Como o Bradesco virou "vítima" de uma fraude que custou R$ 4,8 bi ao banco
Marcelo Noronha rebate acusações da Operação Disclosure, que mirou o diretor executivo do banco em junho, enquanto instituição anuncia lucro recorde de R$ 7,1 bilhões no segundo trimestre
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- O CEO do Bradesco, Marcelo Noronha, afirmou nesta quinta-feira (6) que o banco foi "vítima" da fraude bilionária da Americanas e que sua atuação foi de "colaboração com as autoridades"
- Em junho/2026, a PF deflagrou a 2ª fase da Operação Disclosure e mirou Carlos Henrique Villela Pedras, diretor executivo do Bradesco, com mandados de busca e apreensão
- O Bradesco tinha R$ 4,8 bilhões em créditos com a Americanas e provisionou a totalidade do prejuízo em 2023, o que contribuiu para o pior resultado trimestral da história do banco naquele ano
- Apesar do trauma, o banco registrou lucro recorde de R$ 7,1 bilhões no 2º trimestre de 2026, alta de 16,2% na comparação anual, com ROE de 16,2%
- A Operação Disclosure investiga fraude contábil de R$ 20 bilhões (inicialmente) a R$ 54 bilhões (bloqueio de bens), envolvendo acionistas de referência e executivos de Itaú, Bradesco e Santander
- Por que isso importa: A declaração de Noronha expõe a tensão entre o discurso institucional de "vítima" e a responsabilidade dos bancos como credores e conselheiros de uma das maiores fraudes corporativas da história do Brasil
O CEO do Bradesco, Marcelo Noronha (foto em destaque), afirmou nesta quinta-feira (6) que o banco foi "vítima" da fraude bilionária envolvendo a Americanas e que sua atuação no caso foi de "colaboração com as autoridades" para desvendar o esquema. A declaração, feita durante coletiva de imprensa sobre os resultados do segundo trimestre de 2026, ocorre pouco mais de um mês depois de a Polícia Federal mirar um dos diretores executivos da instituição — Carlos Henrique Villela Pedras — na segunda fase da Operação Disclosure, que investiga a maior fraude corporativa da história recente do Brasil.
— O Bradesco, assim como outros bancos, foi vítima. Acho que tem uma inversão aqui. O banco foi um colaborador com as autoridades para desvendar todo esse problema. Então, deixa aí a Justiça trabalhar, a Polícia Federal, que tem seu papel, trabalhar — disse Noronha, em tom de rebatida às insinuações de que a instituição financeira teria tido algum tipo de omissão ou conluio no caso.
A fala do CEO soa como uma tentativa de deslocar o foco. Em 25 de junho de 2026, a PF cumpriu nove mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro e em São Paulo, incluindo o endereço de Villela Pedras, que integra a diretoria executiva do Bradesco desde dezembro de 2025 e tem mais de 30 anos de experiência no setor financeiro, com passagens pelo Itaú e pelo BBVA.
"O Bradesco, assim como outros bancos, foi vítima. Acho que tem uma inversão aqui."
A fraude da Americanas: R$ 20 bilhões que viraram R$ 54 bilhões
A crise da Americanas estourou em 11 de janeiro de 2023, quando a varejista anunciou inconsistências contábeis de cerca de R$ 20 bilhões — valor que, meses depois, seria revisado para mais de R$ 40 bilhões em fraudes. O esquema, segundo investigações da CVM, PF e MPF, teria sido arquitetado pela antiga diretoria liderada pelo ex-CEO Miguel Gutierrez, com a criação artificial de contratos de Verba de Propaganda Cooperada (VPC) e operações de risco sacado contabilizadas sem lastro econômico.
A 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, que autorizou a segunda fase da Operação Disclosure, decretou o bloqueio de até R$ 54 bilhões em bens e valores dos investigados — entre eles os acionistas de referência Carlos Alberto da Veiga Sicupira e Paulo Alberto Lemann (filho de Jorge Paulo Lemann), além de executivos do Itaú Unibanco (José de Castro Araújo Rudge Júnior e Gustavo Balassiano), do Bradesco (Villela Pedras) e do Santander (André Juaçaba de Almeida e Alexandre Lian Abdo).
A investigação apura se os executivos dos bancos tinham conhecimento prévio das irregularidades ou participaram ativamente do esquema. A PF aponta indícios de manipulação de mercado e associação criminosa. Os acionistas de referência, por sua vez, sustentam que foram enganados pela antiga diretoria e que não tinham conhecimento das fraudes.
O preço que o Bradesco pagou: R$ 4,8 bilhões em provisões
Se o Bradesco foi "vítima", foi uma vítima cara. O banco tinha R$ 4,8 bilhões em créditos a receber da Americanas — a maior exposição entre as instituições financeiras no caso. Em fevereiro de 2023, o Bradesco decidiu provisionar a totalidade do impacto no quarto trimestre de 2022, enquanto o Santander provisionou apenas 30% e o Itaú também provisionou a totalidade.
O resultado foi devastador. No 4º trimestre de 2022, o Bradesco registrou lucro líquido recorrente de apenas R$ 1,6 bilhão, uma queda de 76% na comparação anual e o pior resultado trimestral desde 2006. A provisão para devedores duvidosos (PDD) expandida saltou para R$ 14,8 bilhões, 3,4 vezes maior que no mesmo período de 2021.
Na época, o então CEO Octavio de Lazari Junior se referiu à Americanas como um "cliente específico do atacado" — eufemismo para um dos maiores calotes da história do crédito corporativo brasileiro. A frase de Noronha, três anos depois, tenta reescrever essa narrativa: o banco não foi um credor negligente, mas um colaborador da Justiça.
Lucro recorde e a volta por cima: R$ 7,1 bilhões no 2º tri/2026
A ironia do discurso de "vítima" é que ele coincide com um momento de euforia nos resultados do Bradesco. No segundo trimestre de 2026, o banco registrou lucro líquido recorrente de R$ 7,1 bilhões — alta de 16,2% na comparação com o mesmo período de 2025 e de 3,5% no trimestre. O resultado superou levemente as projeções do mercado, que apontavam para R$ 6,9 bilhões.
O ROE (retorno sobre o patrimônio líquido) alcançou 16,2%, ante 14,6% um ano antes. A carteira de crédito expandida somou R$ 1,1 trilhão, com crescimento de 11,6% em 12 meses. A margem financeira total avançou 15,7%, para R$ 20,87 bilhões. A inadimplência subiu levemente para 4,3% — movimento considerado dentro das expectativas.
Em julho, o banco anunciou um aumento de capital de R$ 10 bilhões por meio de subscrição de novas ações, acompanhado do pagamento antecipado de R$ 6,5 bilhões em juros sobre capital próprio (JCP). Para Noronha, a decisão dos controladores é um "voto de confiança" na estratégia do banco.
— Isso aqui foi uma decisão das acionistas controladoras. Colocaram na mesa, a gente debateu internamente, debatemos com o nosso conselho, o Conselho aprovou. A gente vê isso como extremamente positivo. Primeiro, é um voto de confiança na empresa, na organização. Segundo, um voto de confiança em toda a administração — avaliou Noronha.
O que o Bradesco sabia e quando sabia
A pergunta que a Operação Disclosure coloca — e que Noronha tenta desviar — é se os bancos, na condição de principais credores e, em alguns casos, de membros do conselho de administração da Americanas, deveriam ter percebido as irregularidades antes de janeiro de 2023.
Documentos obtidos pelas investigações mostram que os conselheiros da Americanas, incluindo representantes dos acionistas de referência, indagavam sobre a possível existência de operações de risco sacado, mas os diretores categoricamente negavam que a companhia as realizasse.
A CVM, em janeiro de 2026, concluiu sua fase investigativa e apontou que o esquema foi "arquitetado e liderado" por Miguel Gutierrez, com o núcleo principal formado por ex-diretores estatutários. A comissão não encontrou evidências de que os conselheiros e acionistas tivessem participação na fraude.
Mas a isenção dos acionistas não se estende automaticamente aos bancos credores. O Bradesco, como maior expositor ao risco Americanas, tinha — ou deveria ter — mecanismos de due diligence mais robustos do que um investidor minoritário. A PF, ao mirar Villela Pedras, investiga justamente se a relação de crédito entre o banco e a varejista ultrapassou os limites do relacionamento comercial e entrou no território da omissão ou do conluio.
Eleições, Desenrola e o cenário externo: o que Noronha disse além da Americanas
A coletiva de imprensa não se limitou ao caso Americanas. Noronha também comentou o cenário macroeconômico e as políticas públicas. Sobre o Desenrola Adimplentes — programa do governo federal voltado a consumidores com contas em dia mas alta parcela da renda comprometida —, o CEO foi categórico: "A gente está mais distante dele".
O argumento é que o programa mira os informais, que não têm acesso a modalidades mais baratas como o consignado CLT, e que o Bradesco não vê viabilidade em identificar renda para esse público. O banco, porém, mantém esforços no programa Move Brasil, outra iniciativa do governo federal.
Sobre as eleições de 2026, Noronha demonstrou otimismo moderado. — Isso tudo causa volatilidade no mercado, causa mudança no mercado, mas tenho uma expectativa positiva: acho que, depois das eleições, seja quem for o presidente eleito, a gente terá, naturalmente, um trabalho e uma apresentação sobre política fiscal para os próximos quatro anos — disse. Ele admitiu, porém, que o período eleitoral deve gerar "algum grau de redução de demanda" no mercado de crédito.
A declaração de Marcelo Noronha de que o Bradesco foi "vítima" da fraude da Americanas é, em primeiro lugar, uma estratégia de comunicação corporativa. Ela tenta separar a instituição financeira do esquema fraudulento, posicionando o banco como colaborador da Justiça e não como cúmplice ou omissão. Mas ela também é uma declaração de impunidade: se o Bradesco foi vítima, quem foi o algoz?
A resposta, até agora, aponta para a antiga diretoria da Americanas — Miguel Gutierrez, Anna Saicali e outros ex-executivos que foram denunciados pelo MPF por organização criminosa, manipulação de mercado e falsidade documental. Mas a investigação não termina aí. A segunda fase da Operação Disclosure, que mirou executivos de Itaú, Bradesco e Santander, sugere que a PF não está convencida de que os bancos foram apenas espectadores ingênuos de uma fraude de R$ 40 bilhões.
O paradoxo é que, enquanto Noronha fala em "vítima", o Bradesco colhe os frutos da recuperação: lucro recorde, ROE de 16,2%, carteira de R$ 1,1 trilhão e aumento de capital de R$ 10 bilhões. A pergunta que o mercado e a Justiça precisam responder é: uma vítima pode lucrar tanto com o crime que diz ter sofrido? E, se o Bradesco realmente não sabia de nada, por que seu diretor executivo de corporate banking está na mira da PF?
A resposta, como sempre em casos de fraude corporativa, estará nos e-mails, nas planilhas e nos depoimentos que a Operação Disclosure ainda não tornou públicos. Até lá, a palavra "vítima" soará, para muitos, como um eufemismo conveniente.
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