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Bolívia prende chefe do Ministério Público; Ministério Público chama prisão de ilegal

Roger Mariaca, procurador-geral do Estado boliviano e responsável pela investigação do Caso Cerimedo, foi detido em Santa Cruz por suspeita de integrar organização criminosa ligada ao narcotráfico; o Ministério Público chama a prisão de ilegal

Bolívia prende chefe do Ministério Público; Ministério Público chama prisão de ilegal
📷 © AIZAR RALDES
📋 Em resumo ▾
  • O procurador-geral da Bolívia, Roger Mariaca, foi detido na noite de 30 de setembro no Aeroporto de Viru Viru, junto com o procurador departamental de Santa Cruz, Alberto Zeballos
  • Dois dias antes, os EUA haviam revogado o visto de Mariaca, acusando-o de corrupção significativa e de receber propina de narcotraficantes
  • O ministro do Governo boliviano diz que uma organização criminosa liderada por Mariaca foi desmontada; o próprio Ministério Público classifica a prisão como ilegal
  • Por que isso importa: Mariaca era o procurador à frente do Caso Cerimedo, que envolve acusações de narcotráfico e um ataque à ex-companheira do consultor argentino Fernando Cerimedo
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O procurador-geral do Estado da Bolívia, Roger Mariaca, foi detido na noite de 30 de setembro no Aeroporto Internacional de Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, junto com o procurador departamental de Santa Cruz, Alberto Zeballos — segundo confirmaram fontes oficiais à agência AFP e ao jornal boliviano La Razón. A prisão ocorre dois dias depois de o Departamento de Estado dos Estados Unidos ter revogado o visto de Mariaca, acusando-o de "corrupção significativa" ligada ao narcotráfico.

A acusação dos EUA

Segundo o Departamento de Estado, Mariaca recebeu propina de narcotraficantes para ajudá-los a escapar da Justiça. A medida, anunciada em 28 de setembro, atingiu cerca de 20 funcionários e empresários da Bolívia, Colômbia e Equador, segundo a AFP. Mariaca havia sido eleito para um mandato de seis anos em 2024, conforme prevê a Constituição boliviana.

"We are publicly designating the Attorney General of Bolivia, Roger Mariaca, for taking bribes from narcotraffickers to help them evade justice."
— comunicado do Departamento de Estado dos EUA, segundo reportagem do Townhall

A prisão e a acusação do governo boliviano

Segundo o ministro do Governo (equivalente a ministro do Interior) da Bolívia, Marco Antonio Oviedo, Mariaca é investigado pelos crimes de organização criminosa, legitimação de ganâncias ilícitas (lavagem de dinheiro) e tráfico ilícito de substâncias controladas, previstos no Código Penal boliviano. Oviedo afirmou que uma "organização criminosa" liderada por Mariaca foi desmontada, e que essa estrutura "participava, protegia e se enriquecia com substâncias controladas" — uma acusação do governo, ainda sem decisão judicial de mérito até a publicação desta matéria.

A Polícia também revistou sedes do Ministério Público em Sucre, segundo o Infobae. Policiais confirmaram ainda a prisão de quatro pessoas ligadas ao caso por transportar uma quantia expressiva de dinheiro em uma ambulância — episódio que a reportagem da Unitel associa diretamente ao caso Mariaca, embora os detalhes completos dessa conexão não tenham sido divulgados até agora.

A reação do Ministério Público: "prisão ilegal"

A versão do governo contrasta diretamente com a do próprio Ministério Público boliviano, que classificou a detenção de Mariaca como ilegal. Segundo a porta-voz da instituição, Claudia Pardo, citada pelo Infobae, a prisão ocorreu por motivos até agora desconhecidos — ela teria feito a denúncia cercada por policiais encapuzados, segundo relato de vídeo reproduzido por veículos europeus que replicaram a cobertura da AFP. Essa é uma contradição direta entre duas versões oficiais que esta matéria não tem como resolver — e que cabe à Justiça boliviana esclarecer.

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Com a "ausência definitiva" de Mariaca do cargo, assumiu interinamente Luis Montaño Morales, descrito pelo Ministério Público como "o procurador superior com maior antiguidade" na instituição. O advogado de Mariaca, Romel Ipamo, disse à imprensa local que seu cliente "vai colaborar com tudo" — uma declaração de cooperação, não uma confissão.

O procurador que investigava Cerimedo

Mariaca liderava, até sua prisão, as investigações contra o consultor político argentino Fernando Cerimedo, preso na Bolívia desde agosto sob acusação de tentativa de feminicídio contra a ex-companheira Nadia Beller, e que posteriormente passou a responder também por suspeita de proteção a voos ligados ao narcotráfico e por enriquecimento ilícito. Antes de ser preso, Mariaca havia usado entrevistas coletivas para alertar funcionários públicos contra qualquer obstrução às investigações, dizendo que quem tentasse interferir "enfrentaria as consequências" — segundo reportagem do Latin Times. Ele também havia dito publicamente que não recuaria "nem um centímetro" na apuração do caso Cerimedo e associou as sanções dos EUA contra ele às repercussões que suas próprias investigações tiveram dentro e fora da Bolívia — uma interpretação do próprio Mariaca sobre o motivo das sanções, não um fato estabelecido.

Contexto e antecedentes

O Caso Cerimedo já havia gerado tensão entre Washington e a Justiça boliviana antes mesmo da prisão de Mariaca: fotos divulgadas por Nadia Beller, no fim de setembro, ligavam Cerimedo a Donald Trump Jr. e ao ex-chefe de campanha de Trump, Brad Parscale, levantando questionamentos sobre se a revogação do visto de Mariaca seria uma forma de proteger essa rede de contatos. Agora, com o próprio Mariaca preso e acusado de proteger o narcotráfico, a disputa ganha uma camada adicional: o governo boliviano apresenta a prisão como combate à corrupção dentro do Ministério Público, enquanto a própria instituição a descreve como uma intervenção ilegal.

Entre a acusação americana, a versão do governo boliviano e a denúncia do próprio Ministério Público de que a prisão foi ilegal, o que fica claro por ora é que o procurador que prometia não recuar "nem um centímetro" na investigação de Cerimedo agora responde, ele mesmo, por crimes que investigava em outros.

Versão em áudio disponível no topo do post.

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