Painel Rondônia

A culpa do PT de Rondônia pelo avanço da extrema direita no Estado

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Via Painel Político

Rondônia atualmente choca o Brasil pela votação estrondosa de Jair Bolsonaro e uma guinada radical à direita, numa escalada que teve início com a derrocada do Partido dos Trabalhadores no Estado. Em 2016, Porto Velho, a capital, elegeu o então desconhecido promotor de justiça Hildon Chaves, a ‘zebra’ daquela eleição. Numa virada surpreendente, ele obteve 65,15% de votos, enquanto o segundo colocado, Léo Moraes, recebeu 34,85%.

A virada se deu em função de um recorte de debate, onde ele respondeu ao então candidato Williamens Pimentel que ‘conhecia ladrão em dois minutos de conversa’. O vídeo viralizou e se converteu em votos.

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Mas Chaves, uma forte guinada à direita, apesar de ter sido eleito pelo PSDB, foi apenas o reflexo de um processo que havia iniciado antes, e nesse caso, podemos dizer que ‘a culpa é do PT’. E do diretório regional. E para entender é preciso que a gente volte um pouco mais no tempo.

Historicamente o PT em Rondônia sempre elegia deputados estaduais e pelo menos um federal. Eduardo Valverde (1957/2011) era o expoente da legenda no Estado e em 2002, na eleição de Lula, foi eleito deputado federal pela primeira vez junto com Anselmo de Jesus e Fátima Cleide ao Senado.

Obras das usinas geraram milhares de empregos

Em 2004, o PT conseguiu eleger para administrar Porto Velho, o psicólogo Roberto Sobrinho. Na época, o PAC de Lula estava em andamento e a capital fervia com o anúncio do início das obras do complexo de usinas do rio Madeira. De repente, parecia que tudo ia dar certo. Previsão de empregos gerados diretamente era de 1.500 trabalhadores nos meses iniciais, até 4.500 trabalhadores nos 18 meses seguintes. Média de 10.000 trabalhadores durante 2 anos e até 20.000 trabalhadores no pico da obra.

O mercado imobiliário explodiu, inflacionando a cidade que até hoje não se recuperou. Porto Velho tem um dos custos de moradia mais altos do país, acredite.

O que parecia ser um ‘céu de brigadeiro’ virou um inferno. Roberto Sobrinho, que nunca havia tido nenhuma experiência administrativa, montou uma equipe que também tinha dificuldades, e o caos instalou-se. Duas obras na cidade marcaram esse período, a construção de dois viadutos que, por problemas diversos de engenharia, medições e políticos, era o memorial daquela gestão.

Roberto Sobrinho é ex-prefeito de Porto Velho

Em 2008, candidato a reeleição, Sobrinho usou como lema a frase ‘faz um transtorno aqui na minha rua’, por conta das críticas que recebia pela confusão que estava a cidade. A fala era de uma eleitora que pedia asfalto, e não se queixava dos problemas criados pelas obras. Roberto foi reeleito.

Ao mesmo tempo, o PT local não se entendia. A vaidade falava mais alto, além do estrelismo de Roberto, que acreditava ser ‘o melhor prefeito que aquela cidade já havia tido’, e usava o fato de ter sido reeleito como chancela de sua ‘ótima gestão’.

A vitória não havia sido tão tranquila e a insatisfação da população aumentava ainda mais com denúncias de malversação de dinheiro, incapacidade de gerenciar os recursos milionários de compensação que as usinas pagavam.

Ao mesmo tempo o Estado era governado por Ivo Cassol, que centralizador e com experiência em gestão pública e privada (havia sido prefeito e é um bem sucedido empresário no ramo de energia), servia como ponto de comparação. Enquanto Roberto não avançava, Cassol fazia estradas, construiu um centro administrativo e ainda jogava futebol nos rincões mais distantes do Estado, o que lhe rendia uma alta popularidade.

Erros e escândalos

Enquanto Ivo Cassol decidia tudo sozinho e ia fazendo, Roberto afundava na burocracia, com eventos para ‘debater o futuro’ em resorts de alto padrão que reunia seus secretários e auxiliares, enquanto a cidade estava mergulhada no caos. As compensações das usinas funcionavam da seguinte forma, a prefeitura apontava determinada necessidade e um orçamento. O consórcio das usinas executava e entregava a obra.

Ciclovia em foto de 2012 Credito da imagem: Google Street View Credito da imagem: Google Street View

Mas a qualidade e a pressa criaram inúmeros problemas, sem contar a bizarrice de algumas ‘necessidades’ como foi a construção de uma ciclovia na Estrada do Santo Antônio, que nada mais fizeram que o recorte da pista e a colocação de blocos de concreto isolando uma faixa de um metro. O trecho tem pouco mais de três quilômetros e em 2008 custou R$ 1 milhão. Nunca foi usada e o mato tomou conta.

Ivo Cassol

O Ministério Público montou na época uma equipe para fiscalizar algumas obras após o recebimento de denúncias, e encontrou falhas imensas. Para piorar ainda mais a situação, eu e o jornalista Paulo Andreoli, na época, descobrimos e publicamos que o prefeito havia aberto uma empresa, em seu endereço residencial, em sociedade com seu filho, para alugar caçambas para as obras das usinas. Ao ser confrontado com questionamentos sobre o caso, Sobrinho agiu como Bolsonaro. Xingou, esperneou e depois disse que ‘não via nada demais naquilo‘ e ainda complementou alegando que ‘ele era transparente’, sendo que não fosse nossa investigação, o caso teria passado despercebido.

Por conta desse e outros casos, o Ministério Público de Rondônia, na época comandado por Héverton Aguiar, deflagrou operação e Roberto foi preso e afastado do cargo na reta final de seu mandato. O vice, Emerson Castro assumiu, fez um acordo com as empreiteiras que construía um dos viadutos e liberou a passagem, o que, claro, teve um forte efeito psicológico na população.

Além de Roberto, secretários e assessores foram presos e afastados, e em 2011, a então deputada estadual Epifania Barbosa, que havia sido secretária de Educação de Roberto Sobrinho e tinha sido eleita para a Assembleia Legislativa, foi alvo de operação da Polícia Federal por supostamente ter recebido propina do então presidente da Assembleia, Valter Araújo que foi preso.

Eduardo Valverde

Em dezembro de 2010 morria Odair Cordeiro, que havia sido chefe de gabinete de Roberto Sobrinho e era quem ainda conseguia driblar as disputas internas do PT no Estado. Figura respeitada, com grande trânsito no governo federal, Odair deixou uma lacuna que nunca foi preenchida. Em março de 2011 morria Eduardo Valverde em um acidente de carro na BR 364 e o PT desandou de vez no Estado.

Fátima não conseguiu ser reeleita, as prefeituras do PT em cidades menores ruíam com denúncias e fofocas locais, além é claro, das disputas internas dos diretórios municipais.

Futuro do PT em Rondônia

Desde então o partido perdeu todos os espaços que havia conquistado em Rondônia, e com advento da Lava Jato, caíram todos na vala comum. O PT sobrevive regionalmente e mantém os mesmos índices que tinha antes da primeira eleição de Lula. A legenda faz a diferença nas disputas estaduais, mas elegeu apenas uma deputada estadual em 2022. Na campanha para governo, preferiu aliar-se a Daniel Pereira, tendo como vice Anselmo de Jesus, presidente do partido e amargou a quarta posição com 81.421 votos, pouco mais de 9% dos válidos.

Fátima Cleide integra a transição – Foto Reprodução/Redes Sociais

Roberto conseguiu, na justiça, ser absolvido em vários processos, porém ainda tem uma condenação por improbidade administrativa. Em 2016, ele tentou ser candidato, e até despontou em primeiro lugar numa pesquisa do Ibope. A condenação gerou inelegibilidade. No mesmo ano, o Ministério Público apresentou novas denúncias contra o ex-prefeito.

Com a vitória de Lula nas eleições deste ano, pode ser que o partido consiga ampliar os espaços, mas é bom destacar que o diretório estadual segue com o mesmo elenco, salvo algumas novidades, como Ramón Cujuí. A ex-senadora Fátima Cleide que é educadora foi anunciada nesta sexta-feira como integrante da equipe responsável pela transição do governo de Jair Bolsonaro para o governo Lula. Ela fará parte do Grupo Técnico de Educação.

Ramon Cujuí trouxe novos ares para a legenda

Evidente que o avanço da direita em Rondônia teve outros fatores, como o crescimento de denominações evangélicas no Estado, expansão do agronegócio, questões ambientais e a violência no campo. Mas é bom lembrar que no auge, Roberto Sobrinho era cotado para ser governador, porém, se perdeu em sua vaidade, arrastando toda uma construção que havia sido alicerçada por anos de luta, para o lamaçal da história.

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