Caso PC Siqueira: perícia particular aponta assassinato e contesta laudo oficial
Laudo encomendado pela família indica estrangulamento com fio de fones; Ministério Público pede nova análise e Justiça mantém inquérito aberto dois anos após morte do influenciador
📋 Em resumo ▾
- Perícia particular concluída em março de 2026 indica que PC Siqueira foi estrangulado com fio de fones de ouvido, contestando laudos oficiais de suicídio
- Ministério Público de São Paulo apontou inconsistências em depoimentos e laudos, reabrindo linhas de apuração que incluem homicídio com simulação
- Nova análise pericial oficial comparará o fio apreendido com fotografias do corpo, já que a exumação não é mais possível
- Caso segue sob sigilo na Polícia Civil, sem suspeitos formalmente identificados
- Por que isso importa: A divergência entre perícias reacende debate sobre rigor em investigações de mortes de figuras públicas e expõe lacunas em processos que dependem exclusivamente de evidências técnicas
A morte do influenciador digital Paulo Cezar Goulart Siqueira, o PC Siqueira (37 anos), encontrada em 27 de dezembro de 2023 em seu apartamento na Zona Sul de São Paulo, ganhou novo capítulo com a conclusão de uma perícia particular encomendada pela família. O documento, finalizado em março de 2026, contesta os laudos oficiais do Instituto Médico Legal (IML) e do Instituto de Criminalística (IC), da Polícia Técnico-Científica, que em 2025 concluíram pela hipótese de suicídio por enforcamento.
"A asfixia foi causada por um fio fino, compatível com o fio preto de fones de ouvido encontrado no local", afirma o laudo particular assinado por Francisco João Aparício La Regina, ex-perito da Polícia Técnico-Científica.
O Ministério Público de São Paulo determinou que a Polícia Civil encaminhe o fio dos fones de ouvido — recolhido posteriormente pelos advogados da família, Caio Muniz e Geraldo Bezerra da Silva Filho — para nova análise comparativa pelos peritos oficiais. Como o óbito ocorreu há mais de dois anos, a exumação do corpo não será possível; a avaliação será feita com base em fotografias do cadáver registradas pela perícia na época.
O que dizem os laudos: duas versões para uma mesma morte
A versão oficial, consolidada pelos órgãos periciais paulistas em 2025, sustentou que PC Siqueira teria cometido suicídio por enforcamento utilizando uma cinta de catraca laranja, objeto apreendido inicialmente no local. Segundo essa narrativa, o influenciador teria se enforcado na frente de sua ex-namorada, Maria Luiza Lopes Watanabe, ouvida como testemunha.
A perícia particular, contudo, aponta incompatibilidades técnicas. As marcas no pescoço do influenciador seriam consistentes com um fio fino — como o de fones de ouvido — e incompatíveis com a largura da cinta de catraca. O documento não atribui autoria ao suposto crime, limitando-se a contestar a causa da morte.
- Laudo oficial (IML/IC, 2025): asfixia mecânica por enforcamento com cinta de catraca
- Perícia particular (março/2026): estrangulamento com fio fino, compatível com fones de ouvido
- Próximo passo: comparação técnica do fio apreendido com lesões registradas em fotos periciais
Por que o caso foi reaberto: inconsistências apontadas pelo MP
No fim de 2025, a Justiça de São Paulo acolheu pedido do Ministério Público e determinou a continuidade das investigações, impedindo o arquivamento definitivo do inquérito que a Polícia Civil havia encerrado como suicídio. A Promotoria identificou contradições em depoimentos e lacunas em laudos periciais, abrindo espaço para novas linhas de apuração.
Entre as hipóteses agora consideradas:
- Instigação ao suicídio
- Homicídio com simulação de suicídio
- Omissão de socorro
Pessoas próximas ao influenciador passaram a ser alvo de análise, embora, até o momento, não haja suspeitos formalmente identificados. O caso permanece em aberto na Polícia Civil, no Ministério Público e na Justiça, sob segredo de justiça.
Depoimentos e reconstituição: o que se sabe até agora
"Ela deixou o apartamento gritando no corredor e pedindo ajuda", registra boletim de ocorrência com relato de Maria Luiza Lopes Watanabe.
Ouvida como testemunha, a ex-namorada afirmou à Polícia Civil que tentou socorrer PC Siqueira, sem sucesso. Uma vizinha, também ouvida, relatou ter ouvido os gritos, encontrado o influenciador enforcado com a cinta laranja e acionado a Polícia Militar, chegando a cortar o objeto com uma faca na tentativa de resgate.
Em 20 de janeiro de 2026, a Polícia Técnico-Científica realizou reconstituição do caso no prédio onde o influenciador morava, no bairro Campo Belo. Maria Luiza não participou, alegando motivos pessoais. Dez dias depois, em 30 de janeiro, ela e a vizinha participaram de acareação por videoconferência, com divergência pontual sobre o horário do pedido de ajuda.
Amigos ouvidos pela polícia relataram que o relacionamento era marcado por discussões frequentes, algumas transmitidas ao vivo nas redes sociais. Um deles afirmou ter se envolvido com a ex-namorada após o término, o que teria provocado irritação no influenciador.
A posição da defesa e o sigilo que protege — e limita — a apuração
Em nota divulgada neste mês, a advogada da ex-namorada de PC Siqueira, Clarissa Azevedo, afirmou que a defesa acompanha a investigação com tranquilidade e confia no trabalho das autoridades. "O inquérito tramita sob sigilo e manifestações públicas devem ser feitas com cautela", destacou a profissional.
O sigilo, embora necessário para preservar a integridade da apuração, também limita o acesso da sociedade a informações que poderiam esclarecer pontos nevrálgicos do caso. Para o Painel Político, transparência e rigor técnico são pilares inseparáveis em investigações que envolvem mortes de figuras públicas — especialmente quando há divergência entre perícias oficiais e particulares.
O que vem pela frente: próximos passos e impactos institucionais
A nova análise pericial oficial, ainda em andamento, deverá comparar o fio dos fones de ouvido com as lesões registradas em fotografias do corpo. O resultado poderá confirmar, refutar ou deixar em aberto a divergência técnica que hoje sustenta a reabertura do caso.
Independentemente do desfecho, o episódio expõe desafios estruturais: a dependência exclusiva de evidências físicas em casos sem testemunhas diretas, a complexidade de reavaliar laudos após longo intervalo temporal e a pressão pública em investigações que envolvem personalidades com grande exposição midiática.Para a família de PC Siqueira, a perícia particular representa um esforço legítimo por esclarecimento. Para as instituições, o desafio é equilibrar celeridade, rigor técnico e transparência — sem ceder a pressões externas, mas também sem ignorar questionamentos fundamentados.
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