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Adoção de inteligência artificial no setor público atinge 59%

Pesquisa do Cetic.br mostra que 94% do Judiciário usa a tecnologia, mas 40% das prefeituras travam por falta de capacitação dos servidores

Adoção de inteligência artificial no setor público atinge 59%
📷 Shutterstock
📋 Em resumo
  • Inteligência Artificial já opera em 59% dos órgãos públicos federais e estaduais.
  • Poder Judiciário lidera a transformação com 94% de adoção, seguido pelo Ministério Público.
  • Apenas 27% das prefeituras usam a tecnologia, com abismo entre capitais (81%) e cidades pequenas (22%).
  • Por que isso importa: A modernização tecnológica esbarra na falta crônica de capital humano, transformando a inovação em um privilégio de grandes centros
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A Inteligência Artificial (IA) já opera em 59% dos órgãos públicos federais e estaduais brasileiros, segundo a pesquisa TIC Governo 2025, divulgada nesta quinta-feira (23) pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br). Enquanto o Judiciário lidera a transformação com 94% de adoção, as prefeituras enfrentam um abismo digital, travadas principalmente pela falta de capacitação técnica de seus servidores.

A hegemonia do Judiciário e a automatização de fluxos

Os dados, coletados pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), revelam uma assimetria clara entre os poderes. O Poder Judiciário lidera com 94% de adoção, seguido pelo Ministério Público (92%) e pelo Poder Legislativo (83%). O Poder Executivo aparece com 55%.

Entre os órgãos que já utilizam a tecnologia, a aplicação mais frequente é a automatização de processos de fluxos de trabalho, adotada por 39% das instituições. Em seguida, destacam-se a mineração de texto e a análise de linguagem (35%) e ferramentas de aprendizagem de máquina para predição de dados (31%).

O abismo digital nas prefeituras brasileiras

Pela primeira vez, o estudo mapeou o uso de IA nas prefeituras, constatando uma média nacional de apenas 27%. No entanto, esse número esconde uma disparidade brutal baseada no porte do município.

A adoção alcança 85% nas cidades com mais de 500 mil habitantes e 81% nas capitais. Em contraste, nos municípios com até 10 mil habitantes, o percentual despenca para 22%. O mesmo padrão se repete na Inteligência Artificial Generativa: enquanto 65% dos órgãos federais a usam em processos internos, apenas 31% das prefeituras o fazem.

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"Quando o governo oferta um serviço digital, mas não monitora o seu uso ou a satisfação do usuário ao longo do tempo, ele perde a capacidade de identificar se a ferramenta de fato atende às necessidades dos cidadãos", avalia Manuella Maia Ribeiro, coordenadora de Pesquisas TIC.

A barreira da capacitação e a ilusão da modernização

A falta de capacitação desponta como o principal gargalo, apontado por 40% das prefeituras. Nas administrações municipais, os gestores também citam como entraves o fato de a tecnologia não ser considerada prioridade de governo (36%), dificuldades com a qualidade dos dados (35%) e custos elevados (34%).

"Ampliar a capacitação dos servidores públicos é um passo fundamental para que essas tecnologias sejam incorporadas de forma cada vez mais qualificada", explica Alexandre Barbosa, gerente do Cetic.br.

A pesquisa também aponta que, embora 83% das prefeituras emitam nota fiscal eletrônica e 64% usem WhatsApp ou Telegram para atendimento, apenas 30% coletam estatísticas de uso desses serviços e meros 22% medem a satisfação dos usuários.

O custo humano da transformação digital

A tecnologia no setor público não é um fim em si mesma, mas um meio para ampliar a eficiência e a transparência. No entanto, os dados do Cetic.br expõem uma contradição estrutural: compra-se a ferramenta, mas não se investe no operador.

Implementar algoritmos de predição ou automatização em um órgão que não possui servidores treinados para auditar esses processos ou interpretar seus resultados não gera modernização. Gera, no máximo, uma fachada de inovação sobre uma base operacional frágil.

Resta uma reflexão socrática para os gestores públicos: de que adianta possuir a tecnologia mais avançada do mercado se o capital humano necessário para operá-la com segurança e ética continua sendo tratado como um custo, e não como o ativo mais valioso do Estado? A verdadeira transformação digital começa nas pessoas, não nos servidores em nuvem.


Versão em áudio disponível no topo do post.

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