Camargo x Leonel: a reunião em que secretário e deputado se enfrentaram
Deputado alerta que rota bioceânica pode virar "corredor do narcotráfico"; secretário rebate com afirmação de que parlamentar foi convidado e não compareceu. Áudios revelam tensão em reunião técnico
📋 Em resumo ▾
- Deputado Rodrigo Camargo faz alerta duro sobre segurança na rota bioceânica e critica ausência de planejamento
- Secretário Augusto Leonel rebate afirmando que parlamentar foi convidado para reuniões e não compareceu
- Camargo: "Nenhum diretor de polícia foi convidado"; Leonel: "Convidamos o senhor, o senhor não foi"
- Deputado cita que cocaína apreendida em Portugal saiu de Alto Paraíso (RO) e alerta para atuação do PCC
- Por que isso importa: o embate expõe lacunas de segurança em projeto bilionário de integração sul-americana
O áudio vazou. E o que era para ser uma reunião técnica sobre a rota bioceânica em Porto Velho virou um embate direto, sem filtros, entre o deputado estadual Rodrigo Camargo e o secretário de Integração, Augusto Leonel. As gravações revelam um confronto de versões, tom elevado e acusações que expõem o abismo entre o discurso oficial e os bastidores da integração regional.
De um lado, um delegado de polícia com 15 anos de carreira alertando que o corredor comercial pode se transformar em "grande corredor do narcotráfico". Do outro, um secretário de Estado afirmando, sem meias palavras, que o deputado foi convidado e não compareceu — e que, portanto, "está enganado".
O alerta de Camargo: "Dinheiro vale uma vida?"
O deputado Rodrigo Camargo começou com tom firme. Identificou-se como delegado, citou os 1.457 quilômetros de fronteira com a Bolívia e foi direto ao ponto: a ausência de planejamento em segurança pública num projeto dessa envergadura.
"Eu vejo falar em ponte binacional. Eu vejo falar em corredor transoceânico. Mas não vejo falar em nada de segurança pública. Que vai influenciar o seu comércio, o seu negócio, a sua vida", afirmou Camargo.
O parlamentar citou dados concretos: a cocaína apreendida recentemente em Portugal — uma tonelada — saiu de Alto Paraíso, em Rondônia. Estudos químicos comprovaram que a droga veio de El Chapare, na Bolívia. E fez o alerta: o PCC já opera o esquema, aproveitando a logística de escoamento de grãos, minérios e madeira.
"Gente, dinheiro vale uma vida? Para mim, não. Ninguém tem a maturidade do governo, tanto federal quanto estadual, de se debruçar e chamar os principais atores", disparou.
Camargo foi além: afirmou que oficiou o Ministério da Justiça, o governo do Estado, enviou três ofícios e nunca obteve resposta. Questionou se o diretor da Polícia Civil, Dr. Geremias, e o comandante da Polícia Militar haviam sido convidados para as reuniões. A resposta que trouxe: "Não".
"Rondônia faz 10 anos que não tem concurso para a polícia militar. Faz mais de 11 anos que não tem para a polícia civil. Desculpem, me corrijam aqui publicamente: em algum momento falaram de segurança pública qualquer? Alfândega? Ok, tributação. Glória a Deus", ironizou.
Ouça os áudios:
A reação de Leonel: "O senhor está enganado"
A resposta do secretário Augusto Leonel veio dura. Ele afirmou que existe, sim, uma câmara de segurança dentro do acordo — parte do programa Rotas da Integração, que envolve Brasil, Bolívia, Peru, Chile, Argentina e Uruguai.
Mas foi na réplica sobre os convites que o clima esquentou. Leonel garantiu que Rodrigo Camargo foi convidado para as reuniões das câmaras setoriais, inclusive para um evento em fevereiro.
"Convidamos o senhor, o senhor não foi no evento", afirmou Leonel.
Camargo tentou contra-argumentar, mas o secretário foi categórico:
"Não, o senhor está enganado, o senhor não foi. Chegou [o convite], eu tenho certeza."
Leonel disse que poderia comprovar o envio dos ofícios e que, dentro do módulo bioceânico, foi estabelecida uma câmara específica para segurança, envolvendo Polícia Federal, Receita Federal e outros parceiros. Reconheceu que a preocupação do deputado é "justa" e "real", mas garantiu que o tema está sendo tratado em conversas constantes com o Ministério do Planejamento.
"Nessa linha, meu irmão, o que a gente puder fazer para escutar, estar junto, pode acertar que o governo do Estado vai trabalhar", disse Leonel, num tom que tentava apaziguar, mas mantendo a firmeza.
Os bastidores do confronto
O que os áudios revelam vai além do embate pessoal. Eles expõem uma fratura na condução do projeto da rota bioceânica:
- A ausência das forças de segurança: Camargo afirma que nem o diretor da PC nem o comandante da PM foram convidados. Leonel não nega diretamente — diz que a PF e a Receita estão incluídas, mas não menciona as polícias estaduais.
- A guerra de versões sobre os convites: Leonel jura que Camargo foi convidado e não foi. Camargo diz que "nunca recebeu qualquer convite". Quem está dizendo a verdade? Só os comprovantes de protocolo podem resolver.
- O vácuo de informações: O deputado afirma que enviou três ofícios e nunca foi respondido. Se verdade, isso revela um problema grave de comunicação entre Legislativo e Executivo.
- A realidade do narcotráfico: A apreensão de uma tonelada de cocaína em Portugal, com origem em Alto Paraíso (RO), é um dado concreto que dá peso ao alerta de Camargo. Não é especulação — é fato.
O que está em jogo
A rota bioceânica não é um projeto qualquer. É um acordo de integração sul-americana que envolve seis países e pode transformar Rondônia num hub logístico entre o Brasil e o Pacífico. Mas os áudios revelam que, nos bastidores, há tensões não resolvidas.
De um lado, a visão desenvolvimentista do governo: priorizar infraestrutura, equalização legislativa e destravar aduanas. Do outro, o alerta de quem atua na segurança pública: sem planejamento, o corredor comercial vira rota do crime organizado.
"É um bom projeto, maravilhoso, mas a gente corre um sério risco de se tornar do principal corredor comercial para um grande corredor do narcotráfico", advertiu Camargo.
Leonel tentou tranquilizar, afirmando que as câmaras setoriais de segurança vão acontecer e que o governo está "fazendo por etapas". Mas a pergunta que fica é: as etapas estão na velocidade que a realidade exige?
A pergunta que ninguém quer responder
Os áudios do embate entre Rodrigo Camargo e Augusto Leonel levantam questões incômodas:
- Por que os diretores das polícias estaduais não foram convidados para as reuniões?
- Os ofícios foram realmente enviados ao gabinete de Camargo? Se sim, por que ele diz que não recebeu?
- Por que o Ministério da Justiça e o governo do Estado não responderam aos ofícios do deputado?
- Quando Rondônia terá concursos para a PM e a PC, que estão defasados há mais de uma década?
O secretário Leonel afirmou que "independente de política, esse assunto tem que unir". Mas, quando um projeto dessa magnitude é discutido sem a presença dos principais atores da segurança pública, a pergunta que fica é: quem está realmente no comando da rota bioceânica?
Versão em áudio disponível no topo do post.