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Casas Bahia tem prejuízo de R$ 10,1 bi e auditoria duvida da continuidade

Rombo no 2º trimestre é 18 vezes maior que o de 2025; EY se absteve de opinar sobre o balanço e empresa já cogita nova recuperação, extrajudicial ou judicial.

Casas Bahia tem prejuízo de R$ 10,1 bi e auditoria duvida da continuidade
📷 Divulgação
📋 Em resumo
  • Grupo Casas Bahia registrou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no 2T26, ante R$ 555 milhões um ano antes; no semestre, a perda soma R$ 11,2 bilhões.
  • Do rombo, R$ 9,1 bilhões são efeitos contábeis não recorrentes da Fase 2 do Plano de Transformação: baixa de R$ 971 milhões em ágio, R$ 1,8 bilhão em contingências contratuais e R$ 712 milhões em reestruturação e imobilizado.
  • A auditoria Ernst & Young se absteve de opinar sobre o balanço, citando patrimônio líquido negativo em R$ 8,27 bilhões e dúvida relevante sobre a continuidade operacional da companhia.
  • Nos últimos 12 meses a rede fechou 298 lojas e demitiu entre 1,9 mil e 3 mil funcionários, e a empresa avalia nova recuperação extrajudicial ou pedido de recuperação judicial.
  • Por que isso importa: é o segundo abalo financeiro da varejista em três anos e testa se a Mapa Capital, controladora desde 2025, consegue evitar que uma das marcas mais tradicionais do varejo brasileiro vá à recuperação judicial.
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O Grupo Casas Bahia divulgou na madrugada deste domingo (16) um balanço que reacende o alerta sobre sua sobrevivência financeira: prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026, contra R$ 555 milhões no mesmo período de 2025. O valor é 18 vezes maior do que o saldo negativo apresentado no mesmo período do ano anterior, segundo demonstrações financeiras divulgadas na madrugada de domingo. No acumulado do primeiro semestre, as perdas somam R$ 11,2 bilhões.

A divulgação já vinha atrasada. Prevista inicialmente para sexta-feira (14), com o Valor Econômico reportando que sairia apenas na segunda (17), a demonstração acabou publicada por volta das 2h24 de domingo na página da Comissão de Valores Mobiliários — atraso que implica multa ordinária. A companhia marcou teleconferência com analistas para esta segunda-feira (17).

O que explica o rombo de R$ 9,1 bilhões

Segundo o documento enviado ao mercado, o resultado negativo decorre de R$ 9,1 bilhões em efeitos contábeis não recorrentes ligados à Fase 2 do Plano de Transformação, sem impacto sobre o caixa da companhia no trimestre, e três fatores concentram a maior parte desse impacto. O primeiro é uma baixa de R$ 971 milhões em ágio, motivada pela revisão das projeções de rentabilidade futura. O segundo soma R$ 1,8 bilhão em contingências de revisões contratuais, e o terceiro reúne R$ 502 milhões em reestruturação e R$ 210 milhões em imobilizado, ligados à reorganização de pessoal e ao fechamento de lojas. Há ainda um quarto efeito, de maior magnitude isolada: uma baixa de R$ 5,7 bilhões em ativos fiscais diferidos, item que a varejista credita ao mesmo pacote de ajustes contábeis não recorrentes.

Descontados todos os efeitos extraordinários, a operação segue no vermelho. Mesmo excluídos esses fatores, o prejuízo ajustado ainda cresceu, para R$ 978 milhões no trimestre, ante R$ 555 milhões um ano antesum avanço de 76% na comparação anual. É o sinal de que o problema da Casas Bahia não é apenas contábil.

O ajuste patrimonial de R$ 9,1 bilhões não mexe no caixa da empresa neste trimestre — mas o prejuízo operacional ajustado, de R$ 978 milhões, mostra que a operação segue deficitária mesmo sem os efeitos extraordinários.

Segunda reestruturação drástica em três anos

O trimestre coincide com a maior onda de fechamentos da história recente da rede. Nos últimos doze meses, foram fechadas 298 lojas consideradas menos rentáveis, segundo a varejistao equivalente a quase 29% das unidades que a companhia mantinha ao fim de março. Ao fim de 2025, a companhia tinha 1.042 unidades, contra 1.064 um ano antes e 1.078 no fim de 2023. O corte de lojas veio acompanhado de demissões em massa: cerca de 600 funcionários foram desligados numa quinta-feira e entre 1,3 mil e 1,4 mil no dia seguinte, com uma terceira fonte apontando que o total de cortes pode chegar a 3 mil.

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A condução das demissões já provoca reação de sindicatos: em Osasco e região, o Sindicato dos Empregados no Comércio (Secor) manifestou preocupação com a forma como os desligamentos estão sendo conduzidos, cobrando garantias de direitos trabalhistas.

O documento enviado ao mercado aponta que a base de lojas remanescentes deve registrar aumento de 1,4 ponto percentual na margem de contribuição média, além de crescimento de 5 a 6 pontos percentuais na participação do crediário nas vendas, e cita entre as demais iniciativas da Fase 2 a redução de capital investido, o corte de custos estruturais e a venda de participações em ativos.

Auditoria se recusa a validar o balanço

O aspecto mais grave do documento não é o número do prejuízo, mas o parecer que o acompanha. As demonstrações vieram acompanhadas de um relatório em que a auditoria Ernst & Young (EY) se absteve de emitir conclusão sobre o balanço, diante de incertezas relevantes sobre a continuidade operacional da companhia. Segundo a EY, fatores como capital circulante líquido negativo e patrimônio líquido negativo em R$ 8,27 bilhões apontam para dúvida significativa sobre a capacidade da empresa de manter suas operações. A auditoria afirmou ainda que não conseguiu realizar procedimentos de revisão suficientes para fundamentar uma conclusão sobre as informações financeiras. Pelos números do próprio balanço, o patrimônio líquido da companhia passou a negativo em R$ 8,1 bilhões ao final de junho, reflexo direto do prejuízo acumulado no período.

Dívida cai, mas fôlego de caixa é curto

Há um contraponto no balanço: a alavancagem melhorou. A relação entre dívida líquida e Ebitda ajustado dos últimos doze meses ficou em 0,5 vez no segundo trimestre, patamar estável frente ao trimestre anterior e bem abaixo dos 2,2 vezes registrados um ano antes, com a dívida líquida recuando R$ 3,8 bilhões na comparação anual e R$ 293 milhões frente ao primeiro trimestre. A receita líquida somou R$ 7,0 bilhões no trimestre, alta de 1,6% na comparação anual. Mas o próprio balanço, segundo a companhia, credita a piora à conjuntura. O resultado do trimestre está ligado ao avanço da segunda fase do Plano de Transformação, que prioriza geração de caixa e rentabilidade em meio a um cenário macroeconômico considerado mais desafiador pela companhia.

De volta ao tribunal de recuperação?

O histórico recente explica a apreensão do mercado. A própria Casas Bahia passou por uma recuperação extrajudicial em junho de 2024, renegociando e alongando dívidas de R$ 4,1 bilhões, com o prazo médio da dívida alongado de 22 para 72 meses. Meses depois, a estrutura societária mudou por completo: em agosto de 2025 a gestora Mapa Capital tornou-se controladora, com 85,5% da empresa, ao comprar as dívidas do Bradesco e do Banco do Brasil e convertê-las em ações. Com a diluição, Michael Klein, filho do fundador Samuel Klein, ficou com participação de 3,68%. Agora, a empresa avalia alternativas para reorganizar sua estrutura de capital, entre elas uma nova recuperação extrajudicial ou uma recuperação judicial.

A consultoria Force Partners, em análise anterior ao balanço, já apontava esse caminho. O corte de 28,6% da rede cria passivo que a extrajudicial de 2024 não alcança, e a carência daquele plano se esgota em 2026 — ou seja, fornecedores, locadores e passivos trabalhistas gerados pelo fechamento das 298 lojas ficam de fora da proteção jurídica obtida dois anos atrás.

O mercado já vinha precificando a deterioração. O papel BHIA3 acumula queda neste ano de 2026, tendo iniciado o período cotado perto de R$ 3,10 e chegando à casa de R$ 0,65, variação de -77,85% em 12 meses, sem qualquer distribuição de dividendos no período. A companhia está avaliada em cerca de R$ 669 milhões na B3 — fração do que valia antes da crise atual.

A teleconferência de segunda-feira deve detalhar os custos da rescisão trabalhista das demissões recentes, a economia projetada com o fechamento das lojas e, sobretudo, se a empresa vai formalizar um novo pedido de recuperação — extrajudicial, mais rápido e negociado com credores, ou judicial, que impõe proteção mais ampla, mas também maior exposição pública e regulatória. O desfecho definirá se o Plano de Transformação iniciado em 2023 chega à sua terceira fase como reestruturação bem-sucedida ou como antessala de um processo mais grave nos tribunais.

Versão em áudio disponível no topo do post.

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