Painel Econômico

Banco Master vendeu duas vezes carteira de crédito de R$ 1 bilhão

Securitizadora alertou a B3 sobre a cessão duplicada de ativos, expondo o BRB a um prejuízo bilionário e revelando um padrão de irregularidades na instituição de Daniel Vorcaro

Banco Master vendeu duas vezes carteira de crédito de R$ 1 bilhão
📋 Em resumo
  • Banco Master vendeu a mesma carteira de crédito de R$ 1 bilhão para dois compradores distintos.
  • A Travessia Securitizadora identificou a duplicidade e alertou a B3, que confirmou os indícios.
  • O Banco de Brasília (BRB) é um dos compradores, tendo adquirido R$ 21 bilhões em ativos da instituição.
  • Por que isso importa: O caso expõe falhas graves de governança e o risco sistêmico de operações financeiras opacas no mercado de capitais
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O Banco Master, instituição comandada por Daniel Vorcaro, é alvo de uma nova e grave irregularidade: a venda duplicada de uma mesma carteira de crédito no valor de R$ 1 bilhão. A descoberta, revelada pela Travessia Securitizadora, coloca em xeque a solidez dos ativos repassados a terceiros e expõe o Banco de Brasília (BRB) a um risco financeiro significativo.

A descoberta da fraude e o alerta à B3

A inconsistência veio à tona quando a Travessia Securitizadora, responsável pela emissão de R$ 1 bilhão em debêntures lastreadas nessa carteira, foi comunicada pela B3 sobre a cessão repetida do mesmo ativo.

Em fato relevante, a securitizadora detalhou que, ao buscar esclarecimentos junto à Central de Registro de Ativos Financeiros, confirmou que seu registro de titularidade havia sido feito corretamente. No entanto, a bolsa de valores encaminhou um parecer conclusivo atestando indícios consistentes de que um terceiro também havia registrado a mesma carteira junto ao Banco Central.

"A securitizadora entende que o registro dos créditos em seu favor junto à CERC precede o registro posterior feito por terceiro junto ao Banco Central."

O risco para o BRB e o histórico de irregularidades

O BRB adquiriu R$ 21 bilhões em ativos do Master entre o final de 2024 e meados de 2025. A instituição via essa carteira específica de R$ 1 bilhão como uma exceção saudável dentro do pacote adquirido. Na prática, a duplicidade significa que o banco público pode perder o acesso a esse montante, tornando-o um ativo podre. Até o momento, o BRB não se manifestou publicamente sobre o caso.

Este episódio não é um evento isolado, mas parte de um padrão de cessões duvidosas. Anteriormente, foi revelado que o BTG Pactual comprou R$ 1,1 bilhão em carteiras do Master, parte das quais já estava bloqueada. Outros casos mapeados incluem o repasse de R$ 3,6 bilhões em dívidas para uma gestora sob investigação e empréstimos de R$ 336 milhões a conselheiros e sócios da Biomm.

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A opacidade do mercado de debêntures

A operação fraudulenta envolveu debêntures simples, não conversíveis em ações, da espécie quirografária, o que significa que não possuem garantia real vinculada diretamente ao título.

Como a oferta foi restrita a investidores específicos e não pública, ela não precisou ser registrada na Anbima. Essa lacuna regulatória permitiu que os documentos da operação permanecessem fora do escrutínio público até o colapso da instituição, facilitando a engenharia financeira obscura.

A reflexão sobre a governança e a regulação

A venda duplicada de um ativo de R$ 1 bilhão não é um mero erro operacional; é um sintoma de uma governança corporativa inexistente ou deliberadamente fraudulenta. Quando um banco pode vender o mesmo direito creditório a duas partes distintas, a confiança que sustenta todo o sistema financeiro é quebrada.

Resta uma reflexão para os órgãos reguladores: se a opacidade das ofertas restritas e a lentidão na cruzamento de dados entre a B3 e o Banco Central permitem que bilhões sejam duplicados sem detecção imediata, quem de fato protege os recursos de instituições públicas e investidores privados? A resposta definirá se o mercado de capitais é um ambiente de alocação eficiente ou um terreno fértil para a especulação predatória.


Versão em áudio disponível no topo do post.

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