Painel Econômico

BTG acumula mais de R$ 1 bi em créditos da Ambipar em meio à recuperação judicial

Banco amplia exposição a títulos da gestora ambiental e pode influenciar desfecho do plano de reestruturação com passivo superior a R$ 10 bilhões

BTG acumula mais de R$ 1 bi em créditos da Ambipar em meio à recuperação judicial
📷 Paulo Renato Nepomuceno / Agência Globo
📋 Em resumo
  • BTG Pactual adquiriu mais de R$ 1 bilhão em bonds e debêntures da Ambipar no mercado secundário
  • Ambipar pede recuperação judicial com passivo declarado de R$ 10,5 bilhões, incluindo US$ 1,065 bilhão em títulos externos
  • Concentração de créditos em um único agente pode alterar dinâmica de votação do plano de reestruturação
  • Crise foi deflagrada por chamadas de margem do Deutsche Bank em contratos de swap vinculados a green bonds
  • Por que isso importa: A movimentação do BTG pode definir o ritmo e os termos da reestruturação de uma das maiores empresas de serviços ambientais do país, com reflexos para o mercado de crédito privado e para investidores de COEs.
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O BTG Pactual (banco de investimentos) ampliou significativamente sua exposição à dívida da Ambipar (empresa de gestão ambiental) ao adquirir mais de R$ 1 bilhão em instrumentos de crédito, incluindo bonds emitidos no exterior e debêntures locais, em movimento que pode influenciar diretamente o desfecho do processo de recuperação judicial da companhia. A estratégia ocorre em um momento crítico: a Ambipar ingressou com pedido de recuperação judicial em outubro de 2025, declarando passivo total de R$ 10,5 bilhões, em meio a uma crise de confiança deflagrada por suspeitas de irregularidades em operações financeiras. "A concentração de créditos nas mãos de um único agente pode alterar a dinâmica de aprovação do plano de recuperação, já que o peso do voto dos credores é determinante no processo."

Como o BTG construiu sua posição na dívida da Ambipar

O banco tem abordado investidores estrangeiros e instituições financeiras para adquirir posições adicionais em títulos da Ambipar, com relatos indicando propostas em valores mais elevados, refletindo maior interesse na consolidação desses créditos. A operação inclui a compra de bonds internacionais — que somam cerca de US$ 1,065 bilhão (aproximadamente R$ 5,6 bilhões na cotação atual) — e debêntures locais, que totalizam cerca de R$ 3 bilhões. A Ambipar também possui dívidas bancárias na ordem de R$ 2 bilhões e compromissos com fornecedores de R$ 230 milhões. Entre os bancos credores, destacam-se Santander (R$ 663 milhões), Banco do Brasil (R$ 352 milhões), Banco do Nordeste (R$ 207 milhões) e Deutsche Bank (R$ 188 milhões). A entrada do BTG como grande detentor de créditos modifica o equilíbrio de forças nas negociações com credores.

O estopim da crise: swaps, margens e o papel do Deutsche Bank

A crise que levou a Ambipar à recuperação judicial teve como gatilho uma chamada de margem feita pelo Deutsche Bank (banco alemão) referente a contratos de swap vinculados a emissões de green bonds com vencimentos em 2031 e 2033. Esses derivativos exigiam depósitos de garantia em caso de variação cambial desfavorável. Em abril de 2025, o Deutsche propôs um aditivo aos contratos, oferecendo reduzir custos e liberar um crédito de US$ 35 milhões em troca da inclusão de uma cláusula PIK (payment in kind), que permitiria ao banco quitar obrigações utilizando os próprios bonds da Ambipar. Em setembro, porém, o banco passou a enviar chamadas de margem com valores elevados, argumentando que se referiam ao mark-to-market do PIK — uma interpretação contestada pela Ambipar.A empresa chegou a realizar depósitos iniciais, mas suspendeu os pagamentos após questionamentos internos. Para honrar as primeiras cobranças, a Ambipar sacou recursos investidos no Santander, o que acendeu um alerta no banco e desencadeou uma revisão mais profunda da liquidez da companhia.

O que os números revelam sobre o passivo da Ambipar

A estrutura de dívida da Ambipar é complexa e fragmentada entre diferentes jurisdições e tipos de credores:

  • Bonds internacionais: US$ 1,065 bilhão (~R$ 5,6 bilhões)
  • Debêntures locais: ~R$ 3 bilhões
  • Dívidas bancárias: ~R$ 2 bilhões
  • Fornecedores: ~R$ 230 milhões

A empresa também opera nos Estados Unidos por meio da Ambipar Emergency Response, que pediu proteção sob o Chapter 11 da lei de falências americana, mecanismo equivalente à recuperação judicial brasileira. A estratégia de reestruturação dupla visa alinhar processos em diferentes jurisdições, mas também introduz complexidade adicional às negociações."Enquanto isso não acontece, a solução era sempre ir rolando essas dívidas. Mas na hora que você tem uma crise de liquidez e de confiança e não tem mais como rolar, a coisa colapsa."

O impacto nos investidores de COEs e a reação do mercado

Paralelamente à crise de dívida corporativa, a Ambipar esteve no centro de uma polêmica envolvendo Certificados de Operações Estruturadas (COEs) distribuídos por XP Investimentos e BTG Pactual. Investidores que aplicaram nesses produtos vinculados a títulos de dívida da Ambipar registraram perdas de até 93% do valor investido, após a liquidação antecipada dos certificados em decorrência da deterioração creditícia da empresa. A B3 retirou as ações da Ambipar de nove índices da bolsa em outubro de 2025, revogando também o selo de ações verdes, em meio a preocupações sobre governança e sustentabilidade financeira da companhia. As ações, que já chegaram a valer mais de R$ 40 bilhões em valor de mercado, hoje negociam em torno de R$ 0,58, representando uma desvalorização superior a 96%.

O que está em jogo na votação do plano de recuperação

A concentração de créditos nas mãos do BTG pode facilitar a formação da maioria necessária para aprovar o plano de reestruturação da Ambipar, uma vez que o peso dos votos é proporcional ao valor dos créditos detidos por cada credor. No entanto, essa dinâmica também gera questionamentos sobre eventuais conflitos de interesse e sobre a capacidade de pequenos credores influenciarem o processo. A Ambipar contratou a Alvarez & Marsal e a BR Partners como assessores financeiros, além de escritórios de advocacia especializados para conduzir o processo judicial. Do lado dos credores, os bondholders contam com assessoria da Houlihan Lokey e do escritório Padis Mattar Advogados, enquanto bancos como Deutsche Bank, Bradesco e Santander contam com seus próprios times jurídicos.

Cenários possíveis e o que observar nos próximos meses

O desfecho das negociações com credores, especialmente os detentores de títulos no exterior, é considerado um dos principais fatores para a viabilização do plano de recuperação da Ambipar. Um acordo com esse grupo poderia estabilizar a estrutura financeira da empresa e permitir a continuidade das operações, essenciais para contratos de resposta a emergências ambientais e gestão de resíduos.Por outro lado, a falta de consenso pode prolongar o processo judicial, aumentar custos administrativos e reduzir a recuperação efetiva para credores. A experiência de outras recuperações judiciais de grande porte no Brasil sugere que a velocidade e a transparência das negociações são determinantes para o sucesso da reestruturação.Para o mercado de crédito privado, o caso Ambipar serve como alerta sobre a importância de due diligence robusta em operações estruturadas e sobre os riscos de concentração em emissores com governança questionável. Para investidores de varejo, reforça a necessidade de compreender a estrutura de produtos complexos como COEs antes de alocar recursos.

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