Chile entra em recessão técnica no 1º semestre de Kast no poder
PIB recua 0,2% no 2º trimestre e confirma dois trimestres seguidos de queda, enquanto liberação dos combustíveis derruba aprovação do presidente de extrema direita.
📋 Em resumo ▾
- PIB do Chile caiu 0,2% no 2º trimestre de 2026 ante igual período de 2025, ficando estável na comparação com o trimestre anterior (Banco Central do Chile)
- Com o resultado negativo do 1º trimestre (revisado de -0,5% para -0,3%), o país acumula dois trimestres seguidos de contração e entra em recessão técnica
- Mineração recuou 6,4% e puxou a queda, enquanto exportações caíram e a construção civil emenda o quarto trimestre consecutivo em baixa
- Liberação dos preços de combustíveis por Kast em março provocou a maior alta de gasolina e diesel desde os anos 1980 e derrubou sua aprovação para 47% (Cadem)
- Por que isso importa: o primeiro balanço econômico do governo de extrema direita mostra que a promessa de "acelerar o crescimento" esbarrou em inflação, juros altos e um setor mineiro em crise, com reflexos sobre toda a América Latina.
A economia do Chile ficou estagnada no segundo trimestre de 2026 em relação aos três meses anteriores e encolheu 0,2% na comparação com igual período do ano passado, segundo o Informe de Cuentas Nacionales divulgado nesta terça-feira (18) pelo Banco Central do Chile. A actividad económica de Chile tuvo una contracción del 0,2% en el segundo trimestre de 2026, según el Banco Central, com o resultado publicado nesta terça-feira. O número frustrou o mercado, que projetava uma leve expansão de 0,1% após o desempenho positivo do Índice Mensal de Atividade Econômica de junho (La Tercera/Bloomberg).
É o primeiro dado trimestral completo divulgado desde que o advogado de extrema direita José Antonio Kast assumiu a presidência do país, em 11 de março de 2026, prometendo revitalizar uma das economias mais ricas da América Latina após anos de expansão modesta.
Recessão técnica confirmada
A difusão das Contas Nacionais publicadas pelo Banco Central confirmou que o segundo trimestre o PIB caiu 0,2%, somando-se ao -0,3% do primeiro trimestre, o que levou à confirmação de que o Chile enfrentou uma recessão técnica. O resultado dos três primeiros meses do ano havia sido divulgado inicialmente com queda de 0,5%, mas foi revisado pelo próprio Banco Central para -0,3% com o país já somando um semestre completo com números pouco favoráveis.
Uma pesquisadora do Observatório do Contexto Econômico da Universidade Diego Portales, Valentina Apablaza, resumiu o cenário: "Sorpresa en CCNN del 2do trimestre 2026: Pese a optimismo post IMACEC, Chile oficialmente se encuentra en recesión técnica tras acumular dos trimestres consecutivos de contracción en la actividad económica, tanto en términos anuales como en la variación trimestral", disse a economista, em referência à leitura de que o país está tecnicamente em recessão.
"Cuentas Nacionales de 2T26 del terror. Cae inversión, Construcción con 4 trimestres de caida consecutivos y Consumo cae en todos sus componentes" — publicação nas redes sociais do economista Jorge Selaive sobre o resultado do PIB
Mineração e construção puxam a queda
O setor que mais pesou no resultado negativo foi a mineração, historicamente o motor da economia chilena. O PIB não minerador aumentou 0,7% no segundo trimestre, contra um recuo de 6,4% no PIB minerador. A mineração, principal atividade econômica do país, cresceu apenas 0,6% no segundo trimestre em relação aos três meses anteriores, o que expõe a fragilidade do setor mesmo na comparação trimestral direta.
A formação bruta de capital fixo — a inversão — não registrou variação no segundo trimestre, depois de ter crescido 2,9% no primeiro e 9,7% tanto no terceiro quanto no quarto trimestre de 2025. Dentro desse item, construção e outras obras diminuíram 2,4%, no que representa o quarto trimestre seguido de queda no setor da construção civil, segundo analistas de mercado.
O lado positivo veio do consumo das famílias, que avançou 1,2%, enquanto o investimento em capital fixo se manteve sem alterações. O consumo dos domicílios cresceu 1,2%, com destaque para o gasto em serviços de saúde e turismo, e o consumo do governo também subiu, puxado por saúde e educação (Banco Central do Chile).
O desemprego também piora o quadro: o crescimento tem sido afetado pelo maior nível de desemprego desde 2021 e por dificuldades em setores específicos, como a pesca, segundo análise da agência de notícias que acompanha o dado.
A aposta nos combustíveis que saiu cara
O detonador político do desgaste econômico foi uma decisão tomada ainda nas primeiras semanas de governo. Uma de suas primeiras medidas econômicas, permitir o maior aumento no preço dos combustíveis desde pelo menos 1980, impulsionou a inflação e abalou a confiança dos consumidores.
O reajuste, anunciado em 24 de março e em vigor a partir de 26 de março, elevou a gasolina em até 44% e o diesel em até 54% no preço de atacado, segundo o ministro da Fazenda Jorge Quiroz (Bloomberg Línea). A decisão que mais impacta a economia dos chilenos foi o ajuste severo do mecanismo que amortecia as altas bruscas nos preços dos combustíveis — na semana do anúncio, a gasolina disparou 30% e o diesel, 60% — executado por decretos e ordens executivas, sem passar pelo Congresso, onde o Partido Republicano de Kast não tem maioria.
A motivação era fiscal: o Executivo esperava economizar 6 bilhões de dólares para reduzir o déficit fiscal, que encerrou 2025 em 3,6% do PIB. Mas o efeito colateral foi imediato sobre os preços. As expectativas de inflação para um ano subiram mais de 72 pontos-base, para 4,73%, bem acima da meta de 3% do Banco Central e no nível mais alto desde abril de 2023.
A repercussão política foi rápida. Uma pesquisa da consultoria Cadem mostrou que a aprovação de Kast caiu quatro pontos, para 47%, com 59% dos chilenos afirmando que o aumento poderia ter sido evitado, e a desaprovação superou a aprovação pela primeira vez, com 54% esperando novos aumentos nos preços dos combustíveis. Uma semana antes, a queda já havia sido de 6 pontos percentuais em apenas uma semana, para 51%, ante 57%.
Diante da pressão, o governo tentou amenizar o golpe no bolso do consumidor. Como medida paliativa, o governo anunciou o congelamento das tarifas de transporte público até dezembro, o que compensaria parte do choque nos preços dos combustíveis, segundo análise do JP Morgan. Mesmo assim, o aumento na gasolina e no diesel ainda poderia gerar pressões inflacionárias não lineares, segundo a mesma instituição.
Reforma tributária e resposta do governo
Em julho, o governo emplacou no Senado uma reforma tributária ampla, apresentada como resposta ao fraco desempenho econômico. O projeto inclui benefícios tributários, como redução gradual do imposto de renda das empresas de 27% para 23%, e prevê congelamento das condições tributárias por 20 anos para investimentos que superem 350 milhões de dólares.
A oposição reagiu ao custo fiscal da medida. "Cada ponto que se reduz significa 420 milhões de dólares a menos na arrecadação do Estado", protestou a senadora opositora Beatriz Sánchez durante o debate. Uma pesquisa da Cadem mostrou que quase 56% do país discorda da redução de impostos, enquanto a popularidade de Kast segue em queda e seu próprio governo reduziu as expectativas de crescimento anual de 4% para 3,5% até 2030, quando termina o mandato de quatro anos.
Já o biministro de Economia e Mineração, Daniel Mas, buscou minimizar o resultado do PIB nesta terça. "Os resultados do segundo trimestre refletem que enfrentamos um semestre exigente, marcado especialmente por desafios estruturais e operacionais na mineração e na pesca", afirmou. Segundo ele, "como Governo vamos acelerar o passo, destravar investimentos, impulsionar projetos, entregar certezas para recuperar nossa capacidade produtiva e gerar mais emprego".
Projeções cortadas e juros travados
O próprio Banco Central já havia sinalizado a piora antes da divulgação oficial. A presidenta do organismo, Rossana Costa, explicou em junho que o informe reduziu o rango de crescimento do PIB para 2026, de 1,5%-2,5% estimado em março para uma faixa de 1%-1,75%, atribuindo o resultado ao menor desempenho de setores associados a recursos naturais, como mineração, agricultura e pesca.
Após o dado desta terça, o mercado ficou ainda mais pessimista. Analistas consultados pelo banco central reduziram suas projeções de crescimento para cerca de 1% em 2026, enquanto a consultoria Capital Economics projeta expansão de apenas 0,8% neste ano e avalia que os riscos seguem inclinados para um desempenho ainda mais fraco. Com a inflação novamente acima da meta de 3%, o banco central chileno tem evitado oferecer estímulos adicionais à economia e manteve a taxa básica de juros em 4,5%.
O quadro contrasta com o legado que Kast herdou. Sob o antecessor Gabriel Boric (2022-2026), do campo esquerdista, a taxa de inflação acumulada em doze meses havia caído de um pico de 14,1% em agosto de 2022 para 2,4% em fevereiro de 2026 — patamar que a liberação dos combustíveis ajudou a reverter em poucas semanas de novo governo.
O que está em jogo
O desafio de Kast agora é duplo: sustentar o ajuste fiscal que prometeu aos investidores sem aprofundar a recessão que já corrói sua base de apoio popular. Com a mineração — carro-chefe das exportações chilenas de cobre — patinando e a construção civil em queda havia um ano, a aposta do governo passa a depender do consumo das famílias e de uma reforma tributária que a própria opinião pública rejeita majoritariamente (Cadem).
Para 2027, o Banco Central chileno projeta melhora, com faixa de crescimento entre 2% e 3% (Senado do Chile), mas o intervalo entre a promessa de campanha e o primeiro semestre de governo já custou a Kast a maior queda de aprovação registrada desde sua posse.
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