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BRICS amplia atuação além da economia e vira rede de cooperação

Bloco de 11 países consolida projetos em saúde, educação, indústria e inteligência artificial, enquanto sofre pressão tarifária dos Estados Unidos sob Trump.

BRICS amplia atuação além da economia e vira rede de cooperação
📷 Divulgação
📋 Em resumo
  • 17ª Cúpula do BRICS, no Rio de Janeiro, gerou mais de 200 novos mecanismos de cooperação em áreas que vão da saúde ao clima
  • Novo Banco de Desenvolvimento tem capital integralizado de US$ 52,7 bilhões e já aprovou 96 projetos, somando US$ 32,8 bilhões em financiamentos
  • Ministros de Saúde, Educação e Agricultura assinaram planos de ação específicos entre 2025 e 2026, incluindo parceria para eliminar doenças socialmente determinadas
  • Governo Trump ameaça tarifas de até 100% contra países que avancem em alternativas ao dólar, enquanto Índia assume a presidência do grupo em 2026
  • Por que isso importa: o BRICS deixou de ser apenas um fórum de reivindicação econômica e passou a operar como plataforma concreta de políticas públicas, disputando influência normativa com instituições ocidentais tradicionais
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O BRICS deixou de ser sinônimo apenas de reforma financeira internacional. Depois de mais de uma década concentrado na criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e no debate sobre moedas locais, o bloco — hoje formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã — grupo formado por 11 países membros construiu, nos últimos dois anos, uma rede de cooperação que cobre saúde, educação, indústria, agricultura e inteligência artificial.

A mudança de escala ficou explícita na 17ª Cúpula de Líderes, realizada em julho de 2025 no Rio de Janeiro. Os líderes das 11 maiores economias emergentes do mundo assinaram a Declaração Conjunta da 17ª Cúpula do BRICS, sob o lema "Fortalecendo a Cooperação do Sul Global para uma Governança mais Inclusiva e Sustentável", selando compromisso com o multilateralismo e a busca por uma ordem global mais equitativa. O documento consolidou resultados de mais de 200 reuniões e cerca de 200 novos mecanismos de cooperação criados ou fortalecidos em áreas como combate à fome, mudanças climáticas e tecnologias.

Foi a primeira cúpula em que se reuniram 11 membros titulares e 10 países parceiros, além de oito países convidados e representantes de organizações como ONU, OMC, OMS e do próprio NDB. Líderes da Índia, África do Sul, Egito, Indonésia, Emirados Árabes Unidos e Etiópia foram recebidos por Lula no Rio, enquanto os presidentes da China, Rússia e Irã — Xi Jinping, Vladimir Putin e Masoud Pezeshkian — não compareceram, mas enviaram representantes.

O banco que deu origem ao bloco financeiro

Criado em 2014 na Cúpula de Fortaleza, o NDB é um banco multilateral de desenvolvimento criado com o objetivo de mobilizar recursos para financiar projetos de infraestrutura e de desenvolvimento sustentável em países em desenvolvimento. Os números atuais mostram a escala da operação: o capital integralizado é de US$ 52,7 bilhões, há 96 projetos aprovados até o momento, com total de financiamento de US$ 32,8 bilhões, e o banco está sediado em Xangai, com escritórios em São Paulo e Gujarat, na Índia. O capital autorizado total chega a US$ 100 bilhões (NDB).

A instituição é presidida por Dilma Rousseff desde 2023. O NDB é presidido, desde 2023, por Dilma Rousseff, cujo mandato se encerraria em julho de 2025, com a extensão do período sendo discutida. Sob sua gestão, o banco intensificou a atuação no Brasil: captou uma nova rodada de investimentos de US$ 500 milhões para o financiamento de projetos do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, e já foi responsável por US$ 7 bilhões em financiamentos para o país desde 2015.

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O crescimento não é recente. Estudo do Ipea mostra que o NDB teve crescimento notável de sua carteira de projetos, superando US$ 29 bilhões em financiamentos em 2021 — um aumento de dezoito vezes em relação a 2016. Para o ciclo 2022-2026, o banco fixou metas específicas: 30% do financiamento em moedas locais, 40% de representação feminina na equipe e 40% do financiamento total dirigido à adaptação e mitigação das mudanças climáticas, incluindo transição energética. Apesar disso, o próprio banco enfrenta críticas recorrentes de organizações da sociedade civil por falta de transparência e dificuldade de acesso a informações sobre projetos aprovados, além da ausência de mecanismo independente de auditoria.

Saúde: parceria contra doenças ligadas à desigualdade

Em agosto de 2025, no Palácio do Itamaraty, os ministros de Saúde do BRICS aprovaram a declaração final do agrupamento sobre o tema, com destaque para a recomendação de criar uma Parceria para Eliminar Doenças Socialmente Determinadas entre os onze países-membros, a ser oficializada na Cúpula de Líderes no Rio de Janeiro. O ministro brasileiro Alexandre Padilha apresentou os eixos da estratégia: superação de desigualdades culturais para acesso pleno à saúde e fortalecimento das capacidades em ciência, tecnologia e produção de saúde, com destaque para a consolidação do Centro de Produção e Desenvolvimento de Vacinas do BRICS.

"O BRICS propôs uma agenda sanitária que busca articular cooperação técnica com o compromisso político de equidade, saúde e desenvolvimento de nossas capacidades", afirmou o ministro nigeriano da Saúde, Salako Iziaq Adekunle Adeboye.

A cooperação técnica já avança em terreno concreto. A parceria abrange iniciativas focadas na pesquisa de vacinas, na produção de radiofármacos, na aplicação de inteligência artificial na medicina e na criação de novos fármacos. Analistas apontam que essa atuação coordenada pode diminuir a dependência de fornecedores externos e aumentar a capacidade inovadora das nações envolvidas.

Educação técnica e agricultura ganham planos de longo prazo

Em junho de 2025, os ministros da Educação assinaram a carta da Aliança de Cooperação em Educação Profissional e Tecnológica do BRICS (BRICS-TCA). A reunião ministerial marcou a formalização da carta, proposta iniciada na China em 2022 e concluída em 2025. O acordo prevê assegurar a participação equitativa de mulheres, populações rurais, pessoas com deficiência, migrantes, grupos sub-representados e comunidades locais nas atividades de formação profissional, além de impulsionar a conexão entre o sistema educacional e as competências específicas exigidas pelo mercado de trabalho.

Na agricultura, a presidência brasileira aprovou, em 2025, documento com foco em segurança alimentar, sustentabilidade e facilitação do comércio agrícola, trazendo diretrizes para o período de 2025 a 2028 e substituindo o antigo Plano de Ação 2021-2024. Já sob presidência indiana, o grupo debateu especificamente sistemas alimentares aquáticos: foi adotado o Plano de Ação 2025-2028 para cooperação agrícola, com capítulo dedicado aos sistemas alimentares aquáticos, proposto pelo Ministério da Pesca e Aquicultura brasileiro. No campo bilateral, Brasil e Rússia também avançam: a Rússia foi a principal fornecedora de fertilizantes para o Brasil no último ano, com aumento de 11% nas exportações, e os países planejam cooperação em seleção genética e produção de sementes resistentes a pragas, além de estágios para especialistas e intercâmbio acadêmico em estudos agroquímicos, solos, pecuária e avicultura.

Indústria, IA e a corrida por infraestrutura própria

Desde 2021, o bloco conta com a Parceria para a Nova Revolução Industrial (PartNIR), por meio da qual são desenvolvidas iniciativas para a transformação digital da indústria, o fomento à bioindústria e o apoio à maior participação de pequenas e médias empresas no comércio internacional. A presidência brasileira dedicou atenção especial à Estratégia 2030 para a Parceria Econômica do BRICS (Itamaraty).

Na Cúpula de Kazan, em 2024, o grupo formalizou um quadro de cooperação em inteligência artificial. Foi adotado o quadro de cooperação do BRICS no campo da IA, que facilitou o lançamento de projetos do centro de pesquisa e inovação em IA do bloco, voltados a processamento de idiomas dos países-membros, agricultura inteligente e previsão de mudanças climáticas. Parte da estratégia inclui reduzir dependência de infraestrutura ocidental: está prevista a criação de uma rede comum de armazenamento de dados e computação de alto desempenho, que permitirá aos países do BRICS executar modelos de IA sem depender de servidores dos EUA ou da União Europeia. O NDB entrou nesse esforço financiando infraestrutura tecnológica, com um fundo dedicado à soberania digital lançado em 2025 (NDB).

Trump e a ameaça tarifária contra a "desdolarização"

A dimensão econômica do BRICS segue sendo o principal ponto de atrito com Washington. Em novembro de 2024, ainda como presidente eleito, Donald Trump publicou na rede Truth Social a primeira ameaça direta: "vamos exigir um compromisso desses países, aparentemente hostis, de que eles não criarão uma nova moeda nem apoiarão qualquer outra moeda para substituir o poderoso dólar americano, caso contrário, eles enfrentarão 100% de tarifas."

Em fevereiro de 2025, o presidente americano reiterou a ameaça já como chefe de Estado, ao assinar memorando sobre tarifas recíprocas. Trump chegou a afirmar que a maioria dos países-membros já não desejava mais discutir uma moeda comum, e a Índia, membro fundador do bloco, já havia rejeitado publicamente a ideia de moeda compartilhada. Em julho de 2025, a pressão ganhou novo capítulo: Trump anunciou que qualquer país alinhado às "políticas anti-americanas" do bloco enfrentaria tarifa adicional de 10%, sem exceções.

Especialistas ouvidos pela imprensa brasileira avaliam que a pressão americana não deve reverter a tendência. A discussão sobre recurso a moedas locais e arranjos monetários contingentes é antiga no BRICS e visa sobretudo reduzir custos de transação; a redução do uso do dólar como moeda de troca está em curso lentamente, mas não se vislumbra uma "desdolarização", e sim substituição parcial por outras moedas, como o euro, e por moedas digitais de bancos centrais. O comunicado final dos ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais do grupo, divulgado no Rio, indicou progresso na identificação de caminhos para a "interoperabilidade" dos sistemas de pagamentos dos países-membros e no estímulo a transações em moedas locais, com redução de custos operacionais.

"Você não ter que passar pelo circuito do dólar em uma situação de crise da moeda americana te permite proteger a sua economia", resumiu um dos economistas consultados pela Agência Brasil sobre a lógica por trás da busca por alternativas de pagamento.

Índia assume a presidência em meio a agenda dupla

Em 2026, a presidência rotativa do grupo passou para a Índia, que também sedia a Cúpula do QUAD no mesmo ano — coincidência que analistas de política externa consideram estratégica para Nova Délhi. Na presidência de 2026, a Índia sedia a Cúpula do BRICS e uma extensa agenda de reuniões setoriais, que abrangem comércio, conectividade, finanças, contraterrorismo, cultura, tecnologia, educação, pesquisa e saúde. A coincidência com a Cúpula do QUAD oferece a Nova Délhi a oportunidade de atuar como mediadora, reduzindo percepções de rivalidade entre diferentes polos de poder.

Segundo o primeiro-ministro Narendra Modi, citado por analistas do setor, o grupo representa a construção de "Resiliência e Inovação para Cooperação e Sustentabilidade", tendo a condenação ao terrorismo como princípio fundamental. Até dezembro de 2025, ainda sob presidência brasileira, o calendário incluiu o Encontro Anual da Rede de Think Tanks para Finanças, a Reunião do Comitê Diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação, o Concurso de Inovação Industrial, o 10º Fórum de Jovens Cientistas do BRICS, o 8º Prêmio Jovem Inovador do BRICS e a Reunião Técnica de Especialistas em Medicina Natural.

O quadro que se desenha é o de um bloco que multiplicou seus canais de atuação sem abandonar o núcleo financeiro que o originou. Resta saber se essa dispersão temática — de vacinas a modelos de inteligência artificial, passando por sementes resistentes a pragas — vai se traduzir em poder de barganha real diante de Washington, ou se permanecerá como rede de cooperação técnica paralela à disputa geopolítica pelo controle do sistema monetário internacional.

Versão em áudio disponível no topo do post.

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