Bolsonaro tem “sangue indígena nas mãos”, diz Txai Suruí no Senado Federal
Via Painel Político

A Comissão de Meio Ambiente do Senado Federal em Brasília (DF), realizou nesta quarta-feira, (09), debate sobre prevenção e combate ao desmatamento, presidida pelo senador Jaques Wagner (PT/BA). A indígena, ativista social e estudante de direito pela Universidade de Rondônia, Txai Suruí foi convidada para representar os povos da Amazônia na Comissão.
Suruí disse que a reunião no senado era importante para “falar a realidade que os povos indígenas vêm sofrendo no Brasil. E de todos os ataques que a gente vem sofrendo diretamente durante esses tempos”.
Txai falou das invasões aos territórios dos povos indígenas, das ameaças, riscos, destruições e da insegurança alimentar dos povos da Amazônia. E convocou a sociedade para defender e preservar a natureza. Também lembrou das populações da periferia que estão abandonadas e ameaçadas pelas mudanças climáticas.
“A gente realmente está vivendo uma guerra. Uma guerra dentro dos territórios indígenas. E a pergunta é: quando que vão tirar os 20 mil garimpeiros que estão dentro do Yanomami (Terra indígena no Pará)? quando que vão tirar as 6 mil cabeças de gado que estão dentro da terra indígena Uru Eu Wau Wau? quando que vão tirar os garimpeiros da minha terra, terra indígena 7 de setembro? E até quando esse governo vai ter sangue indígena nas mãos? até quando teremos que lutar contra projetos de lei que atacam diretamente as nossas vidas? E quando eu falo vida não é só a vida dos povos indígenas não, é a vida de todos”.
A indígena lembrou da legalização e danos ambientais provocados pela mineração e do avanço do desmatamento. “Como foi bem dito aqui, a Amazônia ela é fundamental para a vida no planeta. Fundamental para que a gente tenha um lugar que a gente possa chamar de casa ou de mãe terra. Quem que tá ganhando com isso? O povo tá sendo envenenado pelo mercúrio, tem que lidar todos os dias com as ameaças de morte que a gente vem sofrendo por defender a coisa que o Brasil tem de mais preciosa que é a nossa floresta. O mundo inteiro tá falando disso, que a floresta vale muito mais em pé que derrubada. O que a gente viu foi um aumento do desmatamento dentro das terras indígenas e uma luta real que a gente vem travando todos os dias pelas nossas vidas e pelos nossos territórios. E que deveria ser um dever de todos se unir a essa luta pela Amazônia que já vem sendo afetada pelos enchentes.”
Txai lembrou os impactos ambientais que o Brasil vem sofrendo por conta das mudanças climáticas. “O que tá acontecendo na Bahia em Minas, no Rio de Janeiro. Isso não é apenas o clima. Isso é a nossa terra falando, gritando que a gente precisa fazer algo e agora. Tem que ser agora, por que a gente já não tem mais tempo”.
Também disse das ilegalidades que acontecem dentro dos governos para legalizar a invasão de terras. “Na terra indígena Uru Eu Wau Wau tem mais de mil cadastros ambientais rurais ilegais. Existem projetos de lei que querem legalizar isso. Que querem beneficiar os verdadeiros criminosos. Todo mundo sabe que é ilegal invadir terras públicas no Brasil, então por que a gente ainda tá beneficiando essas pessoas?”
E questionou a ausência de medidas para frear a devastação ambiental. “Todo mundo sabe que os garimpeiros estão dentro das terras indígenas, que o desmatamento está aumentando e que isso tá afetando diretamente a nossa vida e que tá levando inclusive à morte das nossas populações. E por que que a gente não tá fazendo nada? Todos esses projetos de lei, são projetos que querem acabar com nossas vidas e que visam simplesmente o lucro sem pensar naqueles que realmente tão sofrendo e fazendo um trabalho de proteção“, finalizou.
QUEM É ELA – Txai é da etnia paiter-suruí, Terra Indígena 7 de Setembro em Cacoal, RO. Seu pai, Almir Suruí, é uma das lideranças indígenas mais conhecidas do país, crítico do presidente Jair Bolsonaro e já sofreu ameaças e perseguições do governo.
Seu segundo nome de batismo significa “mulher inteligente”, “gente de verdade”. Já o seu primeiro nome quer dizer “mais que amigo”, “mais que irmão”. Significa “a metade de mim que existe em você” e a “metade de você que habita em mim”, na língua do povo kaxinawá.
Walelasoetxeige, mais conhecida como Txai Suruí, tinha somente seis anos quando seu avô a colocou sentada em um tronco, de frente ao povo Paiter-Suruí, e disse que ela ainda seria uma grande líder indígena.
Aos seis anos, durante ritual que festeja a criação do mundo, seu pai a anunciou como uma futura grande líder indígena.
Quando tinha 14 anos, ela e sua família passaram um tempo vivendo sob escolta da força nacional brasileira, por conta de ameaças que recebiam de madeireiros da região. Tal proteção não evitou que, em 18 de abril de 2020, Ari Uru-eu-wau-wau, também líder indígena e seu amigo de infância, fosse assassinado.
Sua mãe, conhecida como Neidinha Suruí, é uma das maiores ativistas da Amazônia atuando em mais de 70 povos indígenas e possui trabalho respeitado em todo mundo.
Txai é a primeira jovem de seu povo a cursar Direito. Ela criou o Movimento da Juventude Indígena de Rondônia no início de 2021. A organização já tem aproximadamente 1,7 mil filiados.
Ela foi a única brasileira a discursar na abertura da 26ª Cúpula do Clima (COP26), em Glasgow, Escócia, no ano passado. Movimentos sociais e jornais já falam de Txai para o Nobel da Paz de 2022.
(Foto: Ana Pessoa/Midia Ninja/CopCollab25)
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