a que motivou a transferência para Chonchocoro. Em buscas ligadas ao consultor, as autoridades apreenderam 500 mil bolivianos, além de valores em dólares e euros, e equipamentos descritos pela Promotoria como uma "minifazenda de bots": uma estrutura de contas digitais falsas usada, segundo a acusação, para atacar adversários políticos. Cerimedo nega tudo — diz que o dinheiro tem origem legal e que os equipamentos eram apenas modems guardados em caixas. A Fiscalia ainda ampliou o caso, somando as suspeitas de usurpação de funções e lavagem de ativos, e o argentino responde a uma terceira causa, por violência doméstica contra Beller. A defesa nega e questiona as investigações.
O silêncio que chama atenção
Há um dado que salta aos olhos de quem acompanha o caso: a discrição com que a imprensa tradicional brasileira tem tratado a queda de um personagem que foi peça-chave no ataque às instituições do país. Um homem que ajudou a fabricar a principal peça de desinformação sobre as eleições de 2022 está preso, em uma prisão de máxima segurança, respondendo por tentativa de feminicídio e lavagem — e o assunto ocupa espaço marginal nos grandes veículos. A cobertura mais consistente tem vindo da imprensa boliviana, argentina e de veículos independentes.
Fica a pergunta, incômoda e legítima: por que a queda de um dos arquitetos da mentira das urnas — cuja influência chegou ao coração da política brasileira — merece tão pouca atenção de quem tem o dever de informar? Talvez a resposta diga menos sobre Cerimedo e mais sobre as zonas de conforto do próprio jornalismo.
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