Marabraz pede recuperação judicial com dívida de R$ 140 milhões
Rede de móveis fundada por imigrante libanês em 1950 atribui crise à perda de controle sobre imóveis usados como garantia de crédito
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- Grupo Marabraz protocolou pedido de recuperação judicial no sábado (15/8) na 3ª Vara de Falências de São Paulo, com passivo de R$ 140,188 milhões reunindo cinco empresas.
- Petição do escritório Campana Pacca atribui a crise a disputas familiares que romperam a estrutura patrimonial usada como garantia de crédito, e não à inviabilidade do negócio varejista.
- Documento revela mais de mil ações trabalhistas contra o grupo e pede proteção contra despejo, bloqueio de contas e corte de serviços essenciais às lojas.
- Caso se soma a onda de 194 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026 no Brasil (Serasa Experian), em meio a juros altos e crédito restrito.
- Por que isso importa: o episódio expõe como disputas societárias familiares, somadas ao aperto de crédito, podem derrubar até marcas centenárias do varejo popular brasileiro.
O grupo responsável pelas Lojas Marabraz protocolou neste sábado (15) pedido de recuperação judicial na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Comarca de São Paulo. Segundo a petição, assinada pelo escritório Campana Pacca Advogados, o processo reúne cinco sociedades ligadas à operação da rede e apresenta à Justiça um passivo de R$ 140,188 milhões.
De acordo com o documento, a crise enfrentada pelo grupo é predominantemente financeira e de liquidez, e não decorre da inviabilidade da atividade varejista. O documento sustenta que a operação da Marabraz permanece estruturada e que a marca mantém relevância no mercado, mas que a companhia passou a enfrentar dificuldades para acessar linhas de crédito destinadas ao financiamento do capital de giro.
Cinco empresas sob controle comum
O processo abrange as sociedades Comercial de Móveis Jordanésia, S.V.C. Jaraguá Comercial, Comercial Móveis das Nações, Comercial Zena Móveis e Monta Móveis Prestadora de Serviços, reunidas na petição sob a denominação conjunta de Requerentes. Segundo o documento, embora as empresas estejam organizadas sob pessoas jurídicas distintas, elas atuam sob controle comum e quadro societário composto, em sua quase totalidade, pelos mesmos sócios.
Ao longo das décadas, o faturamento e o núcleo operacional foram transferidos sucessivamente entre diferentes pessoas jurídicas do grupo — SVC (a partir de 2000), Nações (2005), Zena (2009) e Jordanésia (que concentra a gestão administrativa, financeira e operacional desde 2017); em 2023, foi constituída a Monta Móveis para gerir a plataforma tecnológica de serviços de montagem de móveis. A pulverização societária, segundo os advogados do grupo, justifica o processamento conjunto das cinco empresas em um único pedido de recuperação judicial.
A petição ainda revela o tamanho do passivo trabalhista da rede: mais de 1.000 ações trabalhistas foram apresentadas contra mais de uma das empresas do grupo, número que ajuda a explicar a urgência do pedido de proteção judicial.
A ruptura patrimonial que sufocou o crédito
A petição afirma que, historicamente, a família captava recursos junto ao mercado financeiro para expansão e exercício de suas atividades, intensa em capital de giro, dando em garantia ativos e especialmente imobiliários. Imóveis comerciais, centros de distribuição e outros bens estavam registrados em nome de uma holding familiar e, embora não pertencessem diretamente às empresas responsáveis pelas lojas, esses ativos eram usados como garantias em operações de crédito.
"O documento mostra que, para além dos efeitos da alta persistente do juro, os problemas da Marabraz derivam ainda de disputas societárias e familiares."
Conforme a petição, disputas familiares e societárias romperam essa estrutura, o que teria provocado deterioração progressiva das condições de financiamento. Segundo o texto, instituições financeiras passaram a exigir novas garantias, reduzir limites de crédito, elevar custos das operações e, em alguns casos, deixar de renovar linhas consideradas necessárias ao capital de giro. Em outras palavras: os administradores das lojas perderam o lastro imobiliário que sustentava décadas de acesso a empréstimos bancários.
Pedidos de urgência: bloqueio de contas e proteção contra despejo
Entre os pedidos de tutela de urgência, a petição solicita a liberação imediata de recursos financeiros eventualmente bloqueados por credores, a proibição de retenção de valores e a suspensão de medidas judiciais ou extrajudiciais de cobrança contra as empresas do grupo.
O documento também pede a manutenção de serviços considerados essenciais à operação das lojas, entre eles energia elétrica, água, telefonia, sistemas de tecnologia e processamento de pagamentos por cartão, além de proteção contra ações de despejo em imóveis alugados, de forma a permitir a retirada de mercadorias e equipamentos das empresas. Um detalhe chama atenção na petição: as empresas do grupo não conseguiram apresentar, neste momento, a documentação contábil oficial exigida pela lei de recuperação judicial, em razão da interrupção dos serviços prestados pela empresa responsável pelo sistema de registro de dados financeiros da companhia. Segundo apuração do mercado, o entrave estaria ligado à impossibilidade de acessar o sistema de gestão financeira fornecido pela Oracle.
Da mascataria ao slogan que virou hit sertanejo
A origem da rede remonta à imigração árabe em São Paulo. A petição situa a origem do grupo na década de 1950, quando o imigrante libanês Abdul Hamid Mohamad Fares chegou ao Brasil e passou a atuar como mascate na cidade de São Paulo; em 1965, fundou sua primeira loja de móveis, batizada de Credi-Fares, na Vila Nova Cachoeirinha; após seu falecimento, em 1978, os filhos deram continuidade ao negócio, e a marca Lojas Marabraz foi adquirida em 1986.
A rede consolidou presença nacional com uma campanha publicitária de longa duração: em 1997, teve início a parceria publicitária com a dupla sertaneja Zezé Di Camargo & Luciano, que durou mais de duas décadas e popularizou o slogan "Lojas Marabraz, preço menor, ninguém faz". Em 2006, a companhia inaugurou centro de distribuição em Cajamar (SP), movimento que sustentou a expansão para 135 unidades distribuídas pela Região Metropolitana de São Paulo, Baixada Santista, Vale do Paraíba e interior paulista.
O que diz a empresa
A Marabraz só confirmou o pedido de recuperação judicial na noite de domingo (16), em nota assinada por Nasser Fares, diretor da rede de lojas. Segundo a nota, a medida representa uma decisão responsável para promover a reestruturação da operação, organizar compromissos e criar condições para a continuidade dos negócios.
A empresa afirmou ainda que permanece em operação, com lojas abertas, e reafirma seu compromisso com a transparência e o cumprimento das etapas previstas na legislação.
Conforme o comunicado, o processo terá como prioridades a preservação de empregos e a manutenção das relações construídas ao longo de sua história com clientes, fornecedores e parceiros. A companhia já vinha sinalizando dificuldades antes do protocolo: desde 2023, mantinha um "plano de transformação" com medidas operacionais e financeiras voltadas a melhorar eficiência, rentabilidade e geração de caixa.
Um capítulo de uma crise setorial maior
O caso Marabraz não é isolado. O mercado nacional registrou 194 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026, de acordo com dados da Serasa Experian, em cenário marcado por restrição de crédito e alto custo financeiro para empresas. O varejo de móveis e eletrodomésticos, dependente de crédito direto ao consumidor via carnês, tem sido especialmente sensível à combinação de juros elevados e queda no consumo das famílias.
Outros nomes grandes do setor enfrentam dificuldades no mesmo período: a Casas Bahia divulgou prejuízo bilionário no segundo trimestre de 2026, reforçando o diagnóstico de que a crise no varejo brasileiro vai além de um problema pontual de gestão familiar e reflete um ambiente macroeconômico adverso para o crédito às companhias.
Agora, caberá ao juiz da 3ª Vara de Falências decidir sobre o deferimento do processamento da recuperação judicial e sobre os pedidos de tutela de urgência — decisão que definirá se a Marabraz ganha o fôlego necessário para renegociar sua dívida com fornecedores, bancos e credores trabalhistas sem risco imediato de penhora de bens ou fechamento de lojas.
Versão em áudio disponível no topo do post.