BC acelera aperto monetário e sinaliza Selic a 14,25% até março de 2025
Com deterioração do cenário inflacionário e pressões cambiais, Copom indica mais duas altas de 1 ponto percentual nos próximos encontros

O Banco Central do Brasil (BC) intensificou o ciclo de aperto monetário ao elevar a taxa Selic em 1 ponto percentual, levando-a a 12,25% ao ano, e sinalizou que pretende manter o mesmo ritmo de alta nas próximas duas reuniões. A decisão, revelada na ata do Copom divulgada nesta terça-feira (17), reflete a preocupação da autoridade monetária com o cenário inflacionário mais adverso e as pressões sobre o câmbio.
De acordo com o documento, a reação negativa do mercado financeiro ao pacote fiscal do governo federal e o recente aumento na taxa de câmbio foram determinantes para a decisão. O dólar chegou a ultrapassar o patamar histórico de R$ 6, pressionando ainda mais as expectativas inflacionárias que já vinham se deteriorando.

"A percepção dos agentes econômicos sobre o recente anúncio fiscal afetou significativamente os preços de ativos e as expectativas, especialmente o prêmio de risco, as expectativas de inflação e a taxa de câmbio", destaca a ata.
Roberto Campos Neto, presidente do BC, tem enfatizado a necessidade de uma postura mais austera na política monetária. Em apresentação recente, ele destacou que "o momento exige cautela adicional e uma atuação tempestiva para garantir a convergência da inflação à meta".
O economista-chefe do Banco Itaú, Mario Mesquita, avalia que a decisão do Copom foi acertada: "O cenário atual demanda uma postura mais conservadora do BC, especialmente considerando as pressões inflacionárias e as incertezas fiscais. A sinalização de mais altas nos próximos encontros é coerente com esse quadro".
Saiba mais:
Pressões inflacionárias e cenário Econômico
O último Boletim Focus mostra que as expectativas de inflação seguem se deteriorando. A previsão para o IPCA em 2024 subiu de 4,84% para 4,89%, distanciando-se ainda mais da meta de 3%. Para 2025, a projeção também foi revista para cima, passando de 4,59% para 4,6%.
A ata destacou ainda a pressão dos preços de alimentos, afetados pela estiagem e pela elevação nos preços das carnes, além do impacto do câmbio sobre os bens industrializados. O documento indica que esses fatores tendem a se propagar para o médio prazo.
Reação do Mercado
A decisão do Copom e sua sinalização para as próximas reuniões foram recebidas pelo mercado como um recado "duro, mas necessário", conforme reportagem do InfoMoney. O cenário atual, marcado por incertezas fiscais e pressões inflacionárias, tem levado a revisões constantes nas projeções econômicas.
De acordo com o último Boletim Focus do Banco Central, as expectativas de inflação seguem em trajetória de alta, com a previsão para o IPCA em 2024 sendo elevada de 4,84% para 4,89%, distanciando-se ainda mais da meta de 3%
Pressão Cambial intensifica cenário inflacionário
O dólar atingiu hoje (17/12) a cotação de R$ 6,04, mantendo-se em patamares historicamente elevados e pressionando ainda mais o cenário inflacionário. A alta da moeda americana, que acumula valorização de 24,3% no ano, já começa a impactar diretamente os preços ao consumidor.
De acordo com Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco, citado pela Folha de S.Paulo, "é difícil supor que o nível de câmbio será o novo normal no longo prazo". No entanto, a permanência do dólar acima dos R$ 6 tem gerado preocupação no mercado, especialmente em relação aos seus efeitos sobre a inflação.
O impacto já é sentido na indústria. Segundo reportagem recente do IEDI (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), "com a escalada do dólar, a indústria já prepara repasse de preços a partir de janeiro", o que deve pressionar ainda mais os índices inflacionários no início de 2025.
O cenário de dólar elevado tem múltiplos efeitos na economia:
Custos de Importação: Encarecimento de insumos e bens de capital importados, pressionando custos industriais
Preços ao Consumidor: Repasse dos custos mais altos para produtos finais
Combustíveis: Maior pressão sobre os preços dos combustíveis, que seguem a paridade internacional
Inflação de Alimentos: Impacto nos preços de commodities agrícolas cotadas em dólar
"Um dólar consistentemente acima de R$ 6 sinaliza que o Banco Central enfrentará maiores desafios para controlar a inflação, mesmo com a elevação da taxa de juros", alerta análise da BBC Brasil, indicando que o cenário pode exigir um ciclo de aperto monetário ainda mais prolongado.

Ambiente externo e desafios
O cenário internacional também preocupa o BC. A ata aponta que o ambiente externo permanece desafiador, principalmente devido às incertezas sobre a economia americana e possíveis mudanças na condução da política monetária pelo Federal Reserve.
Tony Volpon, ex-diretor do BC e economista-chefe do Wealth High Governance (WHG), comentou: "O cenário externo mais incerto, combinado com as pressões domésticas, justifica uma postura mais conservadora do Copom. A autoridade monetária precisa demonstrar compromisso inequívoco com a meta de inflação".
Perspectivas
Com a sinalização do Copom, a taxa Selic deve atingir 14,25% até março de 2025, retornando aos níveis observados no ciclo anterior de aperto monetário. O economista-chefe do Banco Safra, Carlos Kawall, projeta que "o BC deverá manter os juros elevados por um período prolongado, até que haja sinais mais claros de convergência da inflação à meta".
O mercado financeiro aguarda agora os próximos passos do governo na área fiscal, elemento crucial para a trajetória da política monetária nos próximos meses.
O Copom deixou claro em sua comunicação que a convergência da inflação para a meta de 3% em 2024 (com intervalo de tolerância entre 1,5% e 4,5%) exigirá determinação e perseverança na condução da política monetária. As próximas reuniões, previstas para janeiro e março de 2025, devem confirmar o ciclo de alta, levando a Selic ao patamar de 14,25% caso o cenário atual se mantenha.
A combinação de juros mais altos com a necessidade de ajuste fiscal representa um desafio significativo para o crescimento econômico em 2025.
