Tatunca Nara: o alemão que se inventou índio e deixou um rastro de morte na Amazônia
✦ Especial Painel Político

Tatunca Nara: o alemão que se inventou índio e deixou um rastro de morte na Amazônia

📋 Em resumo
  • A série "Morte e Mistério na Amazônia" (HBO Max), que estreia nesta quinta (10), revisita o caso Tatunca Nara e a lenda da cidade perdida de Akakor.
  • Ele se dizia cacique dos Ugha Mongulala, mas a polícia alemã o identificou como Günther Hauck, nascido na Baviera em 1941 — o que ele nega até hoje.
  • Ao menos três estrangeiros que o procuraram desapareceram: o americano John Reed (1980), o suíço Herbert Wanner (1983) e a sueco-alemã Christine Heuser (1987).
  • O esqueleto de Wanner foi achado com um furo de bala no crânio; o jornalista Karl Brugger, autor do livro que criou a lenda, foi assassinado no Rio em 1984.
  • Por que isso importa: investigado por polícias de três países, Tatunca nunca foi condenado — e a série traz seu primeiro depoimento, ainda vivendo na Amazônia.
  • A lenda foi tão longe que inspirou o roteiro de um filme de Indiana Jones — enquanto, na vida real, deixava mortos sem resposta
Compartilhar: WhatsApp X LinkedIn

Por décadas, a história de Tatunca Nara foi contada em duas camadas que nunca se encaixaram. Na primeira, a do mito, ele era um cacique indígena, herdeiro de um povo milenar e guardião do caminho para Akakor — uma cidade subterrânea que, segundo a lenda, dormia escondida sob a floresta amazônica. Na segunda, a dos fatos, ele seria um alemão que abandonou mulher e filhos na Europa, sumiu no Brasil e renasceu com um cocar e um arco. Entre uma camada e outra, ao longo de meio século, ao menos três estrangeiros entraram na floresta atrás da cidade que ele prometia mostrar — e nenhum voltou.

É essa distância entre a lenda e o rastro de morte que a série documental "Morte e Mistério na Amazônia" tenta percorrer. Dirigida por Tatiana Issa e Guto Barra — a mesma dupla de "Pacto Brutal: O Assassinato de Daniella Perez" —, a produção estreia nesta quinta-feira (10) na HBO Max, em três episódios, e traz o que descreve como o primeiro depoimento de Tatunca, filmado em sua casa na Amazônia.

A lenda: uma cidade subterrânea onde se falava alemão

A história ganhou o mundo nos anos 1970, quando o jornalista alemão Karl Brugger conheceu Tatunca — o encontro teria sido no Bar Graças a Deus, em Manaus. Da oratória do "cacique" nasceu "A Crônica de Akakor", livro de 1976 que descrevia uma civilização fantástica: os Ugha Mongulala, um povo que teria reinado por milênios numa cidade subterrânea onde — detalhe revelador — se falava alemão. A mitologia foi engordando a cada versão: túneis, pirâmides, sociedades secretas, discos voadores e supostas conexões com militares nazistas. Nenhuma evidência arqueológica jamais comprovou a existência de Akakor ou dos Ugha Mongulala.

A crônica, porém, cumpriu seu papel: fisgou o imaginário de aventureiros europeus e norte-americanos, que passaram a viajar à Amazônia atrás da cidade — e a pedir justamente a Tatunca que os guiasse. A lenda foi tão potente que atravessou a cultura pop: pesquisadores apontam que Akakor inspirou a cidade fictícia de "Akator" em "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal" (2008). Na ficção, o herói encontrava o tesouro escondido. Na realidade, quem seguia o mapa não voltava.

O homem por trás do cacique

A dúvida sobre quem era aquele "índio" branco acompanhou-o desde o começo. Quando surgiu no Acre, no fim dos anos 1960, usava um pano sobre os genitais e uma pena, carregava um arco — mas era branco e falava com forte sotaque estrangeiro, que ele atribuía a uma mãe supostamente alemã. No fim dos anos 1980, o Escritório Federal de Polícia Criminal da Alemanha (a BKA) chegou a uma conclusão: "Tatunca Nara" era Hans Günther Hauck, nascido em 5 de outubro de 1941, na região de Coburgo, na Baviera. Segundo a investigação, Hauck deixou mulher e três filhos em Nuremberg e desapareceu no início dos anos 1960, em meio a dificuldades financeiras, embarcando num cargueiro até sumir no Brasil.

Apoie o jornalismo independente
Leia o Painel Político por inteiro
Assine e tenha acesso ao arquivo completo e a tudo que publicamos. Você sustenta um jornalismo que não se dobra ao poder.
Assinar por R$ 19/mês
ou acompanhe de graça
São canais, não grupos: só o Painel publica, ninguém comenta, seu número fica oculto. Saia quando quiser.

A investigação alemã foi aberta formalmente, nas palavras de um de seus documentos, "contra o cidadão alemão Günther Hauck, que vive no Brasil com uma identidade falsa" — mas, como registrou a revista Der Spiegel, "não chegou a lugar nenhum". Tatunca, por décadas e até hoje, nega ser Hauck e sustenta sua versão. Vive em Barcelos, no Amazonas, às margens do Rio Negro, e carrega um documento de identidade brasileiro que o classifica como indígena.

Ele fez, segundo testemunhas, a mesma promessa às três vítimas: "vou mostrar-lhe Akakor."

Tatunca Nara vive atualmente em Barcelos (AM)

Tatunca Nara vive atualmente em Barcelos (AM)

As três expedições sem volta

O que manteria a história de Tatunca como mais um causo amazônico foi justamente o que a tornou sombria: as pessoas que sumiram depois de procurá-lo. As fontes convergem em três casos, todos de viajantes atraídos pela leitura de "A Crônica de Akakor", e a eles Tatunca teria feito, segundo testemunhas, sempre a mesma promessa — "vou mostrar-lhe Akakor".

John Reed, um jovem norte-americano, foi o primeiro. Em 1980, procurou o "contador de histórias" e o seguiu floresta adentro para conhecer o suposto reino antigo. Nunca mais voltou.

Herbert Wanner, especialista florestal suíço, desapareceu em 1983 após se hospedar com Tatunca. Seu esqueleto foi encontrado por moradores cerca de um ano depois — com um furo de bala no crânio. Foi esse achado que levou as autoridades suíças a abrir uma investigação que incluiu o nome de Tatunca.

Christine Heuser, professora de ioga sueco-alemã, é o caso mais perturbador. Ela leu a crônica e, segundo relatos, ficou convencida de que teria sido esposa de Tatunca numa vida passada. Viajou ao Brasil em junho de 1987, encontrou-o, e tinha passagem de volta marcada para agosto. Saiu de Manaus rumo a Barcelos, onde foi vista pela última vez em julho de 1987. Seu desaparecimento fez a polícia federal alemã se juntar à investigação. Os corpos de Reed e Heuser nunca foram encontrados.

Uma morte a mais: o jornalista da lenda

Há ainda uma quarta morte que adensou o mistério — a do próprio homem que deu voz ao mito. Karl Brugger, o jornalista de "A Crônica de Akakor", que passou anos tentando encontrar a cidade, foi assassinado a tiros em Ipanema, no Rio de Janeiro, em 1º de janeiro de 1984. O crime nunca foi oficialmente esclarecido. A coincidência entre a morte do cronista e a série de desaparecimentos alimentou, por décadas, teorias que jamais saíram do campo da suspeita.


O que a Justiça de três países estabeleceu — e o que não

Aqui é preciso o mesmo rigor que os diretores da série dizem ter perseguido. O caso mobilizou autoridades de pelo menos três países — Brasil, Suíça e Alemanha —, atravessou quase meio século e nunca produziu uma condenação. Tatunca Nara foi investigado, mas jamais foi formalmente acusado ou condenado pelas mortes e desaparecimentos. A investigação alemã "não chegou a lugar nenhum"; a existência de Akakor nunca foi comprovada; a identidade alemã foi afirmada pela BKA, mas contestada por ele; e a autoria das mortes permanece no terreno da suspeita, não da sentença. É um caso feito de camadas que nenhum tribunal fechou.

O cuidado de não "cair na fantasia"

Foi essa natureza escorregadia que impôs à equipe um desafio de método — e físico. Para chegar às fontes, a produção enfrentou expedições fluviais de três a quatro dias de barco, dormindo em rede, num roteiro ditado por clima e distância. Mas o maior risco era outro. Guto Barra contou que a série exigiu "um rigor jornalístico muito grande", em boa parte por causa das próprias fontes: "Tem pessoas que conviveram com Tatunca, que participaram de certas coisas, mas que às vezes você começa a olhar e talvez elas também tenham ali suas questões. Você tem que ter um senso crítico muito grande para entender a qualidade daquela informação." A regra foi só levar ao ar o que pudesse ser corroborado de outras formas — sobretudo porque muitas testemunhas "também tinham suas interpretações fantásticas das coisas".

Para Tatiana Issa, o risco era estético e ético ao mesmo tempo: "Não cairmos na facilidade de mergulhar na fantasia do tema." Entrevistar o próprio Tatunca foi um capítulo à parte — os diretores o descreveram como um homem manipulador, que driblava as perguntas, e relataram que, "naquela longa tarde na casa dele na Amazônia, cada um reage de um jeito ao que ele fala".

Devolver o nome às vítimas

Talvez o gesto mais significativo da série esteja numa fala de Patrício Diaz, da Warner Bros. Discovery. Para ele, o rigor da produção está também em "desmistificar essa ideia de cidades perdidas, tesouros e grandes civilizações que nunca foram achadas" — concepção que associa a um imaginário colonialista europeu, o mesmo que moveu séculos de buscas por El Dorado. E, sobretudo, em recuperar quem foram as pessoas engolidas pela lenda: "Precisávamos trazer as vítimas e dar nome e sobrenome a elas."

É aí que a história deixa de ser folclore e vira o que sempre foi por baixo do mito: um caso sobre gente real — um americano, um suíço, uma sueca — que morreu perseguindo uma cidade que nunca existiu. A ficção transformou Akakor num tesouro que Indiana Jones encontra ao fim da aventura. A realidade guardou três nomes numa investigação que atravessou quatro décadas e três países sem chegar a lugar nenhum. A pergunta que a série deixa não é se a cidade perdida existe, mas por que ela precisou ser inventada — e quantas vidas reais cabem dentro de uma mentira grande o suficiente.


Versão em áudio disponível no topo do post.

💬 Comentários

Carregando comentários…

#TatuncaNara #Akakor #Amazônia #HBOMax #MorteEMistérioNaAmazônia #TrueCrime #KarlBrugger #PainelPolítico