Millennium Locadora: do jatinho de Lula aos contratos bilionários
PF apreende R$ 800 mil em espécie na Operação Reduto; empresa de Ivair Ferreira tem contratos em AM, RO, TO e foi citada na campanha presidencial de 2022
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- A Polícia Federal deflagrou a Operação Reduto, apreendendo R$ 800 mil em espécie na casa de empresário ligado à Millennium Locadora em Manaus.
- A empresa, sediada no Amazonas, possui contratos milionários em diversos estados e municípios, incluindo Rondônia, onde atua junto ao Governo do Estado, Assembleia Legislativa e prefeituras.
- O jatinho da Millennium (Citation XLS, prefixo PP-IVA) transportou Lula em viagem da campanha presidencial de 2022, gerando polêmica à época.
- Os valores apreendidos pertencem ao empresário Ivair Ferreira, não a servidores ou agentes políticos da Assembleia de Rondônia.
- Por que isso importa: A
- Operação Reduto expõe a capilaridade de um grupo empresarial que transforma contratos públicos em um império com ramificações em múltiplas esferas de governo.
A Polícia Federal (PF) deflagrou nesta quinta-feira (9) a Operação Reduto, desta vez com foco em Manaus, onde apreendeu cerca de R$ 800 mil em dinheiro vivo na residência de um empresário ligado à Millennium Locadora. A ação, que cumpriu 19 mandados de busca e apreensão e 2 de prisão preventiva, mira um esquema de fraudes em licitações, lavagem de dinheiro e "rachadinha" que teria ramificações em Rondônia e no Amazonas.
É importante esclarecer, desde logo, que os valores apreendidos na operação pertencem ao empresário Ivair Ferreira, dono da Millennium Locadora, e não a servidores, deputados ou agentes políticos da Assembleia Legislativa de Rondônia. A confusão gerada em redes sociais precisa ser desfeita: o alvo da PF é o núcleo empresarial do esquema, não o Legislativo rondoniense.
O império da Millennium: de Manaus ao Brasil
Sediada no bairro Adrianópolis, em Manaus, a Millennium Locadora Ltda não é uma empresa qualquer. Pertencente a um dos mais ricos e influentes grupos empresariais do Amazonas, a companhia transformou contratos públicos em um império que se espalha por múltiplos estados e esferas de governo.
No Amazonas, os números impressionam. Só com a Prefeitura de Manaus, a empresa faturou R$ 63,8 milhões apenas em 2025, somando seus contratos com a Secretaria Municipal de Educação (Semed). Um aditivo recente de R$ 42,2 milhões prorrogou por mais 12 meses o contrato de locação de ônibus escolares. Somando todos os ajustes, os gastos da Semed com a Millennium ultrapassam a marca de R$ 106 milhões.
Além disso, a empresa mantém contratos com o Governo do Amazonas, incluindo um contrato de mais de R$ 15 milhões com a extinta Agência de Desenvolvimento Sustentável (atual AADESAM) para aluguel de máquinas pesadas, e outro com a Mill Taxi Aéreo, braço do grupo especializado em locação de jatinhos de luxo.
A presença em Rondônia
A capilaridade da Millennium não se limita ao Amazonas. Em Rondônia, a empresa possui filial registrada em Porto Velho, com capital social declarado de R$ 30,6 milhões.
No estado, a Millennium já participou de licitações junto ao Governo de Rondônia, por meio da Superintendência Estadual de Licitações (Supel), em pregão eletrônico para locação de veículos. A empresa também firmou contratos com a Prefeitura de Porto Velho e, segundo informações do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RO), chegou a ter um contrato com o Departamento de Estradas de Rodagem (DER-RO) no valor total de R$ 277,6 milhões, que foi suspenso pela Corte de Contas.
A presença da empresa se estende ainda à Assembleia Legislativa de Rondônia (ALE-RO), onde há registros de contratos de locação de viaturas, alvo de requerimentos de deputados estaduais que solicitaram informações sobre os ajustes.
O jatinho que transportou Lula em 2022
A Millennium Locadora ganhou notoriedade nacional em novembro de 2022, quando seu jatinho Citation XLS, de prefixo PP-IVA, transportou o então presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva de São Paulo a Brasília, logo após a vitória eleitoral.
A aeronave também trouxe a futura primeira-dama Rosângela da Silva (Janja) e o ex-ministro Fernando Haddad. O episódio gerou polêmica, pois o jato pertencia a um empresário com contratos milionários com o poder público, levantando questionamentos sobre a relação entre o grupo empresarial e a cúpula petista.
À época, Lula justificou o uso da aeronave criticando o então presidente Jair Bolsonaro: "Ele não ofereceu da FAB", respondeu. O registro da firma na Receita Federal apontava como sócio-administrador justamente Ivair Ferreira, o mesmo empresário alvo da Operação Reduto nesta semana.
A Operação Reduto e o esquema de fraudes
As investigações da PF, chanceladas pelo Tribunal de Justiça de Rondônia (TJ-RO), revelaram que a organização criminosa operava de forma altamente estruturada, dividida em dois braços operacionais simultâneos. A primeira frente dedicava-se quase exclusivamente à fraude de processos licitatórios e ao suposto direcionamento ilícito de contratos milionários.
O fio da meada que levou as autoridades a desbaratar o esquema surgiu ainda no início de 2024, quando a inteligência da PF começou a mapear o grupo após receber Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) elaborados pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Os documentos apontavam movimentações financeiras atípicas vinculadas a uma empresa sediada em Manaus que mantinha contratos públicos vultosos em Rondônia, com fluxo de caixa completamente incompatível com sua capacidade econômica declarada, indicando seu provável uso como firma de fachada.
Durante as diligências em condomínios de alto padrão na Ponta Negra, área nobre de Manaus, e em endereços estratégicos em Rondônia, os agentes federais encontraram um cenário de intensa ostentação: cerca de R$ 800 mil em dinheiro vivo, estocados em pacotes de notas, além de uma robusta coleção de relógios de luxo e veículos importados.
A defesa e o que vem pela frente
Ivair Ferreira, alvo da operação, também é sócio do renomado restaurante Barollo, localizado em Manaus, o que demonstra a diversificação de seus negócios para além dos contratos públicos. A defesa do empresário ainda não se manifestou oficialmente sobre as acusações.
A Operação Reduto expõe a capilaridade de um grupo empresarial que, partindo do Amazonas, conquistou contratos bilionários em múltiplos estados, transformando o poder público em seu principal cliente. A apreensão de R$ 800 mil em espécie é apenas a ponta do iceberg de um esquema que a PF acredita envolver centenas de milhões em contratos direcionados.
O que está em jogo não é apenas a responsabilização penal de empresários e servidores públicos, mas a própria integridade dos processos licitatórios em estados como Rondônia e Amazonas. Quando uma única empresa concentra contratos de R$ 277 milhões com o DER-RO, R$ 106 milhões com a Semed de Manaus e R$ 15 milhões com o Governo do Amazonas, a pergunta que se impõe é: há concorrência real ou apenas a simulação de um mercado cativo?
A PF respondeu parcialmente a essa pergunta. Agora cabe ao Judiciário e aos órgãos de controle transformar a Operação Reduto em um marco na combate às fraudes licitatórias na Região Norte.
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