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Habib's entra em recuperação judicial com dívida de R$ 265 milhões

Grupo Gennius, dono das redes Habib's, Ragazzo e Tendall Grill, teve pedido deferido pela 1ª Vara de Falências de São Paulo após tutela cautelar de 60 dias não evitar o colapso financeiro. Operações seguem normais, mas prazo de 60 dias para apresentar plano de reestruturação coloca futuro da marca em jogo

Habib's entra em recuperação judicial com dívida de R$ 265 milhões
📷 Divulgação
📋 Em resumo
  • Grupo Gennius entra com pedido de recuperação judicial na 1ª Vara de Falências de São Paulo no dia 24 de agosto
  • Dívida declarada: R$ 265,2 milhões; endividamento bancário total supera R$ 300 milhões em travas não submetidas à RJ
  • Juiz Jomar Juarez Amorim deferiu o processamento, nomeou KPMG como administradora judicial e deu 60 dias para plano de recuperação
  • Causas apontadas: pandemia, home office, alta dos juros (14% ao ano) e concorrência do delivery
  • 178 pessoas jurídicas e os administradores Alberto Saraiva e Belchior Saraiva Neto estão no processo
  • Por que isso importa: A recuperação judicial de uma das maiores redes de fast food do Brasil expõe como a combinação de juros altos, mudança de hábitos de consumo e endividamento bancário está derrubando empresas históricas do varejo brasileiro
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O Grupo Gennius, controlador das redes Habib's, Ragazzo e Tendall Grill, entrou em recuperação judicial na última segunda-feira (24) na 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. O pedido, deferido pelo juiz Jomar Juarez Amorim, declara uma dívida de R$ 265.207.959,83 e coloca sob proteção judicial 178 pessoas jurídicas do conglomerado, além dos administradores Alberto Saraiva e Belchior Saraiva Neto.

A decisão judicial nomeou a KPMG Corporate Finance como administradora judicial e concedeu ao grupo um prazo improrrogável de 60 dias para apresentar seu plano de recuperação. Caso o prazo não seja cumprido, o processo poderá ser convertido em falência.

"As operações do grupo seguem funcionando normalmente, mantendo o atendimento aos clientes, a rotina e a qualidade de suas unidades. Presente na vida dos brasileiros há quase 40 anos, a companhia segue comprometida com a força de suas marcas, a evolução de seu negócio e a continuidade de uma história construída ao lado de milhões de brasileiros."

— Nota oficial do Grupo Habib's

Como o Habib's chegou à recuperação judicial: a cronologia de uma crise anunciada

A entrada em recuperação judicial não foi um movimento isolado. Em 1º de julho, o Grupo Gennius já havia obtido uma tutela cautelar antecedente que suspendia, por 60 dias, execuções e cobranças de credores. A medida, que alcançou 174 empresas do conglomerado, tinha como objetivo abrir espaço para negociações extrajudiciais no Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejusc) de Santo Amaro, em São Paulo.

O prazo de 60 dias expirou no final de agosto sem que o grupo conseguisse fechar acordos suficientes para equilibrar as finanças. O resultado foi o ajuizamento da recuperação judicial — uma espécie de último recurso antes da falência.

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A estrutura do grupo é complexa: dez franqueadoras e holdings de participação, 17 sociedades operacionais, seis churrascarias Tendall, 119 lojas Habib's e 26 unidades Ragazzo. A operação é verticalizada, com diferentes etapas da cadeia produtiva distribuídas entre empresas distintas — o que explica o número elevado de pessoas jurídicas envolvidas no processo.

O passivo de R$ 265 milhões: quem o Habib's deve

O pedido de recuperação judicial detalha a composição do passivo do Grupo Gennius. Dos R$ 265,2 milhões declarados, R$ 241,7 milhões são dívidas com credores quirografários — fornecedores, bancos e prestadores de serviços que emprestaram dinheiro ou venderam produtos sem garantia real. Esse segmento responde por 91% do passivo.

As dívidas trabalhistas somam R$ 22,3 milhões e as dívidas com microempresas e empresas de pequeno porte totalizam R$ 1,1 milhão.

Mas esses números não contam toda a história. O grupo apontou que possui um endividamento bancário que supera os R$ 300 milhões, composto por cessões de recebíveis e investimentos (as chamadas travas bancárias) que, por força de lei, não se submetem aos efeitos da recuperação judicial.

A lista de credores inclui nomes de peso do setor alimentício e de serviços: Seara Alimentos (R$ 1,4 milhão), JBS/Friboi, Bunge Alimentos, Bamko Importação (R$ 4,2 milhões), De Marchi (R$ 1,7 milhão), Duas Rodas Industrial, Oracle do Brasil, Totvs, Google Brasil, Uber, Netflix, Ambev, Banco Inter e Ouribank.

A decisão judicial: o que foi concedido e o que foi negado

O juiz Jomar Juarez Amorim deferiu o processamento da recuperação judicial e concedeu uma tutela de urgência parcial. Os credores não poderão suspender ou interromper a execução dos contratos vigentes apenas em razão do ajuizamento do processo. Também não poderão deixar de fornecer insumos ou serviços essenciais mediante pagamento à vista.

O magistrado também afastou a aplicação automática de cláusulas que preveem o vencimento antecipado de dívidas — os chamados dispositivos "ipso facto" —, argumentando que esse tipo de cláusula pode contrariar o princípio de preservação da empresa.

Mas a decisão teve um lado negativo para o grupo: o pedido de "quebra das travas bancárias" foi indeferido. O juiz manteve a retenção dos recebíveis e investimentos cedidos fiduciariamente aos bancos, fundamentando que a jurisprudência atual não submete esses créditos aos efeitos da recuperação judicial.

Na prática, isso significa que os bancos poderão continuar retendo os recebíveis do grupo para amortizar os créditos garantidos — mesmo com a recuperação judicial em curso. O impacto é direto no fluxo de caixa: sem a liberação desses recursos, o grupo terá menos dinheiro disponível para honrar compromissos operacionais enquanto negocia o plano de reestruturação.

O pedido de sigilo integral do processo, feito pela companhia, também foi negado. O juiz determinou que o processo permaneça público, ressalvando apenas documentos com informações sensíveis, como a relação completa dos empregados e os bens particulares dos controladores.

Pandemia, delivery e juros: os três eixos da crise do Habib's

O pedido de recuperação judicial apresenta três fatores como responsáveis pelo colapso financeiro. O primeiro é a pandemia de Covid-19 (2020-2022), quando o grupo havia investido na abertura de lojas físicas em shoppings e grandes centros urbanos — locais que ficaram vazios com as restrições de mobilidade. A adoção do trabalho remoto consolidou uma queda permanente no fluxo diário de clientes nessas regiões.

O segundo é a mudança nos hábitos de consumo. A popularização das plataformas de delivery fez com que os consumidores passassem a frequentar menos as lojas físicas, comprimindo as margens de lucro das unidades presenciais. O modelo de negócio do Habib's — construído em torno de espaços amplos, áreas infantis e preços competitivos — perdeu eficiência em um mercado onde a conveniência e a agilidade do delivery passaram a ser prioridade.

O terceiro é o cenário macroeconômico. A alta dos juros para 14% ao ano encareceu os custos das dívidas contraídas no período da pandemia. O grupo descreve o efeito como um "estrangulamento do capital de giro" que gerou "problemas de caixa e inadimplência com fornecedores".

"A elevação da Selic de 4% para cerca de 15% elevou o custo de captação e de rolagem das dívidas."

— Argumento do Grupo Gennius no processo judicial

A combinação dos três fatores criou um efeito em cascata: receita caindo, custos fixos altos, endividamento crescente e, por fim, a impossibilidade de honrar compromissos com fornecedores e bancos. O resultado foi a tutela cautelar de julho e, dois meses depois, a recuperação judicial.

O Habib's não está sozinho: o varejo brasileiro em recuperação judicial

A crise do Grupo Gennius não é um caso isolado. O Habib's se soma a uma lista crescente de empresas brasileiras que recorreram à recuperação judicial ou a mecanismos de proteção contra credores nos últimos meses. O setor de varejo, em particular, foi duramente atingido pela combinação de juros altos, inflação e mudança de hábitos de consumo.

Entre os casos mais recentes estão o Grupo Toky (controlador da Tok&Stok e Mobly), com dívidas de R$ 1,1 bilhão; a Oncoclínicas, com R$ 5,1 bilhões; a rede de supermercados St. Marché; o Grupo Pão de Açúcar (GPA); a fabricante de brinquedos Estrela; e a Fictor.

No varejo de móveis e eletrodomésticos, Casas Bahia e Marabraz também entraram com pedidos de recuperação judicial, pressionadas pelas altas taxas de juros.

O que diferencia o Habib's desses casos é a natureza do negócio. Enquanto Casas Bahia e Marabraz dependem de crédito ao consumidor para vender, o Habib's depende de fluxo de pessoas nas lojas físicas — um modelo que foi duplamente atingido pela pandemia e pela ascensão do delivery. A recuperação judicial do grupo, portanto, é também um retrato da transformação do setor de alimentação no Brasil.

O futuro do Habib's: entre a reestruturação e a falência

O Grupo Gennius tem agora 60 dias para apresentar um plano de recuperação judicial que convença credores e Justiça de que a empresa é viável. O plano precisará equilibrar a renegociação de dívidas com a manutenção das operações — e, possivelmente, com uma reestruturação do modelo de negócio.

A estratégia de adaptação já começou. Nos últimos meses, o grupo investiu na migração para formatos de lojas menores e mais eficientes, como quiosques e unidades no modelo "express". Esses modelos exigem menos investimento inicial, têm custos fixos reduzidos e se adaptam melhor à realidade do delivery.

O Tendall Prime, inaugurado em dezembro de 2025 no bairro de Alphaville, em Barueri (São Paulo), é um exemplo da aposta em um público mais premium — embora a expansão para segmentos de maior renda possa colidir com a identidade histórica da marca, construída em torno da democratização do acesso a refeições rápidas.

A questão central, porém, não é de estratégia de marketing — é de matemática financeira. Com R$ 265 milhões em dívidas declaradas, mais de R$ 300 milhões em endividamento bancário fora da recuperação judicial e travas bancárias mantidas pela Justiça, o grupo precisa demonstrar que consegue gerar caixa suficiente para honrar um plano de reestruturação. Caso contrário, o processo será convertido em falência.

O Habib's foi fundado em 1988 pelo médico e empresário Antônio Alberto Saraiva, filho de imigrantes portugueses, com o lema de "democratizar o acesso a refeições rápidas, com uma política de preços competitivos". Em quase quatro décadas, a marca criou campanhas promocionais icônicas — como as Bib'sfihas por R$ 0,10 nos anos 1990 e 2000 e as coxinhas por R$ 1,99 — e se tornou uma das maiores redes de fast food do país, presente em 17 estados.

A pergunta que o plano de recuperação precisa responder nos próximos 60 dias é simples, mas brutal: em um mercado onde o delivery dominou e as lojas físicas perderam relevância, há espaço para um gigante de R$ 0,10 sobreviver sem vender a alma — ou sem vender o controle?


Versão em áudio disponível no topo do post.

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