Ataque fazenda Norbrasil: policial é morto e agrava crise fundiária em RO
Conflito em Nova Mutum Paraná reacende debate sobre regularização de terras e a omissão estatal que alimenta ciclos de violência no campo rondoniense
📋 Em resumo ▾
- Em resumo
- Ataque armado na Fazenda Norbrasil, em 14 de abril de 2026, deixou um policial civil aposentado morto, trabalhadores feridos e quatro desaparecidos.
- A propriedade, ligada ao latifundiário Antônio Martins dos Santos ("Galo Velho"), é alvo recorrente de conflitos desde 2020, com histórico de grilagem apontado em investigações federais.
- A Liga dos Camponeses Pobres (LCP) é apontada pelas autoridades como responsável pelo ataque; o movimento nega acusações e denuncia repressão estatal seletiva.
- Por que isso importa: A escalada de violência em Rondônia evidencia a ausência de política fundiária efetiva, transformando disputas por terra em tragédias evitáveis com impacto direto na segurança pública e na economia regional.
Um ataque armado na Fazenda Norbrasil, às margens da BR-364 em Nova Mutum Paraná, distrito de Porto Velho, deixou na noite desta terça-feira (14) o policial civil aposentado Joaquim Lopes da Silva morto, trabalhadores feridos e quatro desaparecidos. A ação, atribuída pela família do proprietário e por autoridades a integrantes da Liga dos Camponeses Pobres (LCP), reacende o debate sobre a ausência de soluções estruturais para conflitos fundiários em Rondônia — e cobra do Estado uma resposta definitiva, não apenas reativa.
O que aconteceu na noite do ataque
Por volta das 14h, uma equipe de seis trabalhadores retornava de almoço a uma residência em reforma dentro da propriedade quando foi surpreendida por homens armados posicionados atrás da edificação. Os disparos foram imediatos. Um trabalhador, atingido no rosto e no braço, conseguiu fugir até a BR-364 e foi socorrido por uma equipe de passagem, sendo levado à UPA de Jaci-Paraná. Outro funcionário, baleado no pé, escondeu-se em uma vala até ser resgatado."Os criminosos chegaram atirando, tomaram o local e agrediram com coronhadas. Além da morte do policial, quatro trabalhadores desapareceram", relatou um carpinteiro que estava no local.Um veículo da propriedade foi incendiado durante a fuga dos agressores. Policiais do 9º Batalhão de Polícia Militar (9º BPM) encontraram o carro em chamas e cápsulas de fuzil no local, indicando uso de armamento pesado. A Polícia Militar de Rondônia reforçou o patrulhamento na região e iniciou buscas pelos desaparecidos.Na unidade hospitalar de Extrema, um trabalhador de nacionalidade boliviana foi atendido com ferimentos por disparo de arma de fogo, corroborando a dinâmica do ataque. Parte das vítimas foi transferida para Porto Velho no final da noite para atendimento especializado.
Norbrasil: histórico de um conflito que não é novo
A Fazenda Norbrasil não é um cenário improvisado de violência. A propriedade está vinculada ao latifundiário Antônio Martins dos Santos, conhecido como "Galo Velho", apontado já em 2005 na CPI da Grilagem como um dos maiores grileiros de Rondônia. Investigações do Ministério Público Federal (MPF) e da Polícia Federal (PF) indicam que Martins comandaria uma organização criminosa responsável por desviar mais de R$ 330 milhões em fraudes no estado, utilizando bandos armados — inclusive com participação de policiais — para garantir o controle de terras.Em 2017, um processo de reintegração de posse na área foi arquivado pela Justiça Federal porque o suposto proprietário não conseguiu comprovar a cadeia dominial do imóvel — indício forte de que se tratava de terra pública grilada. Ainda assim, a área jamais foi destinada à reforma agrária, como prevê a Constituição de 1988.Em junho de 2020, mais de 600 famílias ocuparam a região e fundaram o Acampamento Tiago Campin dos Santos, organizado pela LCP. O local tornou-se símbolo da luta camponesa em Rondônia — e, consequentemente, alvo de operações de repressão.
Este conteúdo é exclusivo para assinantes.
Por menos de um café por semana, leia sem limites.