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Craveiro, Nunes Marques e JBS: os 18 milhões que conectam consultoria ao STF

Repasses da JBS e do Banco Master a empresa da família Craveiro, a proximidade com o ministro do Supremo e a nomeação de Gabriel Campelo para o Carf reacendem o debate sobre influência e conflito de interesses no topo do Judiciário brasileiro

Craveiro, Nunes Marques e JBS: os 18 milhões que conectam consultoria ao STF
📷 Andressa Anholete/STF
📋 Em resumo
  • A Consult Inteligência Tributária, ligada à família Craveiro, recebeu 18 milhões de reais da JBS e do Banco Master entre agosto de 2024 e julho de 2025
  • Gabriel Campelo, filho de Francisco Craveiro e sócio do filho do ministro Kassio Nunes Marques, foi nomeado para o Carf e votou favoravelmente à JBS em julgamentos
  • Rearranjos societários nas empresas da família Craveiro ocorreram antes e durante os repasses, sem configurar ilegalidade, mas levantando questões sobre transparência
  • Por que isso importa: a proximidade entre fluxos financeiros, decisões judiciais e nomeações para órgãos de cúpula do sistema tributário testa os limites da imparcialidade institucional
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A Consult Inteligência Tributária, empresa com sede fiscal em coworking de Barueri, Grande São Paulo, tornou-se o centro de uma teia que conecta o setor privado ao Judiciário. Entre agosto de 2024 e julho de 2025, recebeu 11,4 milhões de reais da JBS e 6,6 milhões de reais do Banco Master. Os únicos aportes à empresa, conforme apurado, vieram dos irmãos Batista, controladores da JBS, e de Daniel Vorcaro, empresário ligado ao Banco Master. Uma reportagem da revista Piauí, publicada nesta segunda-feira, 20, mostra uma série de conexões, no mínimo, estranhas.

"A movimentação é, aparentemente, incompatível com a capacidade financeira presumida do cliente, considerando o faturamento médio mensal cadastral" — Relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras

A engenharia societária que antecedeu os repasses

A trajetória de Francisco Craveiro, contador com escritório em Teresina há duas décadas, ganhou novo capítulo em 2024. Até então, sua empresa de referência era a Craveiro Assessoria Contábil. Em julho daquele ano, rompeu a sociedade com o filho, Gabriel Campelo, na Consult. Campelo transferiu suas cotas ao pai. No mês seguinte, começaram os repasses da JBS e do Master. Em setembro, Craveiro repassou ao filho a totalidade das quotas da Craveiro Assessoria Contábil. Em outubro, Campelo associou-se ao advogado Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro Kassio Nunes Marques, para fundar o Instituto de Pesquisa e Gestão Tributária. O novo instituto foi instalado no mesmo endereço de coworking em Alphaville para onde a Consult havia sido transferida semanas antes. A separação formal entre pai e filho, portanto, não significou distanciamento operacional. Craveiro aparece como contador do IPGT. E os fluxos financeiros continuaram: entre agosto de 2024 e julho de 2025, a Consult repassou 281,6 mil reais ao escritório individual de Kevin Marques, além de valores a Francisco Craveiro, à Craveiro Assessoria Contábil e a Victor Linhares de Paiva, pupilo do senador Ciro Nogueira.

O Carf, os votos e a nomeação que chamou a atenção

Em treze de agosto de 2025, Gabriel Campelo foi designado pelo Ministério da Fazenda como conselheiro do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, órgão de cúpula do sistema tributário brasileiro. Sua indicação gerou estranheza entre servidores: Campelo não foi o candidato mais bem avaliado pela lista tríplice apresentada pela Confederação Nacional do Transporte. Sua posição foi definida por voto de qualidade do presidente do comitê de seleção, que também preside o Carf. "É incomum que o primeiro colocado não seja o escolhido, mas a Fazenda preferiu indicar o sócio do filho de um ministro do STF". No Carf, Campelo participou de dois julgamentos envolvendo empresas do grupo J&F em novembro de 2025. No primeiro, votou favoravelmente a um recurso da Flora, empresa do grupo, resultando em redução de multa — decisão unânime. No segundo, votou a favor da JBS em pleito para uso de crédito tributário; seu voto foi vencido, e o recurso foi negado. A legislação do Carf prevê impedimento em casos de interesse econômico direto ou indireto. Campelo era sócio da Consult até trinta de julho de 2024, um ano antes de assumir o cargo. Embora não haja vínculo formal no momento dos julgamentos, a norma exige avaliação de relações recentes que possam interferir, ou aparentar interferir, na imparcialidade.

O STF, a Eldorado e o timing dos pagamentos

Enquanto os repasses à Consult ocorriam, o ministro Kassio Nunes Marques atuava como relator de ação decisiva para a J&F, holding da JBS. A disputa bilionária pelo controle da Eldorado Brasil Celulose envolvia a empresa indonésia Paper Excellence, que havia comprado a companhia. A J&F recuou na negociação e iniciou batalha judicial para reaver o controle. Em junho de 2024, a Paper Excellence entrou com reclamação no Supremo, mas desistiu ao saber que Nunes Marques seria o relator. O ministro manteve o processo parado por quatro meses. Em outubro, rejeitou a desistência da Paper Excellence e determinou conciliação. Resultado: a empresa indonésia cedeu, e a J&F recuperou o controle da Eldorado. No caso do Banco Master, os interesses no Supremo são menos diretos, mas relevantes. No mesmo período em que transferiu 6,6 milhões de reais à Consult, o banco destinou valores elevados ao escritório de advocacia de Viviane Barci, esposa do ministro Alexandre de Moraes. Quando Daniel Vorcaro foi preso, em novembro de 2025, sua defesa solicitou que o caso fosse encaminhado ao Supremo sob relatoria de Nunes Marques.

Restaurantes, lucros e a teia que se expande

A proximidade entre as famílias Craveiro e Nunes Marques não se limita a consultorias e órgãos reguladores. Em Teresina, o restaurante Facheiro, fundado por Karine Nunes Marques, irmã do ministro, teve alteração societária em outubro de 2025. Entrou como sócio Antonio Ronaldo Madeira de Carvalho, irmão de Francisco Craveiro — o mesmo que apareceu nos rearranjos da Consult no fim de 2025. Naquele mês, enquanto a Consult aprovava distribuição de treze milhões de reais para Francisco Craveiro e a Craveiro Assessoria Contábil distribuía 1,5 milhão para Gabriel Campelo, o Facheiro decidiu distribuir 5,2 milhões de reais entre seus proprietários. Antonio Ronaldo, sócio do Facheiro e da Consult, aprovou a distribuição em ambas as empresas. Pela legislação, na ausência de previsão específica, os lucros são distribuídos proporcionalmente às quotas.

As respostas oficiais e o que permanece em aberto

Procurados, os envolvidos negaram qualquer irregularidade. A JBS afirmou que a contratação da Consult seguiu regras de compliance e que os pagamentos referem-se exclusivamente a serviços de consultoria e auditoria fiscal, sem relação com processos administrativos no Carf. Disse desconhecer a relação entre o conselheiro Gabriel Campelo e os sócios da Consult. O gabinete do ministro Kassio Nunes Marques confirmou a proximidade pessoal com a família Craveiro, mas destacou não haver parentesco. Francisco Craveiro afirmou que todas as reorganizações societárias foram formalizadas e registradas nos órgãos competentes. Kevin Marques disse que recebeu valores da Consult por serviços de assessoria jurídica e que o compartilhamento de endereço com a Consult é temporário.

Gabriel Campelo ressaltou que não possui participação na Consult desde julho de 2024 e que sua atuação no Carf segue critérios técnicos e normas de impedimento. O Carf informou que, após ser avisado sobre possível conflito de interesses, instaurou processo administrativo que pode culminar com a perda de mandato do conselheiro."Relações pessoais têm caráter estritamente privado e não se relacionam com as atividades empresariais, tampouco com a atuação de autoridades públicas ou membros do Poder Judiciário" — Francisco Craveiro, em nota

A ausência de evidência direta de quid pro quo não encerra a questão. Em democracia, a aparência de imparcialidade é tão relevante quanto a imparcialidade em si. Quando fluxos financeiros, rearranjos societários e decisões de órgãos de cúpula convergem no tempo e no espaço, o escrutínio público não é opção — é dever.A investigação da piauí trouxe à tona uma sequência de fatos que merecem acompanhamento. O que falta, agora, é transparência plena das instituições envolvidas e resposta clara sobre os critérios que orientaram nomeações, votos e contratações. Sem isso, a confiança nas estruturas de controle e julgamento do país segue sob tensão.

Versão em áudio disponível no topo do post

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