Como a crise boliviana e terras baratas atraíram o agronegócio brasileiro para a Amazônia
Com fiscalização frouxa, multas 10 vezes menores e terras a US$ 2 mil o hectare, país vizinho se torna destino de produtores que encontram barreiras cada vez maiores no Brasil
📋 Em resumo ▾
- A Bolívia registrou em 2025 a segunda maior área de perda de floresta tropical do mundo, atrás apenas do Brasil; desde 2001, cerca de um sexto de sua cobertura arbórea desapareceu
- Eraí Maggi Scheffer, do Grupo Bom Futuro, comprou 30 mil a 40 mil hectares na Chiquitania, pagando cerca de US$ 2 mil por hectare — menos de um terço do valor em Mato Grosso
- O governo boliviano de Rodrigo Paz aposta em commodities agrícolas para sair da crise, mas extinguiu o Ministério do Planejamento e não reafirmou metas de redução do desmatamento
- Cientistas alertam que a Amazônia pode virar savana se o desmatamento atingir 20% a 25%; a região já perdeu 16% da vegetação nativa
- Por que isso importa: A fuga do agronegócio brasileiro para a Bolívia corrói os avanços de conservação do Brasil e coloca em xeque a estabilidade do maior ecossistema tropical do planeta
Na remota fronteira seca entre o município mato-grossense de Vila Bela da Santíssima Trindade e o departamento boliviano de Santa Cruz, uma faixa recém-nivelada de terra vermelha avança em direção à Bolívia. Máquinas pavimentam uma rodovia estadual financiada pelo agronegócio, enquanto do outro lado da linha imaginária que separa os dois países, uma estreita estrada de terra aguarda transformação semelhante. O que está em jogo não é apenas uma obra de infraestrutura: é a nova fronteira do desmatamento na Amazônia.
A Bolívia em chamas: segunda maior perda florestal do mundo
A Bolívia, um dos países mais pobres da América Latina, atravessa uma crise multifacetada: inflação disparada, receitas do gás natural em queda livre e reservas de moeda estrangeira esgotadas. Em maio, protestos eclodiram em todo o país e se prolongaram por semanas, abalando o governo do presidente Rodrigo Paz.
A resposta de Paz foi apostar em soja e outras commodities agrícolas para gerar o crescimento de que o país precisa. Mas essa aposta tem um custo ambiental brutal. Em 2025, a Bolívia registrou a segunda maior área de perda de floresta tropical do mundo — atrás apenas do Brasil, mas com uma área de floresta 60% menor. Desde 2001, cerca de um sexto de sua cobertura arbórea desapareceu, a maior proporção entre os países amazônicos.
"A perda florestal primária não relacionada a incêndios foi a quarta maior já registrada, causada em grande parte pela expansão da pecuária e de cultivos como soja, milho e sorgo."
— Global Forest Watch, World Resources Institute
O epicentro do problema é o município de San Ignacio de Velasco, no departamento de Santa Cruz. Apenas entre 2021 e 2023, a cidade perdeu uma área de floresta aproximadamente equivalente à Grande Londres, segundo análise de imagens de satélite da revista boliviana Nómadas.
Os Maggi Scheffer e a "extensão de Mato Grosso"
A expansão agrícola na Bolívia não é um fenômeno espontâneo. Ela é liderada por produtores brasileiros que encontram no país vizinho terr mais baratas e regras mais permissivas para o desmatamento. Na vanguarda dessa onda está Eraí Maggi Scheffer, sócio fundador do Grupo Bom Futuro e considerado um dos maiores produtores agrícolas rurais do mundo.
Segundo apuração do portal AgFeed, Maggi intensificou a compra de terras na Bolívia no ano passado e já acumula entre 30 mil e 40 mil hectares na Chiquitania, região do departamento de Santa Cruz que faz fronteira com Mato Grosso. O preço do hectare na Chiquitania está próximo de US$ 2 mil — valor considerado muito acessível se comparado às áreas para conversão em Mato Grosso, que chegam a US$ 7 mil.
"Sei que tem gente se perguntando: 'mas o que o Eraí está fazendo na Bolívia?' E eu vi gente falando 'eu te vejo aqui, eu estou arrepiado, a terra (preço) vai explodir por isso'."
— Eraí Maggi Scheffer, em discurso na Fiesp, março de 2026
O Grupo Bom Futuro, em nota, afirmou que "não realizou, nem está realizando, investimentos na Bolívia" e que eventuais iniciativas de Eraí Maggi são de "caráter particular" e não têm relação com as operações da empresa.
Mas a presença da família é inegável. O irmão de Eraí, Fernando Maggi Scheffer, afirmou em entrevista que a propriedade adquirida na Chiquitania — anteriormente da fabricante de pisos INPA Parket e descrita em 2022 pelo Conselho Boliviano de Certificação Florestal como "unidade certificada de manejo florestal amplamente preservada" — pertence a "holdings familiares" e não será inicialmente plantada com soja. "Você entra como pecuarista. Não tem condições de você chegar e botar lavoura, fica muito caro. Depois, com a degradação no futuro, você muda para soja."
É uma sequência conhecida: primeiro o desmatamento e a pecuária; depois, as lavouras.
O abismo regulatório: R$ 5 mil vs R$ 460 por hectare desmatado
A diferença entre Brasil e Bolívia não está apenas no preço da terra. Está na fiscalização ambiental. Do lado brasileiro, a legislação federal exige que até 80% da vegetação nativa amazônica permaneça em pé em propriedades rurais. O desmatamento ilegal pode resultar em multas de R$ 5.000 por hectare, além de sanções mais severas.
Na Bolívia, grandes produtores na Chiquitania geralmente são obrigados a conservar pelo menos 30% da área da propriedade. Mas a fiscalização é fraca, e a multa por desmatamento é cerca de R$ 460 por hectare — menos de um décimo do valor brasileiro.
A Trase, organização que mapeia cadeias de suprimentos agrícolas, constatou que a soja boliviana tem uma pegada de desmatamento maior que a brasileira.
O resultado aparece nos dados do MapBiomas: enquanto o Brasil endureceu o combate à derrubada da floresta e viu o desmatamento despencar desde 2023 — chegando à menor taxa anual em décadas, anunciada em 7 de agosto —, a Bolívia viu o desmate avançar rapidamente. As trajetórias dos dois países estão se afastando de forma acentuada.
A rodovia que liga o desmatamento aos portos
O catalisador da expansão é uma nova rodovia entre os dois países. O trecho de 73 quilômetros do lado brasileiro, saindo de Vila Bela da Santíssima Trindade, deverá ser concluído em dois anos. O governo brasileiro, por meio do Ministério da Agricultura, ajudará a coordenar conversas para prolongar a estrada por mais 130 quilômetros até San Ignacio de Velasco, com possível financiamento do BNDES.
Em julho, o presidente Paz assinou um acordo para iniciar o planejamento do trecho boliviano. O evento ocorreu durante a feira agropecuária anual de San Ignacio, quando cerca de 20 jatos particulares lotaram o pequeno aeroporto municipal — um sinal visual do dinheiro que está por vir.
Fernando Maggi Scheffer defende que a estrada é essencial para reduzir custos logísticos e conectar a região às rotas de exportação. Uma estrada precária e informal já liga San Ignacio à fronteira brasileira, mas, sem posto alfandegário oficial, tem sido usada principalmente para o contrabando de gado.
O bosque chiquitano: o ecossistema mais ameaçado da Amazônia
A expansão agrícola na Bolívia não atinge apenas a floresta tropical úmida. O alvo principal é o bosque seco chiquitano, que também alcança o oeste de Mato Grosso. Trata-se da maior floresta tropical seca das Américas, conhecida por uma biodiversidade singularmente adaptada. Devastado por incêndios florestais e pela expansão agropecuária, o bioma perdeu uma parcela maior de sua vegetação original do que qualquer outro da bacia amazônica.
Cientistas advertem que a Amazônia poderá começar a se transformar em uma paisagem mais seca, semelhante a uma savana, quando o desmatamento atingir o limiar de 20% a 25%. A região já perdeu 16% de sua vegetação nativa. Um estudo concluiu que o desmatamento contribuiu para a redução das chuvas sazonais.
As mudanças já são perceptíveis no terreno. "Há cada vez mais picos extremos de temperatura. Acredito que isso esteja acontecendo porque mais terras estão sendo abertas e há menos floresta", disse Jacob Teichroeb, produtor de soja da comunidade menonita de Chihuahua, que vive há 18 anos na região.
Os índios e a água: quem paga a conta da fronteira agrícola
A pressão sobre comunidades indígenas é imediata. As comunidades chiquitanas da região reúnem mais de 100 mil pessoas. Marcela Chuvé, que representa 63 comunidades, solicitou formalmente à ABT (autoridade boliviana de terras e florestas) que não altere o uso do solo da área anteriormente pertencente à INPA. Segundo ela, a propriedade abrange nascentes d'água que abastecem três territórios indígenas: Monteverde, San Antonio de Lomerío e Sapocó.
"As necessidades de algumas pessoas não podem ser atendidas à custa de outras. Mato Grosso pode ser considerado o melhor modelo do Brasil, ou até do mundo, mas não é um modelo para nós, porque vai nos prejudicar."
— Marcela Chuvé, representante de comunidades chiquitanas
O argumento de que o modelo mato-grossense de desenvolvimento agrícola pode ser replicado na Bolívia encontra resistência não apenas dos indígenas. Gregory Thaler, cientista social ambiental da Universidade de Oxford e autor do livro Saving a Rainforest and Losing the World, argumenta que o modelo de conservação do Brasil reduziu o desmatamento dentro do país, mas ajudou a empurrar a expansão agrícola para a Bolívia, onde a regulação é mais fraca.
Se o Parque Nacional Noel Kempff Mercado, uma das áreas de conservação mais importantes do leste da Bolívia, sobreviver "apenas como uma ilha em um mar de gado e pastagens, nada terá sido realmente salvo", afirmou Thaler.
O governo Paz: commodities em troca de floresta
O governo de Rodrigo Paz, conservador apoiado pelo agronegócio que tomou posse em novembro de 2025, não reafirmou o compromisso da administração anterior de reduzir drasticamente o desmatamento. Em 4 de agosto, anunciou a extinção do Ministério do Planejamento, que supervisionava a política ambiental.
Fernando Romero, ex-ministro do Planejamento e do Meio Ambiente da Bolívia, afirmou que o país não pode assumir compromissos que não está disposto a cumprir. "Eu não poderia dar agora uma meta de redução de [desmatamento] 80% ou 70%. Isso seria irresponsável."
A NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada) da Bolívia para o Acordo de Paris está sendo revisada. Enquanto isso, o país continua atraindo investidores. Em março, Paz e o presidente Lula estabeleceram uma ampla agenda de cooperação em infraestrutura, energia, mineração, agricultura, segurança e comércio — mas o documento não incluiu nenhum compromisso específico de redução do desmatamento.
O paradoxo do land sparing: quando salvar aqui significa destruir ali
O Brasil defende um princípio conhecido como land sparing — "poupança de terras". A ideia é que, diante de restrições rigorosas ao desmatamento, os produtores intensifiquem a produção nas terras já abertas, em vez de derrubar novas áreas. O resultado no Brasil foi expressivo: entre 2000 e 2022, a produção agrícola de Mato Grosso cresceu 7% ao ano, enquanto a produtividade por hectare aumentou 6,4% anualmente — quase o dobro da média brasileira.
Mas há um efeito colateral. À medida que os preços da terra subiram no Brasil e a abertura de novas áreas se tornou mais difícil, produtores passaram a buscar lugares mais baratos e com proteções ambientais mais leves. A Bolívia oferecia as duas coisas.
"O land sparing acaba deslocando o desmatamento para outros lugares, de modo que os países 'trocam conservação local por destruição global'."
— Gregory Thaler, Universidade de Oxford
Políticos brasileiros rejeitam a ideia de que o país esteja exportando a pressão do desmatamento. Jorge Viana, ex-governador do Acre e aliado de Lula, respondeu "não" quando questionado se novas estradas poderiam transferir a perda florestal para a Bolívia.
Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas, compara o argumento contrário à ideia de que o Brasil não deveria controlar a inflação porque investidores poderiam se mudar para a Argentina. "Você não pode deixar de fazer uma boa política pública simplesmente porque o capital se move."
O que está em jogo para a Amazônia
A pergunta que a nova fronteira agrícola na Bolívia deixa no ar é inquietante: se o Brasil conseguiu reduzir o desmatamento em seu território, mas apenas para ver a destruição se deslocar para o outro lado da fronteira, quem realmente "salvou" a Amazônia?
O bosque chiquitano, o ecossistema mais ameaçado da bacia, não tem voz no Congresso Nacional brasileiro nem na Assembleia Legislativa de Santa Cruz. As comunidades indígenas que dependem de suas nascentes d'água não têm representantes nas mesas de negociação do Fórum Empresarial Brasil-Bolívia. E o mercado de commodities, que compra soja e carne onde for mais barato produzi-los, não diferencia grãos cultivados em terras recém-desmatadas daqueles vindos de áreas consolidadas.
Se a Amazônia é um ecossistema transnacional — e a ciência diz que é —, então salvá-la à meia-noite, fechando os olhos para o que acontece do outro lado da linha, pode ser o mesmo que não salvá-la de todo. A floresta não conhece fronteiras. O desmatamento, infelizmente, também não.
Versão em áudio disponível no topo do post.- Com informações da Bloomberg