A venda bilionária da Raízen na Argentina: alívio financeiro ou aposta estratégica?
Raízen vende operações na Argentina por US$ 1,42 bi em desinvestimento recorde
📋 Em resumo ▾
- A Raízen concluiu a venda de suas operações na Argentina para o grupo Mercuria Energy por US$ 1,42 bilhão, em transação anunciada em junho e finalizada em agosto de 2026
- O valor inclui parcela em dinheiro e a assunção de dívidas da subsidiária argentina — o montante líquido que entrará no caixa ainda será definido após ajustes
- A venda integra a estratégia de desalavancagem da companhia, em meio a um processo de recuperação extrajudicial que envolve dívidas de cerca de R$ 65 bilhões
- O Cade aprovou a operação sem restrições em julho, eliminando um dos principais entraves regulatórios
- Por que isso importa: a transação representa o maior desinvestimento da história da Raízen e pode ser um termômetro da capacidade da companhia de reestruturar seu balanço em meio ao momento mais desafiador de sua trajetória
A Raízen concluiu a venda de suas operações na Argentina para o grupo Mercuria Energy por US$ 1,42 bilhão. O negócio, que havia anunciado em junho, representa a saída definitiva da companhia do mercado mercado argentino de downstream—refino, distribuição e comercialização de combustíveis. A transação ocorre em meio a um processo de recuperação extrajudicial envolvendo dívidas de cerca de R$ 65 bilhões, tornando este o maior desinvestimento da história da empresa.
Os ativos negociados e o perfil do comprador
A operação envolve a transferência de ativos da Raízen Argentina S.A.U. para a Latam Downstream Holdings e a Silver Projects I S.A.U., sociedades controladas pelo grupo Mercuria . O portfólio negociado inclui a refinaria Dock Sud, uma das maiores da Argentina com 14% da produção nacional; uma fábrica de lubrificantes; e uma rede de cerca de 700 postos de combustíveis operados sob a marca Shell, que detêm aproximadamente 20% do mercado argentino .
A Mercuria Energy Group é uma das maiores traders independentes de energia e commodities do mundo, com presença em mais de 50 países. Sediada em Genebra, a empresa avalia que a Argentina "representa um importante mercado de energia com fundamentos sólidos a longo prazo e oportunidades significativas de crescimento operacional e investimento" .
O fechamento do negócio ocorreu após o cumprimento das condições previstas, incluindo as autorizações regulatórias. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou a operação sem restrições em julho de 2026 .
O valor real da transação: nem tudo é caixa
O montante de US$ 1,42 bilhão não corresponde integralmente a recursos que entrarão no caixa da Raízen. O valor considera tanto uma parcela paga em dinheiro quanto a dívida da Raízen Argentina que será assumida pelo comprador . O valor líquido que efetivamente ficará com a companhia ainda será definido após ajustes pós-fechamento, calculados a partir das demonstrações financeiras de conclusão da operação .
"A transação está alinhada à estratégia da Raízen de otimização de seu portfólio de ativos, simplificação de sua estrutura operacional e alocação disciplinada de capital, com foco em mercados e geografias prioritárias." — Raízen, em comunicado ao mercado em agosto de 2026 .
O preço está sujeito a ajustes pós-fechamento usuais em operações dessa natureza, incluindo capital de giro, caixa, dívida e despesas de transação . O BTG Pactual atuou como assessor financeiro da Raízen na negociação, enquanto o UBS representou a Mercuria .
O cenário de crise que motivou o desinvestimento
A venda ocorre em um momento de profunda reestruturação financeira da Raízen. A companhia, controlada pela Shell e pela Cosan, enfrenta um endividamento que supera R$ 65 bilhões e está em processo de recuperação extrajudicial desde março de 2026 .
No terceiro trimestre da safra 2025/2026, a empresa registrou prejuízo de R$ 15,65 bilhões, enquanto a dívida líquida avançou para R$ 55, 3 bilhões e a alavancagem saltou de 3 vezes para 5,3 vezes o Ebitda . A crise é atribuída a uma combinação de fatores: expansão simultânea em diferentes linhas de negócios, preços desfavoráveis para açúcar e etanol, e a aposta em etanol de segunda geração que não obteve os resultados esperados .
O plano de recuperação extrajudicial, submetido à 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, conta com adesão de 75,45% dos créditos financeiros e quirografários, equivalentes a R$ 64,7 bilhões. Entre as principais medidas, estão o aumento de capital de R$ 3,5 bilhões pela Shell conversão de 45% dos créditos reestruturados em participação acionária e a substituição dos 55% restantes por novos instrumentos de dívida .
Segundo a Raízen, os recursos líquidos obtidos com a venda serão direcionados à gestão de sua estrutura de capital . A empresa não detalhou, no comunicado, qual será a divisão desses recursos entre pagamentos de dívida e outras medidas financeiras.
Impactos e perspectivas para a Raízen e o mercado
A operação foi bem recebida pelo mercado: as ações da Raízen (RAIZ4) registraram alta de 2,5% após o anúncio inicial da transação . Para analistas do Bradesco BBI, a venda representa um passo importante dentro dos esforços da companhia para melhorar sua posição financeira .
Para o CEO Nelson Gomes, a transação representa "mais um importante passo na execução da estratégia da Raízen de simplificação de portfólio, ao mesmo tempo em que fortalece nossa estrutura de capital e aumenta a flexibilidade financeira da companhia" .
Embora o valor obtido corresponda a apenas uma fração dos aproximadamente R$ 65 bilhões que a empresa tenta renegociar, a venda amplia a liquidez da Raízen, reduz a pressão de curto prazo sobre a dívida e fortalece sua posição nas negociações com credores .
Do lado da Mercuria, a compra dos ativos da Raízen amplia sua presença física e comercial na América do Sul, incorporando uma estrutura já estabelecida de refino, distribuição e comercialização de derivados. O acordo também é considerado uma vitória para o presidente argentino Javier Milei, que concorrerá à reeleição em 2027 e busca demonstrar que as reformas de livre mercado podem atrair investimentos .
A conclusão da venda dá sequência ao processo de reorganização do portfólio da Raízen e de concentração de recursos em mercados e geografias considerados prioritários. Resta saber se o alívio financeiro proporcionado por esta venda será suficiente para recolocar a companhia em uma trajetória sustentável — ou se este é apenas o primeiro passo em uma longa jornada de reestruturação.
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