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Brasil registrou quase 2 acidentes por dia com rede elétrica em 2025

Campanha Agosto Vermelho completa 20 anos, mas construção civil ainda responde por um terço das 703 ocorrências; especialistas apontam que maioria dos casos é evitável, mas fiscalização e cultura de prevenção não acompanham o crescimento

Brasil registrou quase 2 acidentes por dia com rede elétrica em 2025
📷 Shutterstock
📋 Em resumo
  • Brasil registrou 703 acidentes com a rede elétrica em 2025 — média de 1,93 ocorrência por dia —, com 252 mortes, 241 lesões graves (incluindo mutilações) e 210 lesões leves
  • Construção civil lidera as estatísticas com 227 acidentes e 68 mortes, seguida por operações com equipamentos próximos à rede, que saltaram para 66 registros (quase o dobro de 2024)
  • Ligações clandestinas ("gatos") causaram 30 acidentes e 15 mortes; Sudeste concentra 35% das ocorrências (243 casos) e Nordeste vem em segundo (187)
  • Dados da Abradee mostram aumento de 2,6% nos acidentes em relação a 2024, embora as mortes tenham caído 1,9%; campanha Agosto Vermelho chega à 20ª edição em agosto de 2026
  • Por que isso importa: A eletricidade mata mais de duas pessoas por dia no Brasil quando se consideram todos os acidentes de origem elétrica — choques, incêndios e explosões —, e a maioria das mortes ocorre em atividades rotineiras de trabalho e em residências
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O Brasil registrou 703 acidentes envolvendo a rede elétrica em 2025 — média de quase duas ocorrências por dia —, segundo balanço divulgado em julho pela Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee). Do total, 252 pessoas morreram, 241 sofreram lesões graves — incluindo mutilações — e 210 tiveram lesões leves. Os números, que embasam a 20ª edição da campanha Agosto Vermelho lançada neste mês de agosto de 2026, revelam um paradoxo: enquanto o número de acidentes cresceu 2,6% em relação a 2024 (685 ocorrências), as mortes recuaram 1,9% (eram 257 no ano anterior).

A construção civil como principal cemitério elétrico do país

A construção civil segue sendo a atividade mais letal quando o assunto é rede elétrica. Em 2025, foram 227 incidentes relacionados a obras, reformas e manutenção predial, que resultaram em 68 mortes — quase um a cada cinco dias. Isso representa 32,3% de todos os acidentes com a rede elétrica no país.

O perfil das vítimas não é de eletricistas inexperientes. São pedreiros, pintores, instaladores de fachadas, letreiros e operadores de máquinas — profissionais que, em tese, não lidam diretamente com eletricidade, mas trabalham em proximidade com a rede. A Norma Regulamentadora nº 10 (NR-10), do Ministério do Trabalho e Emprego, estabelece regras de segurança para trabalhos em instalações elétricas, mas a realidade das obras informais e da pequena construção civil no Brasil faz com que essas normas sejam mais ignoradas do que cumpridas.

"O que a gente percebe é que, muitas vezes, os acidentes com mortes ocorrem em momentos de distração ou quando a pessoa acha que está dando um jeitinho. Por exemplo, algumas obras informais ou mesmo dentro de casa", afirma Cristina Garambone, diretora de Comunicação e Sustentabilidade da Abradee, em entrevista à Agência Brasil.

O risco invisível que não dá sinais de alerta

Diferentemente de outros acidentes de trabalho, a eletricidade não apresenta sinais aparentes de perigo. Não há fumaça, não há cheiro, não há barulho. Um fio energizado caído no chão após uma chuva, uma escada de alumínio encostada em cabo de alta tensão, um guindaste operando próximo a rede aérea — todas são situações em que a morte chega sem aviso.

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Em 2025, os acidentes relacionados à operação de equipamentos próximos à rede elétrica — máquinas agrícolas, guindastes, caminhões-pipa — saltaram para 66 registros, quase o dobro do observado em 2024. O crescimento expressivo indica que a expansão da agropecuária, da construção pesada e dos serviços urbanos está ocorrendo sem a devida compatibilização com a infraestrutura elétrica existente.

As ligações clandestinas — os "gatos" ou "macacos" — continuam sendo outra fonte previsível de tragédia. Em 2025, foram 30 ocorrências com 15 mortes, taxa de letalidade de 50%. Ou seja: uma em cada duas pessoas que sofre acidente por furto de energia morre. A pena para o crime de furto de energia é de reclusão de até quatro anos, mas a fiscalização é irregular e a cultura de impunidade prevalece.

O mapa do risco: Sudeste lidera, mas Norte tem a maior letalidade

A distribuição regional dos acidentes reflete o desigual padrão de desenvolvimento do país. O Sudeste concentra 35% das ocorrências (243 acidentes) e 31% das mortes (78), o que é proporcional à densidade populacional e à intensidade de obras na região.

Mapa de acidentes

Mapa de acidentes

O Norte, com 122 acidentes e 50 mortes, apresenta a maior taxa de letalidade (41%). Na região, as ocorrências estão associadas principalmente a atividades próximas à rede elétrica e intervenções irregulares — um retrato da precariedade das instalações e da falta de manutenção em áreas remotas.

O Nordeste, com 187 acidentes e 67 mortes, é a segunda região em número absoluto de ocorrências. Dados da Neoenergia indicam que, só na Região Metropolitana do Recife, ocorreram 20 acidentes fatais relacionados à rede elétrica desde 2023, muitos deles em dias de fortes chuvas, quando alagamentos expõem fios caídos e instalações irregulares.

O número que a Abradee não contabiliza: 2.354 acidentes de origem elétrica

Os 703 acidentes da Abradee representam apenas uma fatia do problema. O Anuário Estatístico de Acidentes de Origem Elétrica 2026, da Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade (ABRACOPEL), registrou 2.354 acidentes de origem elétrica em 2024 — incluindo choques, incêndios e explosões —, com 840 mortes.

A diferença entre os números explica-se pelo escopo: a Abradee registra apenas acidentes relacionados à rede de distribuição (postes, fios, transformadores), enquanto a ABRACOPEL computa também acidentes em instalações residenciais, comerciais e industriais privadas. Ou seja: para cada acidente na rede pública, há mais de dois acidentes em instalações particulares. Em 2024, 248 pessoas morreram em choques dentro de casa — vítimas de extensões, benjamins, manutenções malfeitas e "jeitinhos" elétricos.

"A energia está presente em praticamente todos os momentos da nossa vida. Por isso, a informação continua sendo uma das ferramentas mais importantes para reduzir acidentes e preservar vidas. Segurança deve vir sempre em primeiro lugar", afirma Cristina Garambone, diretora da Abradee.

Agosto Vermelho: 20 anos de campanha e a mesma história

A 20ª Campanha Nacional de Segurança com a Rede Elétrica, promovida pela Abradee e suas 42 distribuidoras associadas — que atendem 99,8% da população brasileira e cerca de 212 milhões de clientes —, tem como mote "Energia liga. Segurança protege".

Duas décadas de campanha, porém, não traduziram em queda consistente nos números. A série histórica da Abradee, iniciada em 2017, mostra oscilações, mas não uma tendência de redução sustentada. A explicação não está na falta de informação, mas na falta de fiscalização, de punição e de cultura preventiva.

O professor Jeydson Lopes, doutor em engenharia elétrica pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), aponta que a maioria dos acidentes é evitável, mas exige responsabilização. "Grande parte desses problemas poderia ser evitada com a responsabilização adequada dos órgãos competentes, mas também associados com a educação e a conscientização da população", afirma. "Infelizmente, a gente está tendo problemas recorrentes no Brasil... a fiscalização é inadequada e não existe uma penalização adequada dos culpados."

A questão da responsabilização é complexa. Quando um acidente ocorre por fio caído de poste, a culpa pode ser da concessionária. Se há ligação clandestina no poste, o responsável é o infrator. Se o poste de iluminação pública está mal localizado em área de risco, a prefeitura pode ser responsabilizada. Na prática, essa multiplicidade de agentes resulta em impunidade difusa.

O clima que piora tudo: alagamentos, fios caídos e a nova normalidade

O cenário se complica com a intensificação de eventos climáticos extremos. Em Recife, ao menos cinco pessoas morreram por choque elétrico em dias de fortes chuvas só em 2025. A população, forçada a transitar por ruas alagadas, não sabe se o poste ao lado ou o muro com fiação irregular está energizado.

"A população fica refém porque tem que ir trabalhar, tem que botar o pé na lama e na água e não sabe se ali tem um poste ou um muro com ligação irregular", resume Jeydson Lopes. "Apesar de a frequência dos acidentes ter caído de forma geral, os eventos que estão ocorrendo, em média, são mais graves ou letais."

O que falta para zerar: cultura, lei e infraestrutura

A Abradee afirma que "só vai ficar satisfeita quando tiver zero acidente". Mas a meta é distante. Para chegar lá, seriam necessárias três mudanças estruturais que vão além de campanhas de conscientização:

Primeiro, a fiscalização das obras informais precisa ser efetiva. A construção civil responde por um terço dos acidentes, e a grande maioria ocorre em pequenas reformas e obras sem registro em órgãos competentes.

Segundo, as ligações clandestinas precisam ser combatidas como crime de segurança pública, não apenas como furto de energia. A letalidade de 50% nesse tipo de ocorrência transforma o "gato" em arma letal.

Terceiro, a adaptação da infraestrutura elétrica às mudanças climáticas é urgente. Fios aéreos em áreas de alagamento, postes enferrujados, transformadores expostos — tudo isso precisa ser reavaliado em um país que enfrenta cada vez mais eventos extremos.

"Tem a parte das distribuidoras, a das empresas, a dos profissionais envolvidos e a da própria população. Porque, para a gente zerar esse número, é preciso mudar uma cultura, tem que levar informação. Só com a adesão de toda a sociedade é que a gente vai conseguir reduzir esses números", afirma Cristina Garambone.

A questão é que, enquanto a sociedade discute tarifa de energia, privatização de distribuidoras e transição energética, 252 famílias enteraram alguém em 2025 por um acidente que, na maioria das vezes, poderia ter sido evitado com um cuidado simples: não encostar a escada no fio, não passar por baixo da rede com o guindaste, não fazer o "gato" na caixa de luz. O Agosto Vermelho acende o alerta. Mas será que alguém está olhando?


Versão em áudio disponível no topo do post.

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