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Marabraz pede 180 dias contra credores e aguarda decisão sobre RJ de R$ 140 mi

Varejista tenta antecipar a proteção contra cobranças antes mesmo de a Justiça deferir a recuperação judicial; causa da crise é disputada entre a empresa e a holding da família

Marabraz pede 180 dias contra credores e aguarda decisão sobre RJ de R$ 140 mi
📷 Divulgação
📋 Em resumo
  • A Marabraz pediu à Justiça de São Paulo a suspensão, por 180 dias, das cobranças de credores — antecipando efeitos que só valeriam após o deferimento da recuperação judicial.
  • O pedido de recuperação, protocolado em 15 de agosto, envolve cinco empresas e passivo de R$ 140,19 milhões, e ainda não foi deferido pela Justiça.
  • A varejista atribui a crise a juros altos e à perda de acesso a imóveis usados como garantia de crédito, ligados a uma disputa familiar.
  • A LP Administradora, holding da família, nega qualquer relação com a crise — e o TJSP já rejeitou, em 2025, a tese central dos controladores.
  • Por que isso importa: a rede sustenta que segue operando, mas a origem da crise é objeto de versões conflitantes que a própria Justiça terá de pesar
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A Lojas Marabraz, uma das marcas mais tradicionais do setor de móveis e eletrodomésticos de São Paulo, deu mais um passo em sua crise: pediu à Justiça a suspensão, por 180 dias, das cobranças e execuções de credores. O pedido, noticiado nesta quarta-feira (9), complementa a recuperação judicial protocolada em 15 de agosto na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, que reúne cinco empresas do grupo e um passivo de aproximadamente R$ 140,19 milhões.

Há, porém, um detalhe processual importante: a Marabraz está tentando antecipar uma proteção que, pela regra, só valeria depois. O chamado período de suspensão — que impede credores de cobrar enquanto a empresa se reorganiza — normalmente passa a valer após o deferimento do processamento da recuperação. E esse deferimento ainda não ocorreu: a varejista aguarda a decisão da Justiça.

O que a Marabraz pede

Além da suspensão das cobranças, o grupo solicita a liberação de valores bloqueados em ações de execução, a manutenção de serviços essenciais (água, energia, telefone e internet) e autorização para acessar imóveis alvo de ordens de despejo, a fim de retirar estoques e equipamentos. Pede ainda a nomeação de um administrador judicial e o prazo de 60 dias para apresentar seu plano de recuperação — os ritos previstos na Lei 11.101/2005. A empresa sustenta que, apesar da crise de liquidez, sua atividade comercial continua viável e que as lojas seguem abertas, com a preservação dos empregos entre as prioridades.

Vale o registro que a própria legislação impõe: o ajuizamento do pedido não equivale ao deferimento. Cabe ao juiz analisar se as exigências legais foram cumpridas antes de decidir pelo processamento — e a Marabraz chegou a apresentar a documentação contábil de forma incompleta, alegando indisponibilidade dos dados após a interrupção do sistema (Oracle) que registrava suas finanças.

A causa da crise: duas versões

A Marabraz atribui suas dificuldades a dois fatores. O primeiro é o cenário macroeconômico — juros altos, retração do consumo e inadimplência, o mesmo cerco que empurrou nomes como Casas Bahia, Tok&Stok e Habib's para a renegociação de dívidas em 2026. O segundo é mais específico: os controladores Nasser e Jamel Fares alegam que a perda de acesso a imóveis da LP Administradora de Bens — holding da família, com patrimônio estimado em R$ 5 bilhões — os deixou sem as garantias que usavam para obter crédito.

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Mas essa versão é contestada. A LP negou oficialmente qualquer ligação com a crise da varejista. "Se a Marabraz entrou em estado recuperacional, trata-se de situação gerada pelos atos e medidas de insucesso tomadas por sua própria administração", declarou a holding, classificando a tentativa de ligar as duas empresas como "fruto de uma narrativa originada após uma grave divergência familiar".

A LP nega qualquer relação com a crise: para a holding, o estado recuperacional decorre da "própria administração" da varejista.

O que a Justiça já decidiu sobre a briga de família

A disputa societária não é nova, e a Justiça já se pronunciou sobre parte dela. A origem está em 2011, quando os irmãos Nasser, Jamel e Adiel Fares transferiram suas cotas da holding para os seis filhos, como blindagem contra o passivo fiscal das lojas. O arranjo funcionou até as gerações romperem: em dezembro de 2024, Nasser e Jamel processaram filhos e sobrinhos para reaver os 66% que haviam repassado. Venceram em primeira instância em março de 2025, mas, em 23 de setembro de 2025, o TJSP reverteu a sentença, rejeitou a tese de simulação e manteve os netos no controle da holding.

Há, contudo, uma nuance que dá lastro parcial à versão dos controladores: uma tutela de urgência de dezembro de 2024, da juíza Andréa Galhardo Palma, bloqueou as cotas da LP e proibiu a venda de imóveis até o trânsito em julgado — e essa medida ainda produzia efeitos em agosto de 2026. Ou seja, é verdade que os imóveis estavam indisponíveis como garantia; o que está em disputa é se essa indisponibilidade causou a crise da Marabraz ou se foi apenas um fator num quadro de má gestão, como sustenta a LP.

Um caso emblemático de um fenômeno maior

A Marabraz não está sozinha. Os dados do segundo trimestre de 2026 apontam mais de 5.500 empresas em recuperação judicial no país, e o varejo físico é um dos setores mais pressionados pela migração do consumo para o digital e pelo custo do crédito. Mas o caso da rede paulista carrega um ingrediente que o distingue: uma guerra familiar bilionária que se entrelaça com a saúde do negócio, ao ponto de as duas coisas ficarem difíceis de separar.

O desfecho agora depende da 3ª Vara de Falências. O juiz terá de decidir não só se defere o processamento da recuperação, mas também até onde acolhe os pedidos de urgência de uma empresa que ainda não teve a própria recuperação aceita. E, no pano de fundo, permanece a pergunta que nem a Justiça respondeu por completo: o que derrubou a Marabraz foi o mercado, a briga de família, ou a soma dos dois? Para uma marca que virou sinônimo de móvel popular para gerações de paulistas, a resposta definirá se há reorganização possível — ou se o que resta é administrar o encolhimento.


Versão em áudio disponível no topo do post.

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