Assassinato de presidente do Haiti foi financiado com dinheiro desviado de combate a Covid
Dezoito acusados foram levados do Haiti a Miami neste fim de semana; para os promotores, verbas de PPP e EIDL obtidas com fraude ajudaram a bancar o crime
📋 Em resumo ▾
- Dezoito acusados no assassinato do presidente haitiano Jovenel Moïse (2021) foram transferidos do Haiti para o Sul da Flórida no domingo (20) e passam a responder à Justiça federal dos EUA.
- Entre eles está Joseph Felix Badio, ex-funcionário do Ministério da Justiça do Haiti apontado como um dos organizadores; dos 18, 17 são cidadãos colombianos, segundo o governo da Colômbia.
- Promotores sustentam que recursos de auxílio da pandemia (PPP e EIDL) obtidos com fraude no Sul da Flórida ajudaram a financiar o plano — tese já reconhecida em processo anterior.
- Em julho de 2026, o financiador Keegan Harricharan foi condenado a 20 anos por lavar verbas fraudadas da Covid usadas na conspiração; em maio, outros quatro réus já haviam sido condenados.
- Por que isso importa: é um caso raro em que a fraude a programas sociais é apontada como o "motor" financeiro do assassinato de um chefe de Estado — e um teste do alcance da Justiça americana sobre um crime cometido fora dos EUA
Dezoito homens acusados de participação no assassinato do presidente do Haiti, Jovenel Moïse, morto em 2021, foram transferidos da custódia haitiana para a dos Estados Unidos no domingo (20) e começam a responder perante a Justiça federal em Miami. Segundo os promotores, parte do dinheiro que financiou o plano veio de fraudes em auxílios da pandemia. Câmeras de emissoras americanas, entre elas a Fox News, registraram a chegada dos suspeitos à custódia dos EUA.
Quem foi transferido — e o que os EUA pretendem provar
O grupo foi levado do Haiti ao Sul da Flórida em um avião militar, segundo o Departamento de Justiça dos EUA (DOJ). Entre os transferidos está Joseph Felix Badio, ex-funcionário do setor anticorrupção do Ministério da Justiça haitiano, apontado por fontes do governo e da polícia do Haiti como um dos principais suspeitos e alegado organizador. Registre-se a distinção: trata-se de acusação a ser provada em juízo — nenhum dos 18 foi condenado, e todos gozam de presunção de inocência.
Segundo o governo da Colômbia, 17 dos 18 são cidadãos colombianos, a maioria ex-militares. Bogotá afirmou acompanhar a transferência, mas ressaltou que não interveio na decisão nem no processo que levou seus nacionais aos EUA.
O procurador federal Jason Reding Quiñones (Distrito Sul da Flórida) afirmou que já são 30 os indiciados no caso ao longo dos cinco anos de investigação.
"Cinco anos depois, ainda estamos levando réus aos tribunais americanos, e não terminamos." — Jason Reding Quiñones, procurador federal (Distrito Sul da Flórida)
A tese central: fraude no auxílio da Covid como "motor" do crime
O ponto que dá dimensão internacional ao caso é a origem do dinheiro. Os promotores sustentam que verbas dos programas emergenciais americanos — o PPP (Paycheck Protection Program) e o EIDL (Economic Injury Disaster Loan), criados pela lei CARES Act durante a pandemia — foram obtidas de forma fraudulenta no Sul da Flórida e canalizadas para o plano contra Moïse: armas, munição, equipamento tático e o pagamento de mercenários.
É importante separar o que é acusação do que já é fato reconhecido em juízo. Contra os 18, a tese ainda precisará ser provada. Mas o próprio DOJ já estabeleceu esse nexo financeiro em um processo anterior, com uma condenação já transitada por confissão — o que confere lastro à linha de investigação.
O que já foi julgado: condenações e uma pena de 20 anos
Em julho de 2026, Keegan Harricharan, 42, de Coral Springs, descrito como financiador ligado à trama, foi condenado a 20 anos de prisão federal por conspiração para lavagem de dinheiro. Ele se declarou culpado. Conforme o DOJ, Harricharan e um sócio obtiveram cerca de US$ 840 mil em empréstimos fraudulentos do PPP a partir de junho de 2020 e, entre abril e maio de 2021, ele se reuniu repetidas vezes na Flórida com integrantes da conspiração, usando sua empresa, a TNR Holding Group, para receber e distribuir os recursos fraudados.
"O crime financeiro é, com frequência, o motor por trás de condutas muito mais perigosas." — Jason Reding Quiñones, procurador federal, sobre o caso Harricharan
Antes disso, em maio de 2026, outros quatro réus foram condenados em Miami por crimes que incluem conspiração para matar ou sequestrar Moïse, apoio material e violação da Lei de Neutralidade dos EUA — eles podem pegar prisão perpétua. Os quatro estavam ligados à CTU (Counter Terrorist Unit Security), empresa de segurança privada sediada na Flórida, e teriam sido atraídos pela promessa de contratos vantajosos caso o presidente fosse deposto.
Mercenários colombianos e a defesa de que foram enganados
Moïse, de 53 anos, foi morto a tiros em 7 de julho de 2021, em sua residência particular em Porto Príncipe, por um grupo de cerca de 20 mercenários colombianos com treinamento militar; sua segurança não reagiu, e sua esposa foi baleada, mas sobreviveu.
A linha de defesa que deve reaparecer no processo americano é a mesma sustentada pelo governo colombiano desde o início: a de que a maioria dos ex-soldados teria sido enganada, acreditando participar de uma missão legítima de proteção, e que apenas poucos sabiam tratar-se de uma operação criminosa. É uma disputa de fato — quem sabia o quê — que caberá ao júri de Miami dirimir.
Por que um leitor no Brasil deveria acompanhar o caso
O episódio ultrapassa o Haiti por três razões. Primeira: expõe como redes privadas de segurança e recrutamento de ex-militares operam através das fronteiras da América Latina, com colombianos, haitianos e cidadãos com dupla nacionalidade articulados a partir de solo americano. Segunda: mostra o alcance extraterritorial da Justiça dos EUA, disposta a julgar em Miami um crime cometido em outro país — enquanto a própria investigação haitiana emperrou, sob ameaças de morte a juízes locais. Terceira: escancara o paradoxo de que dinheiro público desviado de um programa social possa terminar financiando violência política a milhares de quilômetros de distância.
O caso Moïse consolida uma lição desconfortável para a região: fraude a programas de socorro não é só prejuízo ao contribuinte — pode ser o combustível de crimes muito maiores. Com 30 indiciados, quatro condenados, um financiador preso e a promessa dos promotores de que "não terminaram", a pergunta que fica é se a Justiça americana chegará, de fato, ao "último responsável" — e o que significa, para a soberania e a estabilidade no continente, que a resposta a um magnicídio haitiano esteja sendo escrita em um tribunal de Miami.
Versão em áudio disponível no topo do post.