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Raízen deve fechar acordo de R$ 65 bilhões e evitar recuperação judicial

Gigante do etanol alinha credores e prevê cisão operacional. Shell entra com R$ 3,5 bi; plano precisa ser protocolado até 8 de junho

Raízen deve fechar acordo de R$ 65 bilhões e evitar recuperação judicial
📷 Divulgação
📋 Em resumo
  • Raízen avança em acordo extrajudicial para renegociar dívida de R$ 65 bilhões.
  • Plano prevê conversão de 45% do passivo em ações e alongamento do restante.
  • Shell realiza aporte de R$ 3,5 bilhões; entrada de Rubens Ometto não é certa.
  • Por que isso importa: A decisão define o futuro da maior produtora de etanol do mundo e testa o mercado de crédito agrícola.
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A Raízen mantém nesta sexta-feira (29) uma agenda intensiva de negociações com credores na tentativa de fechar um acordo para sua recuperação extrajudicial até o fim de semana. A companhia, que acumula dívidas de R$ 65 bilhões, conseguiu realinhar todos os principais grupos de credores, incluindo os detentores de títulos da dívida externa (bondholders), que haviam se afastado das mesas de negociação em momentos anteriores devido a divergências sobre os termos propostos.

“A conversão será de 45% da dívida em participação acionária. O restante será alongado em uma nova dívida.”

Segundo fontes próximas ao processo ouvidas pelo Valor, a proposta final apresentada ao mercado mantém a estrutura básica divulgada anteriormente pela empresa, mas com ajustes pontuais exigidos pelos investidores internacionais. A taxa de juros para a parcela da dívida que será mantida como papel sofreu uma leve alta, situando-se em torno de 8% ao ano, após pressão dos bondholders.

Alinhamento estratégico e cisão operacional

Enquanto os credores externos foram os últimos a ceder, os bancos nacionais e investidores do mercado de renda fixa local — incluindo debenturistas e detentores de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) — já estão alinhados com a proposta. O consenso entre esses grupos foi crucial para destravar as negociações finais.

O plano de reestruturação não envolve apenas números, mas uma mudança estrutural na operação da companhia. Está prevista a cisão da Raízen em duas unidades distintas: Raízen Energia e Raízen Combustíveis. Essa separação visa dar transparência aos fluxos de caixa de cada negócio e facilitar a gestão específica de cada setor, além de tornar a companhia mais atrativa para diferentes perfis de investidores no futuro.

Para aprovar o acordo, a Raízen necessita da adesão de credores que representem, no mínimo, 50% do volume total da dívida. Com o retorno dos bondholders à mesa e o apoio consolidado dos credores locais, a expectativa é de que esse quórum seja atingido antes do prazo fatal.

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Apoio dos acionistas controladores

A solidez do acordo também depende do compromisso dos acionistas controladores. A Shell, joint-venture partner da Raízen junto com a Cosan, confirmará um aporte de capital de R$ 3,5 bilhões. Esse injection de recursos frescos é vital para demonstrar confiança no novo modelo de negócios e para fortalecer o caixa da companhia no curto prazo.

Já a participação de Rubens Ometto, dono da Cosan, gera incertezas. Documentos apresentados pela Raízen listam um possível aporte de R$ 500 milhões por parte do empresário, mas fontes indicam que essa injeção de capital não é esperada no cenário base. A inclusão dessa possibilidade nos papéis serve mais como uma cláusula de contingência do que como uma promessa efetiva de desembolso imediato.

Corrida contra o tempo

O cronograma para o fechamento do acordo é apertado. Para evitar a judicialização do processo — o que traria custos adicionais e incertezas jurídicas —, a Raízen precisa protocolar o pedido de recuperação extrajudicial até o dia 8 de junho.

A velocidade das negociações nestes últimos dias reflete a urgência de ambas as partes. Para os credores, um acordo extrajudicial é preferível à demora e aos descontos potencialmente maiores de uma recuperação judicial tradicional. Para a Raízen, a preservação da imagem institucional e a continuidade operacional sem a tutela da justiça são prioridades absolutas.

Impacto no agronegócio e no mercado financeiro

A resolução do caso Raízen tem implicações que vão além dos balanços da própria empresa. Sendo uma das maiores companhias do agronegócio brasileiro e um pilar importante na matriz energética nacional, a forma como sua dívida é reestruturada servirá de termômetro para o apetite de risco dos investidores internacionais no setor.

A aceitação da conversão de dívida em equity (ações) por uma parcela significativa dos credores sinaliza uma tendência de mercado: em tempos de taxas de juros elevadas e volatilidade, a propriedade ativa de ativos reais pode ser mais atraente do que a exposição a títulos de renda fixa de emissoras endividadas.

Se o acordo for fechado conforme o planejado, a Raízen deverá sair do processo com uma estrutura de capital mais saudável, embora diluída para os acionistas atuais devido à emissão de novas ações. O desafio agora será executar a cisão operacional e entregar os resultados prometidos sob a nova governança.

O mercado observa atentamente. Um fracasso nas negociações desta sexta-feira poderia desencadear uma revisão agressiva de ratings e uma fuga de capitais não apenas da Raízen, mas de todo o setor de bioenergia. O sucesso, por outro lado, consolidaria um novo paradigma para reestruturações de grande porte no Brasil.


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