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Avalanche na fronteira Nepal-Tibete deixa 98 mortos e centenas de desaparecidos

Terremoto e possível rompimento de lago glacial provocam enxurrada que arrasta pontes, vilas e o porto comercial de Gyirong, entre China e Nepal.

Avalanche na fronteira Nepal-Tibete deixa 98 mortos e centenas de desaparecidos
📷 REUTERS/Stringer
📋 Em resumo
  • Enxurrada repentina na quarta-feira (26) já soma ao menos 98 mortos entre Nepal e Tibete, com centenas de desaparecidos, entre eles 384 turistas.
  • Um terremoto de magnitude 4,4 (USGS) é apontado como possível gatilho de uma avalanche de gelo que bloqueou o rio Bhote Koshi, mas especialistas não descartam rompimento de lago glacial.
  • O porto de Gyirong, principal via de comércio entre China e Nepal, foi atingido por deslizamento de lama que isolou estradas, energia e comunicações na região.
  • Xi Jinping ordenou operação de busca e resgate em massa; Modi ofereceu ajuda humanitária da Índia ao governo nepalês.
  • Por que isso importa: o desastre reabre o debate sobre o aumento de enchentes glaciais no Himalaia por efeito das mudanças climáticas, ameaçando rotas comerciais e turísticas estratégicas na Ásia.
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Uma enxurrada repentina destruiu vilas, pontes e um trecho do principal porto de comércio entre China e Nepal na quarta-feira (26), na fronteira entre o Nepal e a região tibetana. O balanço combinado dos dois lados da fronteira chegou a ao menos 98 mortos, segundo contagem da CNBC a partir de dados de autoridades nepalesas e chinesas, com centenas de pessoas ainda desaparecidas.

Do lado nepalês, a polícia confirmou 95 mortes e apontou que 28 policiais estão entre os desaparecidos, segundo o porta-voz Abi Narayan Kafle. Do lado chinês, a emissora estatal CCTV informou que o deslizamento no condado de Gyirong, no Tibete, matou ao menos três pessoas e deixou 265 desaparecidas, número classificado como "verificação preliminar".

O que se sabe até agora

O rio Bhote Koshi transbordou por volta das 9h (horário local) de quarta-feira, arrastando estradas, pontes, casas e projetos hidrelétricos nos distritos de Rasuwa, Nuwakot, Dhading, Chitwan e Gorkha, na província nepalesa de Bagmati. As autoridades pediram aos moradores da bacia dos rios Trishuli e Narayani que evitassem as margens diante do risco de nova cheia.

As áreas mais atingidas em Rasuwa foram o mercado de Timure, o posto aduaneiro de Timure e a localidade de Syabrubesi, segundo o site indiano The Week. As águas turvas cobriram propriedades em Trishuli, no distrito de Nuwakot, e um vídeo mostrou moradores sendo retirados de área alagada em uma máquina JCB.

O Conselho de Turismo do Nepal soma 384 turistas e viajantes desaparecidos, sendo 291 estrangeiros — de países como Reino Unido, Estados Unidos, Índia e Malásia. O ministério das Relações Exteriores da Malásia confirmou ter perdido contato com 11 cidadãos malaios que estariam no distrito de Rasuwa.

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Terremoto, avalanche de gelo ou lago glacial?

O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) registrou um terremoto de magnitude 4,4 às 8h37 (horário local), com epicentro cerca de 47 quilômetros ao norte do lago Gosainkunda, na fronteira entre Nepal e Tibete — pouco antes da enxurrada.

O ministro das Relações Exteriores do Nepal, Shishir Khanal, disse ao parlamento nepalês que a avaliação inicial aponta o tremor como gatilho de um grande deslizamento que bloqueou o rio Bhote Koshi, provocando o represamento e o rompimento súbito das águas.

O hidrólogo Kayastha, citado pelo Kathmandu Post, afirmou que "há informação de que uma avalanche de gelo do lado nepalês bloqueou o rio Lhende" e reforçou que o terremoto ocorreu no lado tibetano "praticamente ao mesmo tempo". Segundo ele, ainda pode levar dias para confirmar se um lago glacial também se rompeu.

"Há informação de que uma avalanche de gelo do lado nepalês bloqueou o rio Lhende. Um terremoto também ocorreu no lado tibetano, praticamente ao mesmo tempo" — Kayastha, hidrólogo nepalês.

O padrão não é inédito na região: em julho de 2025, o mesmo rio Lhende já havia sofrido um rompimento de lago supraglacial no lado chinês, episódio que matou nove pessoas e destruiu a ponte Miteri, principal ligação rodoviária entre os dois países, segundo registros da agência indiana de rádio estatal.

Gyirong, a porta comercial que virou epicentro

O deslizamento na China atingiu o Porto de Gyirong, cortando estradas, energia e comunicações na região administrada pela cidade de Shigatse. Imagens de câmeras de segurança mostraram pessoas fugindo segundos antes de a torrente de lama, pedra e água destruir prédios e veículos.

Gyirong é a principal via terrestre de comércio entre a China e o Nepal, respondendo por quase um terço do volume comercial bilateral em 2024, segundo a agência estatal Xinhua. O fluxo anual de mercadorias soma centenas de milhões de dólares, e desde 2017 o posto também permite a passagem de viajantes individuais.

O condado tem população permanente inferior a 20 mil habitantes e não é estranho a desastres naturais: em julho de 2025 uma enchente já havia destruído a ponte que liga Gyirong ao porto nepalês de Rasuwa, suspendendo o comércio de mercadorias por cerca de seis meses. O posto também ficou fechado por meses após o terremoto de 2015 que atingiu o Nepal. As autoridades chinesas decretaram fechamento das vias de acesso ao porto por sete dias para veículos que não sejam de emergência.

Resposta de Pequim e Katmandu

O presidente chinês Xi Jinping ordenou um esforço "total" de busca e resgate para encontrar os desaparecidos em Gyirong, segundo a Xinhua, e determinou o envio de suprimentos como tendas, aquecedores, roupas e roupas de cama às equipes de socorro no Tibete. Até as 20h de quarta-feira, a China havia mobilizado cerca de 600 bombeiros, com cães de resgate, detectores de vida e botes infláveis.

Do lado nepalês, o porta-voz do governo Sasmit Pokharel afirmou que Katmandu pediu apoio tanto à Índia quanto à China para as operações de resgate. O primeiro-ministro indiano Narendra Modi telefonou ao premiê nepalês, Balendra Shah, oferecendo ajuda humanitária.

"A Índia está pronta para fornecer ao Nepal todo tipo possível de assistência humanitária. Nossas equipes estão coordenando de perto os esforços de resgate e socorro" — Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia.

Peregrinos e turistas no meio da tragédia

Parte dos desaparecidos nepaleses estava em rota de peregrinação: ao menos 62 cidadãos nepaleses seguiam para o lago sagrado de Gosaikunda, em Rasuwa, coincidindo com o festival hindu de Janai Purnima, celebrado nesta sexta-feira. A concentração de peregrinos e trekkers na região elevou o número de desaparecidos justamente no momento em que o rio transbordou.

As águas altas impediram helicópteros de aterrissar nas áreas afetadas de Syabrubesi e Timure, segundo a Al Jazeera, dificultando o resgate em uma zona montanhosa de acesso já limitado mesmo em condições normais.

Um padrão que se repete no Himalaia

A bacia do rio Poiqu — chamado Bhote Koshi e depois Sun Koshi no lado nepalês — já foi identificada pelo Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado de Montanhas (ICIMOD) como uma das mais propensas a rompimentos de lagos glaciais (GLOFs) do Himalaia. Um evento semelhante em 2016, oriundo do lago Gongbatongsha no Tibete, gerou perdas econômicas superiores a US$ 70 milhões ao destruir a rodovia Arniko e uma usina hidrelétrica no Nepal.

Especialistas do ICIMOD já haviam alertado que esse tipo de enchente vem crescendo em "ritmo sem precedentes" nas montanhas Hindu Kush, que se estendem por Afeganistão, Bangladesh, Butão, China, Índia, Myanmar, Nepal e Paquistão. A região também acumula histórico grave: as enchentes de setembro de 2024 mataram mais de 230 pessoas em todo o território nepalês.

Enquanto equipes chinesas e nepalesas seguem escavando lama em busca de sobreviventes, cresce a pressão por um sistema de alerta antecipado binacional para o corredor Bhote Koshi–Trishuli — rota que combina hidrelétricas, comércio internacional e um dos points turísticos mais procurados do Himalaia. Sem esse mecanismo, o padrão de tragédias recorrentes na fronteira tende a se repetir.

Versão em áudio disponível no topo do post.

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