Brasil decreta luto por Glória Menezes e Laura Cardoso
📋 Em resumo ▾
- Glória Menezes morreu nesta terça-feira (18), aos 91 anos, de causas naturais, em seu apartamento no Rio de Janeiro
- Laura Cardoso morreu na noite de segunda-feira (17), aos 98 anos, em casa, em São Paulo, também de causas naturais
- Presidente Lula decretou luto oficial de três dias; vice-presidente Geraldo Alckmin classificou o dia como de "tristeza dupla"
- As duas contracenaram na mesma novela e trocaram elogios públicos ao longo da carreira
- Por que isso importa: as mortes fecham um ciclo de quase sete décadas que ajudou a moldar a linguagem da telenovela brasileira, hoje um dos principais produtos culturais de exportação do país
A televisão brasileira perdeu, em um intervalo de menos de 24 horas, duas de suas atrizes mais longevas. Glória Menezes morreu na tarde desta terça-feira (18), aos 91 anos, e Laura Cardoso morreu na noite de segunda-feira (17), aos 98. Ambas, segundo suas assessorias, faleceram de causas naturais, em casa.
A sequência de mortes levou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a decretar luto oficial de três dias nesta terça. "Em sinal de reconhecimento e gratidão a tudo o que Glória e Laura fizeram pela cultura brasileira, decreto luto oficial de 3 dias", escreveu o presidente em publicação no X.
Glória Menezes: da Escola de Arte Dramática ao ícone da TV Globo
Nascida em Pelotas, no Rio Grande do Sul, com o nome de Nilcedes Soares Guimarães, junção do nome do pai, José Nilo, com o da mãe, Mercedes, Glória Menezes começou a carreira ainda estudante. Aos seis anos mudou-se com a família para São Paulo, onde estudou na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo e fundou o grupo teatral Jovens Independentes; estreou profissionalmente na TV Tupi em 1959, na novela "Um Lugar ao Sol".
No cinema, integrou o elenco de "O Pagador de Promessas" (1962), que levou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, e atuou ao todo em sete longas-metragens. Na televisão, acumulou trabalhos em mais de 40 novelas, além de minisséries e seriados, com passagens marcantes por "Cavalo de Aço" (1973), "Corpo a Corpo" (1984), "Deus nos Acuda" (1992), "A Próxima Vítima" (1995), "Torre de Babel" (1998), "Porto dos Milagres" (2001), "Beijo do Vampiro" (2002), "Senhora do Destino" (2004), "Páginas da Vida" (2006) e "A Favorita" (2008). Seu último papel em novela foi em "Totalmente Demais" (2015), na qual interpretou a madame Stelinha.
Foi entre uma novela e uma peça de teatro que Glória e Tarcísio Meira se conheceram e iniciaram um relacionamento de quase seis décadas, atuando juntos pela primeira vez no teleteatro "Uma Pires Camargo" (1961), da TV Tupi. O casal se tornou o par romântico mais reconhecido da teledramaturgia nacional, repetindo a parceria em "2-5499 Ocupado" (1963) — a primeira novela diária da TV brasileira — e depois em "Irmãos Coragem" (1970), "Sangue e Areia" (1968), "Cavalo de Aço" (1973) e "O Semideus" (1973). Tarcísio Meira morreu em agosto de 2021, aos 85 anos, vítima de complicações da Covid-19.
Segundo a assessoria da atriz, ouvida pelo g1, Glória morreu de causas naturais em seu apartamento, no Rio de Janeiro. Até a divulgação da notícia, a família não havia informado detalhes sobre velório e sepultamento. Ela deixa os filhos João Paulo e Maria Amélia, do casamento com Arnaldo Brito, e Tarcísio Filho, fruto da união com Tarcísio Meira.
Laura Cardoso: recordista de novelas morre aos 98 anos
Nascida em São Paulo em 1927, filha de imigrantes portugueses, Laura Cardoso — nome artístico de Laurinda de Jesus Cardoso — iniciou a carreira no radioteatro e fez mais de 60 novelas ao longo de várias décadas. Estreou na televisão em 1952, na Tupi, no programa "Tribunal do Coração". Seus últimos trabalhos foram "A Dona do Pedaço" (2019) e "Dona Rosinha" (2025).
A atriz morreu às 23h24 de segunda-feira, em sua casa em São Paulo, de causas naturais, segundo relato do bisneto Fernando Faria, responsável por sua página no Instagram — perfil que tem mais de 1 milhão de seguidores. Na publicação que anunciou a morte, a família escreveu:
"Nossa grande estrela se despediu de nós. Laura Cardoso estará para sempre em nossos corações. Obrigada por tudo, nossa amada e eterna Laura Cardoso" (Instagram/Fernando Faria)
Laura deixa duas filhas, Fernanda e Fátima, e três netos. O velório foi realizado nesta terça-feira, das 8h às 14h, em um funeral home na zona oeste de São Paulo, com cerimônia fechada ao público, permitindo apenas homenagens do lado de fora.
A atriz era conhecida por falar da morte sem tabu. Em entrevista à revista Quem, em 2019, afirmou:
"É uma besteira ter medo da morte! Ela é imprevisível, mas inevitável. Amo a vida, agradeço a Deus por ter chegado a essa idade, mas a gente um dia vai embora" (Revista Quem, 2019)
Luto oficial e reações do Planalto
Ao anunciar o decreto, Lula destacou que as duas atrizes atuaram por cerca de sete décadas em produções de teatro e televisão, e que suas carreiras "se confundem com a história da dramaturgia brasileira".
O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) publicou duas homenagens no mesmo dia. Pela manhã, chamou Laura Cardoso de "gigante" da cultura brasileira, destacando que a "paulistana do Bixiga" deixava "o legado de sua dedicação de mais de oito décadas à arte e ao encantamento". Horas depois, ao saber da morte de Glória Menezes, classificou o dia como de "tristeza dupla" e lembrou que a atriz, "gaúcha de nascimento e paulista de formação e coração, ajudou a construir a história do teatro, do cinema e da televisão brasileira" em "mais de seis décadas de talento e emoção".
Trajetórias que se cruzaram nos bastidores
Glória Menezes e Laura Cardoso não foram apenas contemporâneas: dividiram elenco em pelo menos uma novela e trocaram elogios públicos ao longo da carreira. Em uma homenagem antiga a Glória e Tarcísio Meira, Laura resumiu o afeto:
"Gosto muito dos dois, muito, muito" (Laura Cardoso)
A frase, registrada anos antes das duas mortes, ganhou novo peso simbólico nesta terça-feira — o dia em que a teledramaturgia brasileira perdeu, lado a lado, duas das intérpretes que ajudaram a consolidar o gênero como principal produto de entretenimento das emissoras nacionais desde os anos 1950 e 1960.
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