Painel Econômico

Bayer vence júri do Roundup após vitória na Suprema Corte dos EUA

Júri de St. Louis rejeitou, por unanimidade, a tese de que o herbicida tinha defeito de projeto. É o primeiro teste do caminho que restou às vítimas depois da Suprema Corte

Bayer vence júri do Roundup após vitória na Suprema Corte dos EUA
📷 Bloomberg
📋 Em resumo ▾
  • Um júri de St. Louis, no Missouri (EUA), decidiu por unanimidade a favor da Bayer em ação de três mulheres que atribuíam seus cânceres ao herbicida Roundup.
  • Foi o primeiro julgamento com uma tese nova, a de “defeito de projeto”. A tese antiga, a de falta de alerta no rótulo, foi barrada pela Suprema Corte em junho.
  • As ações da Bayer subiram até 5,2% em Frankfurt nesta sexta-feira.
  • Ainda há cerca de 65 mil processos pendentes. A Bayer aguarda a aprovação final de um acordo de US$ 7,25 bilhões.
  • Por que isso importa: o princípio ativo do Roundup, o glifosato, é um dos agrotóxicos mais vendidos no Brasil. O destino dessa briga judicial nos EUA influencia o debate sobre o produto no mundo todo.
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A Bayer venceu nesta quinta-feira um julgamento em St. Louis, no estado do Missouri (EUA), sobre o herbicida Roundup. Por unanimidade, o júri rejeitou o pedido de três mulheres que acusavam o produto de ter causado o câncer que elas desenvolveram. O resultado reforça a estratégia da empresa alemã de encerrar o passivo judicial que enfrenta nos Estados Unidos.

É importante entender o que o júri decidiu e o que ele não decidiu. Os jurados concluíram que as autoras não provaram a tese apresentada no processo. Isso não equivale a uma decisão científica sobre se o glifosato, princípio ativo do Roundup, causa ou não câncer.

A tese nova e por que ela surgiu

Durante anos, a maior parte das ações contra a Bayer seguiu a mesma linha: a empresa teria deixado de avisar, no rótulo do Roundup, sobre um possível risco de câncer. Esse caminho foi praticamente fechado em 25 de junho de 2026. Naquele dia, a Suprema Corte dos EUA decidiu, por 7 votos a 2, no caso Monsanto Co. v. Durnell, que a lei federal obriga o fabricante a usar exatamente o rótulo aprovado pela EPA, a agência ambiental americana. Como a EPA não exige alerta de câncer, a empresa não pode ser processada por não ter incluído esse aviso.

Sem esse caminho, os advogados das vítimas mudaram de tese. Em St. Louis, sustentaram que o Roundup tinha defeito de projeto, ou seja, que o produto em si era perigoso demais e nem deveria ter sido colocado à venda. O advogado das autoras, Greg Dovel, também afirmou que a Monsanto não testou o herbicida de forma adequada antes de vendê-lo.

Por isso o caso era observado de perto. Foi o primeiro teste, num tribunal, de um dos argumentos que restaram depois da decisão da Suprema Corte.

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Quem processou

As autoras foram Theresa Aretino, Cynthia Fernandez e Betty Larkin. As três afirmavam ter desenvolvido linfoma não Hodgkin, um tipo de câncer do sistema linfático, por causa da exposição ao Roundup. Cynthia Fernandez morreu antes do início do julgamento.

As três tinham optado por ficar fora do acordo coletivo proposto pela Bayer. Por isso, seguiram com a ação individual.

O mercado comemorou

As ações da Bayer chegaram a subir 5,2% no início do pregão desta sexta-feira (30) em Frankfurt. Com isso, a valorização acumulada em 2026 chega perto de 35%.

Analistas do banco Jefferies, entre eles Michael Leuchten, avaliaram em relatório que o resultado vai além de uma vitória comum:

“Acreditamos que ele representa um primeiro indicador positivo sobre os caminhos jurídicos que ainda restam aos autores dos processos.”

Uma herança de US$ 11 bilhões

Os processos não nasceram na Bayer. Vieram com a compra da Monsanto, fabricante original do Roundup, em 2018. Desde então, o caso já custou à empresa alemã mais de US$ 11 bilhões. O CEO, Bill Anderson, prometeu “reduzir significativamente” esse passivo até o fim do ano.

Antes do julgamento, a Bayer informou ter vencido 17 dos últimos 25 processos sobre o Roundup que chegaram a julgamento. Mesmo assim, cerca de 65 mil ações continuam pendentes em tribunais estaduais e federais dos EUA.

O passo mais importante agora é outro. Um juiz estadual do Missouri ainda precisa dar a aprovação definitiva ao acordo de US$ 7,25 bilhões proposto pela Bayer, que recebeu aprovação preliminar em março. O acordo foi desenhado para resolver a maior parte das ações atuais e também as futuras.

“Uma vez garantida essa aprovação, a Bayer deverá ter reduzido substancialmente seus riscos judiciais”, avaliou Markus Manns, gestor de portfólio da Union Investment, fundo que tem ações da Bayer.

O outro lado

A Bayer sustentou no julgamento que as autoras não provaram que o Roundup deveria ser proibido e citou as avaliações de segurança feitas pela EPA. A empresa afirma que décadas de estudos mostram que o glifosato é seguro e não causa câncer.

Depois do veredito, Bill Dodero, consultor jurídico-geral da Bayer nos EUA e chefe global de contencioso da empresa, disse que a decisão confirma a “convicção de que não há provas que sustentem as alegações de defeito de projeto, fraude ou negligência”. Segundo ele, quem processar a empresa depois da decisão da Suprema Corte vai enfrentar “desafios significativos”.

A ciência sobre o glifosato não é consenso. Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde, classificou o glifosato como “provavelmente cancerígeno para humanos”. A EPA, por sua vez, concluiu que ele provavelmente não causa câncer quando usado conforme o rótulo. É nessa divergência que as vítimas se apoiam.

Os advogados das autoras não comentaram o veredito até a publicação desta reportagem, e não há informação sobre recurso.

A vitória em St. Louis não encerra a briga, mas muda o placar. Com o rótulo fora de questão desde a Suprema Corte e a primeira tentativa de nova tese derrotada por unanimidade, ficou mais difícil e mais caro processar a Bayer nos Estados Unidos. Isso empurra as vítimas para o acordo coletivo. Para o Brasil, onde o glifosato é amplamente usado nas lavouras, a mensagem é ambígua: a vitória da empresa vem dos tribunais americanos e da regulação da EPA, não de um ponto final na discussão científica.

🔊 Versão em áudio disponível no topo do post.

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