Painel Econômico

Banco Central do Paraguai decreta intervenção do 5º maior banco do país

Índice de solvência do banco paraguaio caiu a menos da metade do mínimo exigido; presidente do Banco Central, que já presidiu a instituição, pediu demissão

Banco Central do Paraguai decreta intervenção do 5º maior banco do país
📷 Divulgação
📋 Em resumo ▾
  • O Banco Central do Paraguai (BCP) decretou, na madrugada desta terça-feira (3), o início do processo de resolução do ueno bank, controlado pelo Grupo Vázquez
  • O motivo é um índice de solvência que caiu para menos da metade do mínimo exigido por lei, após ajustes nos balanços do banco durante um processo de regularização
  • O presidente do BCP, Carlos Carvallo — que presidiu a própria instituição antes de assumir o banco central — anunciou ter assinado a renúncia, mas permaneceria no cargo até concluir a intervenção; à tarde, formalizou o pedido junto ao Senado paraguaio
  • Todos os serviços do ueno (aplicativo, cartões, transferências) foram suspensos; a Promotoria abriu investigação penal e há ordem de detenção contra diretores do banco
  • O Fundo de Garantia de Depósitos cobre até 75 salários mínimos por depositante, cerca de US$ 38 mil; o prazo do procedimento vence em 17 de novembro, prorrogável por mais 15 dias
  • Por que isso importa: o ueno é o quinto maior banco privado do Paraguai, com quase 3 milhões de clientes e cerca de US$ 850 milhões em fundos públicos sob gestão — incluindo recursos da Previdência Social e do Ministério da Economia paraguaios, hoje congelados.
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O Banco Central do Paraguai (BCP) determinou o início do processo de resolução do ueno bank, instituição controlada pelo Grupo Vázquez. A decisão foi adotada por unanimidade pela diretoria do BCP em 2 de novembro e comunicada pouco depois das 3h da madrugada desta terça-feira (3). O motivo apontado é uma insuficiência no índice de solvência, que ficou abaixo de 50% do mínimo exigido. Segundo o BCP, a deterioração surgiu dos ajustes feitos nos balanços do banco durante um processo de regularização em curso — em março, o ueno reportava um índice de capital total de 15,01%, acima do mínimo de 12% exigido na época.

Em regulação bancária, “resolução” é o nome técnico do processo pelo qual a autoridade monetária de um país assume o controle de um banco em situação grave (insolvência, falta de capital, risco ao sistema) para decidir, de forma ordenada, o que fazer com ele — em vez de deixar o banco simplesmente quebrar de forma descontrolada, o que poderia gerar pânico bancário e prejudicar depositantes e o próprio sistema financeiro.

O que o regulador pode fazer dentro de uma resolução:

  1. Vender ativos e transferir os depósitos para outro banco saudável (o cenário mais comum e menos traumático);
  2. Reestruturar a instituição sob nova gestão;
  3. Liquidar o banco por completo, se não houver alternativa viável — aí sim o desfecho seria equivalente a uma dissolução.


Ou seja, resolução é o guarda-chuva do processo; dissolução é apenas um dos desfechos possíveis dentro dele, não um sinônimo. No caso do ueno bank, o Banco Central do Paraguai nomeou interventores justamente para avaliar o patrimônio do banco antes de decidir qual caminho seguir dentro desse processo — por isso ainda é cedo para afirmar que o banco será dissolvido, mesmo com os serviços já suspensos.

O equivalente no Brasil seria parecido com o que o Banco Central faz quando decreta intervenção, RAET (Regime de Administração Especial Temporária) ou liquidação extrajudicial em uma instituição financeira — são nossas versões do mesmo mecanismo regulatório.

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Quem é o ueno bank

O ueno é um dos principais bancos do Paraguai: em dezembro de 2025 era o quinto maior banco privado do país, com 8,9% dos depósitos e 5,9% dos créditos do sistema, segundo a agência de classificação de risco FIX. Tem cerca de 3 milhões de clientes e administra aproximadamente US$ 850 milhões em fundos públicos — entre eles, segundo o jornal La Nación, depósitos do Instituto de Previdência Social (IPS) paraguaio e do Ministério da Economia do país, hoje congelados pela medida.

O que fica suspenso

O procedimento segue a Lei 2.334/03, de garantia de depósitos e resolução de instituições financeiras. A Superintendência de Bancos paraguaia assumiu o controle da instituição e designou cerca de 120 interventores para verificar sua situação patrimonial e preservar os ativos. Desde a manhã desta terça, estão suspensas as transferências, as operações com cartões de crédito e débito e os movimentos em conta — segundo a diretora do BCP, Liana Caballero, nem o aplicativo, nem os cartões, nem nenhum serviço do banco estão ativos a partir de hoje. A instituição passou a ser gerida diretamente por uma equipe especializada do próprio Banco Central.

Quanto os depositantes recuperam

O Fundo de Garantia de Depósitos (FGV deles) cobre até 75 salários mínimos por depositante e por instituição — não por conta —, o equivalente a Gs 228,3 milhões, cerca de US$ 38 mil pela cotação atual. A lei fixa um prazo de 15 dias corridos, que vence em 17 de novembro e pode ser prorrogado por mais 15. Para saldos que superem essa cobertura, o BCP aplicará os mecanismos previstos em lei. Segundo autoridades citadas pelo portal Misiones Online, cerca de 97% dos correntistas estariam cobertos integralmente pelo fundo de garantia.

O que motivou a intervenção

Em entrevista coletiva, o presidente do BCP, Carlos Carvallo, explicou que a análise da instituição começou em 5 de junho, quando a Superintendência de Bancos encontrou indícios de créditos concedidos pelo ueno a empresas ligadas ao grupo controlador — o próprio Grupo Vázquez. Uma inspeção posterior detectou irregularidades maiores, incluindo deterioração dos indicadores de liquidez e necessidade de constituir provisões adicionais. “É o desenlace de vários meses de trabalho técnico”, disse Carvallo, classificando o caso como “pontual e isolado” e afirmando que o sistema financeiro paraguaio “se mantém sólido e saudável”. O BCP abrirá investigações administrativas sobre os administradores do ueno e apresentará denúncias às autoridades competentes — é importante registrar: até a publicação desta nota, trata-se de apuração em curso, sem indiciamento formal contra pessoas nomeadas.

O conflito de interesse de Carvallo

Carvallo tem uma ligação direta e pública com o banco que seu próprio BCP está agora intervindo: ele presidiu a Financiera Ueno — antecessora do ueno bank — entre 2021 e 2023, antes de assumir a presidência do Banco Central em agosto daquele ano, e, segundo o portal paraguaio RDN, figurou como acionista do grupo até março de 2025. Durante a coletiva, Carvallo e outro membro da diretoria do BCP, Marco Aurelio González, admitiram ter poupanças próprias no ueno bank e disseram estar “presos nessa situação” como qualquer outro correntista. Carvallo anunciou ter assinado a renúncia ao cargo, mas afirmou que permaneceria até concluir o processo — “minha renúncia está firmada, mas os fatos exigem minha permanência”, disse. À tarde, porém, formalizou o pedido de renúncia em nota enviada ao presidente do Senado paraguaio.

O desdobramento político e judicial

Nos últimos meses, a supervisão do ueno já estava sob questionamento no Senado paraguaio, onde vários parlamentares pediram a remoção da cúpula do BCP. O crescimento dos fundos públicos depositados no banco desde 2023 também foi alvo de críticas, por possíveis vínculos comerciais anteriores entre o Grupo Vázquez e autoridades públicas. Depois da intervenção, a Promotoria paraguaia abriu uma causa penal contra o ueno, e haveria ordem de detenção contra diretores da instituição, segundo o Diario HOY — novamente, trata-se de medida em apuração, não de condenação. Um grupo de correntistas afetados, incluindo aposentados, prepara denúncia criminal que pretende alcançar não só os diretores do ueno, mas também o próprio Carvallo e o superintendente de Bancos, Holger Insfrán, segundo o Misiones Online. A Central Unitária de Trabalhadores (CUT-A) também cobrou apuração ampla sobre autoridades nacionais e do BCP envolvidas no caso.

O impacto no comércio

A Associação de Importadores e Comerciantes do Paraguai (Asimcopar) alertou para uma “semiparalisação” do comércio por causa da falta de acesso aos fundos no ueno, e pediu a devolução dos recursos por faixas de valor. Já a associação de bancos do Paraguai, Asoban, descartou risco sistêmico para o setor financeiro do país como um todo depois da intervenção.

A posição oficial

O BCP sustentou, em nota, que se trata de um caso pontual, que não reflete uma condição generalizada do sistema financeiro paraguaio — nas palavras do próprio órgão, “é o exame a superar”.

Entre a suspensão imediata dos serviços do banco, a renúncia do homem que o presidiu antes de fiscalizá-lo, e o prazo legal de 15 dias correndo a partir de hoje, o Paraguai tem agora duas semanas para descobrir se a crise do ueno fica mesmo restrita a “um caso pontual” — ou se arrasta junto a credibilidade de quem deveria tê-lo supervisionado desde o início.

🔊 Versão em áudio disponível no topo do post.

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