Após renunciar, Peña desaparece e Paraguai cogita fuga à Argentina
Porta-voz da Presidência admite não saber onde está o presidente renunciante; oposição suspeita de fuga à Argentina, negada por Buenos Aires, enquanto manifestantes cercam o Congresso
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- O porta-voz da Presidência paraguaia, Guillermo Grance, admitiu publicamente não saber onde está Santiago Peña após o anúncio de renúncia.
- Parlamentares da oposição, como a deputada Johana Ortega, afirmam que Peña teria ido para a Argentina; o governo de Javier Milei nega.
- A ex-senadora Kattya González revelou que, segundo “informações”, uma ordem de prisão contra Peña seria expedida nas próximas horas — e que o Brasil teria negado asilo, enquanto a Argentina teria aceitado.
- Manifestantes entraram em confronto com a polícia em frente ao Congresso paraguaio, exigindo que Peña perca o cargo e seus direitos políticos para responder à Justiça.
- Por que isso importa: o sumiço de um chefe de Estado em plena crise bancária e institucional é inédito na região nos últimos anos, e reaviva o paralelo com a fuga de Flávio Bolsonaro — outro episódio em que a Argentina negou envolvimento e, depois, a imprensa internacional mostrou outra versão.
O Paraguai vive, nesta quinta-feira (5/11), um apagão institucional sem precedentes recentes: ninguém no governo confirma onde está o presidente Santiago Peña, que anunciou renúncia ao cargo em vídeo gravado, em meio à crise financeira provocada pela quebra do Ueno Bank. O próprio porta-voz da Presidência, Guillermo Grance, admitiu publicamente desconhecer o paradeiro do mandatário renunciante, segundo reportagem da agência argentina Noticias Argentinas replicada por veículos de Assunção e Buenos Aires.
A renúncia que o Congresso não aceitou
Peña gravou uma mensagem dizendo que agia “com o coração posto no Paraguai e com a convicção de que nossa República sempre deve estar acima de qualquer pessoa ou circunstância”, e encarregou o ministro do Interior, Enrique Riera, de entregar o documento formal de renúncia ao Congresso. Mas a sessão conjunta do Legislativo paraguaio, que decidiria aceitar ou rejeitar a saída de Peña, caiu por falta de quórum — deputados do próprio partido do presidente, o Colorado, deixaram o plenário. Isso significa que, formalmente, Peña ainda ocupa o cargo, mesmo após anunciar que deixaria o poder. Em paralelo, a Câmara dos Deputados já havia aprovado, por unanimidade, abrir um processo de impeachment contra ele, com base em acusações de conflito de interesses e omissão na supervisão do Ueno Bank.
Onde está o presidente? Nem o governo sabe
A pergunta que domina a crise paraguaia nesta noite não é mais sobre o impeachment, mas sobre a localização física do próprio Peña. O vocero da Presidência paraguaia, Guillermo Grance, manifestou publicamente que desconhece o paradeiro atual do mandatário renunciante, segundo a Noticias Argentinas — uma admissão feita em grupo de WhatsApp da Presidência, que aumentou a incerteza institucional justamente no momento em que o Congresso tentava decidir seu futuro.
A hipótese da fuga para a Argentina
Foi nesse vácuo de informação que a deputada paraguaia Johana Ortega, do Partido País Solidario, levantou a suspeita que já havia se espalhado pelas redes: ela questionou, durante a sessão do Congresso, se Peña já teria deixado o Paraguai rumo à Argentina sem comunicar oficialmente a saída ao Legislativo, o que configuraria uma nova violação constitucional. “Enquanto nós debatemos aqui, nos meios de comunicação está se afirmando que o presidente Santiago Peña já pisou em solo argentino”, disse a parlamentar.
A ex-senadora paraguaia Kattya González foi além, em entrevista à rádio argentina Con Vos:
“Ninguém está em condições de assegurar [que Santiago Peña está no Paraguai]. Houve informações de que, em conversa com Javier Milei, ele poderia se refugiar na Argentina. É um rumor, um rumor que tem certa base [...] Também temos informação de que nas próximas horas sairia a indiciação e a ordem de prisão, mas ainda não está, não há restrição para ele deixar o país [...] Temos informação de que se falou com o Brasil e a Argentina: o Brasil disse que não, e a Argentina, que sim.”
É importante marcar: trata-se de uma declaração da própria fonte classificada como “rumor” — este veículo não localizou confirmação oficial independente desse diálogo entre governos.
A negativa de Buenos Aires — e o monitoramento da fronteira
O governo argentino negou, em bloco, qualquer entrada de Peña no país. Fontes da Casa Rosada disseram ao jornal La Nación: “Não, não há nada disso. Nem que esteja na Argentina, nem que tenha pedido asilo, nem que esteja vindo. Não temos nenhuma informação a respeito”. A ministra da Segurança argentina, Alejandra Monteoliva, foi além e disse à emissora A24 que deu ordem para monitorar a fronteira com o Paraguai e com o Brasil a cada meia hora, e que não foi constatada a entrada de Peña. Rumores paralelos chegaram a apontar a cidade argentina de Mendoza como destino, alimentados pela chegada de voos privados vindos de Assunção — mas sem qualquer confirmação de que Peña estivesse a bordo.
Um roteiro conhecido: o que aconteceu com Flávio Bolsonaro
A desconfiança da oposição paraguaia com a palavra do governo argentino não nasceu no vácuo. Há poucos dias, Buenos Aires negou qualquer papel na saída do senador brasileiro Flávio Bolsonaro do Brasil para os Estados Unidos — o porta-voz da Casa Rosada, Adrián Ravier, chegou a chamar de “irrelevante” saber se Javier Milei tinha conhecimento do caso. Pouco depois, o próprio New York Times revelou que o assessor presidencial argentino Santiago Caputo esteve em Puerto Iguazú durante a passagem de Flávio pela Argentina e teria mandado um policial apagar vídeos do episódio. É esse antecedente — negativa oficial seguida de revelação jornalística — que explica por que boa parte da classe política paraguaia não toma a palavra do governo Milei como definitiva.
Manifestantes nas ruas, gás lacrimogêneo e um “tem que ir para a cadeia”
Enquanto o imbróglio institucional se arrastava, dezenas de manifestantes se instalaram em frente ao Congresso Nacional, em Assunción, exigindo que a Câmara concluísse o processo de impeachment para que Peña perdesse o foro privilegiado e pudesse responder à Justiça comum. Segundo a agência EFE, houve confronto: manifestantes e policiais se enfrentaram nas imediações do Congresso, e alguns presentes denunciaram que agentes lançaram gás lacrimogêneo sobre o público. Um dos manifestantes, identificado como Cristian Domínguez, resumiu a indignação popular: “Tem que ir para a cadeia”, disse, ao exigir também a recuperação dos recursos públicos investidos no Ueno Bank e dos depósitos dos correntistas que ficaram congelados.
Em menos de uma semana, o Paraguai passou de “nova Suíça da América do Sul” — rótulo usado por influenciadores de direita para atrair investidores e imigrantes que não querem pagar impostos — para um país sem saber se seu próprio presidente está dentro das fronteiras nacionais. O caso Ueno Bank, que começou como uma crise de supervisão bancária, se transformou em algo maior: um teste sobre se as instituições paraguaias conseguem responsabilizar um chefe de Estado em exercício, mesmo quando ele mesmo diz ter saído do cargo. A reposta a essa pergunta deve vir do Senado, que assumirá a condução do processo de impeachment — se, e quando, Peña reaparecer para enfrentá-lo.
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