Análise & Opinião

Aos 38 anos, sobrou Constituição e faltou constitucionalismo

O advogado Luiz Felipe da Silva Andrade analisa o paradoxo entre as promessas da Constituição de 1988 e a prática brasileira, 38 anos depois da promulgação

Aos 38 anos, sobrou Constituição e faltou constitucionalismo
📷 Reprodução
📋 Em resumo ▾
  • A Constituição Federal completa 38 anos nesta segunda (5/10), promulgada em 1988 como a "Constituição Cidadã"
  • Para o autor, o Brasil nunca teve falta de Constituição — teve falta de constitucionalismo, isto é, de respeito prático aos limites que ela impõe
  • O texto argumenta que garantias e divisão de poderes são tratadas como "inconvenientes" quando protegem quem se discorda
  • Por que isso importa: a data levanta a pergunta sobre se o aniversário da Constituição é motivo de celebração ou de cobrança
Compartilhar: WhatsApp X LinkedIn

Hoje, a Constituição Federal completa 38 anos.

Em 5 de outubro de 1988, o Brasil promulgava a chamada "Constituição Cidadã", carregada de promessas: liberdade, igualdade, segurança, justiça, dignidade, eficiência do Estado, respeito às instituições e limites ao exercício do poder.

Trinta e oito anos depois, talvez a pergunta mais incômoda não seja o que devemos comemorar, mas quanto dessas promessas conseguimos realmente cumprir.

Criamos uma Constituição generosa em direitos e um Estado frequentemente incompetente para entregá-los.

Escrevemos que todos são iguais perante a lei, mas nos acostumamos a descobrir que algumas interpretações são mais iguais que outras.

Apoie o jornalismo independente
Leia o Painel Político por inteiro
Assine e tenha acesso ao arquivo completo e a tudo que publicamos. Você sustenta um jornalismo que não se dobra ao poder.
Assinar por R$ 19/mês
ou acompanhe de graça
São canais, não grupos: só o Painel publica, ninguém comenta, seu número fica oculto. Saia quando quiser.

Consagramos o devido processo legal, a ampla defesa e o contraditório, mas não raramente tratamos garantias fundamentais como inconvenientes quando protegem quem não gostamos.

Dividimos o poder para impedir abusos e, aos poucos, transformamos excepcionalidades em rotina, competências em territórios de disputa e freios e contrapesos em cabo de guerra institucional.

Prometemos segurança, saúde, educação e dignidade. Em contrapartida, construímos uma das máquinas estatais mais caras, complexas e burocráticas que o cidadão é obrigado a sustentar — muitas vezes para depois precisar lutar contra ela.

Talvez esse seja o paradoxo brasileiro: nunca nos faltou Constituição. Faltou-nos constitucionalismo.

Porque Constituição não é um livro bonito para ser citado em discursos solenes no dia 5 de outubro. É, sobretudo, um conjunto de limites que devem ser respeitados justamente quando seria mais conveniente ignorá-los.

A democracia também não se mede pela fidelidade às regras quando elas favorecem os nossos. Mede-se pela disposição de respeitá-las quando beneficiam aqueles de quem discordamos.

Aos 38 anos, nossa Constituição merece menos homenagens protocolares e mais obediência.

Menos discursos em sua defesa.

Menos interpretações de ocasião.

Menos relativização conveniente de garantias.

E muito mais compromisso com aquilo que efetivamente está escrito nela.

Porque uma Constituição que precisa ser celebrada todos os anos, mas lembrada diariamente aos próprios Poderes que deveriam protegê-la, talvez tenha pouco motivo para festa.

Hoje, portanto, não é exatamente um dia de comemoração.

É um dia de cobrança.

A Constituição chegou aos 38.

Resta saber quando o Brasil chegará à Constituição.

Por: Luiz Felipe da Silva Andrade - advogado e, ainda, otimista.

Versão em áudio disponível no topo do post.

💬 Comentários

Carregando comentários…

#painelpolitico #ReformadoJudiciario #JusticaBrasil #TransparenciaPublica #PoliticaBrasil