Painel Econômico

Bloqueio de R$ 176 mi do Genial expõe elo entre mercado financeiro e esquema de combustíveis

Ação cautelar da PGE-SP revela como fundos de investimento foram usados na cadeia de sonegação de ICMS que movimenta bilhões no setor de combustíveis paulista

Bloqueio de R$ 176 mi do Genial expõe elo entre mercado financeiro e esquema de combustíveis
📷 Divulgação
📋 Em resumo
  • Fazenda de SP bloqueou R$ 176 milhões do Banco Genial em ação vinculada à Operação Carbono Oculto
  • Valores estão atrelados a operações com as empresas Áster e Copape, investigadas por sonegação de R$ 7,6 bilhões em ICMS
  • Genial afirma não ser investigado, apenas administrador fiduciário do fundo Radford, e renunciou à gestão
  • Por que isso importa: o caso expõe a fragilidade de controles em estruturas financeiras complexas usadas para blindagem patrimonial no mercado de capitais brasileiro
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A Procuradoria Geral do Estado de São Paulo (PGE-SP) determinou o bloqueio cautelar de R$ 176 milhões vinculados ao Banco Genial Investimentos. A medida, em segredo de Justiça, integra a Operação Carbono Oculto e mira recursos que teriam sido instrumentalizados para ocultação patrimonial no esquema de sonegação de ICMS investigado pela Polícia Federal. O caso coloca em debate o papel de instituições financeiras como administradoras fiduciárias em estruturas complexas de fundos.

A engrenagem financeira por trás do bloqueio

O valor bloqueado pela Procuradoria Geral do Estado de São Paulo (PGE-SP) corresponde a uma operação específica de emissão de CDB vinculada a um empréstimo concedido pelo Banco Genial à empresa Berna, com garantia fiduciária de imóveis avaliados em mais de R$ 200 milhões. A usina Itajobi, pertencente ao grupo formado pelas empresas Áster e Copape, havia aplicado R$ 176 milhões nesse CDB por meio do fundo Radford, administrado pelo Genial.

"A operação vinculada do CDB com o empréstimo para a Berna sugere que o dinheiro dos próprios investigados foi usado para comprar imóveis para eles próprios, em uma estrutura montada para viabilizar a compra fictícia das quotas do FII, alienação fiduciária para lavagem, ocultação e blindagem patrimonial".

A Áster e a Copape são investigadas na Operação Carbono Oculto por suspeita de sonegação fiscal, lavagem de dinheiro e organização criminosa. A medida cautelar fiscal busca recuperar R$ 7,6 bilhões em ICMS supostamente sonegado entre 2020 e 2024, valor que inclui juros e multa.

Como o Genial entrou no radar da fiscalização

O Banco Genial Investimentos passou a prestar serviços para as empresas do ramo de combustíveis no segundo semestre de 2024, quando a Reag Trust DTVM e a gestora do grupo fundado por João Carlos Mansur deixaram de atuar, segundo fonte com conhecimento do assunto. Na migração, os investigados teriam levado também um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios de cerca de R$ 500 milhões, atrelado a uma carteira de crédito consignado do Banco Master.

A estrutura herdada trazia um empréstimo feito para a usina Itajobi e, como contrapartida, a emissão do CDB de R$ 176 milhões por meio do fundo Radford. Em 28 de agosto de 2025 — data da deflagração da Operação Carbono Oculto —, o Genial enviou nota à imprensa informando ter renunciado à prestação de serviços de administração do fundo Radford, citado nos documentos da investigação.

A tentativa de desfazer operações e a resposta da PGE-SP

Na noite da operação, o Genial tentou desfazer duas operações, alegando que a ordem de desfazimento havia sido dada em data anterior. No entanto, conforme consta nos autos do processo, a Procuradoria considerou a manobra uma "fraude à ordem de execução" e determinou o bloqueio dos valores. O Genial recorreu, mas perdeu. A última decisão foi proferida em 9 de janeiro de 2026.

"O Banco Genial atua em estrita conformidade com as normas do mercado financeiro, pautando suas atividades por elevados padrões de governança, transparência e controles internos", afirmou a instituição em nota.

A assessoria do banco reforçou que, no âmbito da Operação Carbono Oculto, o Banco Genial não figura como investigado, tendo colaborado com as autoridades desde que tomou conhecimento dos fatos. O MP-SP, por sua vez, não confirma nem nega informações sobre o andamento do caso, que corre sob sigilo de Justiça.

O que está em jogo além dos R$ 176 milhões

A Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025 pela Receita Federal e órgãos parceiros, mira um esquema de fraudes e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis, com uso de fintechs e fundos de investimento para ocultação patrimonial. Segundo a Receita, a operação envolveu cerca de 350 alvos, entre pessoas físicas e jurídicas, em oito estados, e identificou ao menos 40 fundos de investimento, com patrimônio de R$ 30 bilhões, usados como estruturas de ocultação.

O caso do Genial ilustra um desafio recorrente no mercado financeiro brasileiro: a dificuldade de rastrear beneficiários finais em estruturas de fundos em cascata, especialmente quando há múltiplas camadas de intermediação fiduciária. A pergunta que fica não é apenas sobre responsabilidade individual, mas sobre a eficácia dos mecanismos de due diligence exigidos pela regulamentação do setor.

Nota do Genial:

O Banco Genial atua em estrita conformidade com as normas do mercado financeiro, pautando suas atividades por elevados padrões de governança, transparência e controles internos.

As medidas judiciais mencionadas referem-se a processo em curso envolvendo fundo sob administração do banco. A atuação como administradora fiduciária foi conduzida em conformidade com a regulamentação aplicável e com os deveres inerentes a essa função.

No âmbito da Operação Carbono Oculto, o Banco Genial não figura como investigado, tendo colaborado com as autoridades desde que tomou conhecimento dos fatos.


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