Eleições 2026

De 141 votos a deputada federal: quem é Galdiana Silva e o que ela representa

Oficial de Justiça de Rondônia e pré-candidata do MDB à Câmara Federal obteve apenas 141 votos em 2024; estado já teve chapas cassadas por fraudes à cota de gênero e elege apenas 3,57% das mulheres que concorrem

De 141 votos a deputada federal: quem é Galdiana Silva e o que ela representa
📷 Reprodução Instagram
📋 Em resumo
  • Galdiana Silva (MDB), oficial de justiça de Rondônia, é pré-candidata a deputada federal em 2026; em 2024, obteve apenas 141 votos em disputa para vereadora
  • Rondônia tem baixíssima representatividade feminina: apenas 2 deputadas federais, nenhuma senadora, 5 estaduais e apenas 3 prefeitas em 52 municípios
  • O TRE-RO cassou chapas em Governador Jorge Teixeira e Teixeirópolis em 2024 por fraudes à cota de gênero, com candidatas que tiveram 1 e 4 votos
  • Em 2022, Rondônia teve 56 candidaturas femininas a deputada federal e elegeu apenas 2 (3,57% de efetividade)
  • Por que isso importa: O caso ilustra o paradoxo das cotas de gênero no Brasil: a lei obriga 30% de candidaturas femininas, mas não garante que sejam competitivas — ou mesmo reais
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Galdiana Silva, oficial de justiça de Rondônia e pré-candidata a deputada federal pelo MDB, registrou candidatura ao cargo de vereadora em 2024 e obteve 141 votos — montante insuficiente para se eleger, mas que, dois anos depois, não a impediu de disputar uma das 8 vagas que Rondônia tem na Câmara dos Deputados. A trajetória eleitoral da candidata, somada ao contexto de baixíssima representatividade feminina no estado e a história recente de cassações por fraudes à cota de gênero, coloca em xeque uma pergunta incômoda: quando uma candidatura de mulher é legítima e quando ela serve apenas para preencher uma planilha partidária?

Quem é Galdiana Silva

Galdiana Silva é oficial de justiça em Rondônia, com atuação também como palestrante e escritora. No perfil público, preside a Comissão de Gênero e Violência Doméstica do IBDFAM-RO (Instituto Brasileiro de Direito de Família). É pré-candidata a deputada federal pelo MDB em Rondônia para as eleições de 2026, com discurso voltado à justiça social.

Em 2024, quando disputou uma vaga na Câmara de Vereadores, obteve apenas 141 votos — desempenho que, isoladamente, não configura fraude à cota de gênero, mas que ilustra a dificuldade de candidaturas femininas sem estrutura partidária de se viabilizarem eleitoralmente.

O cenário em Rondônia: onde mulheres são quase invisíveis no poder

Rondônia é um dos estados brasileiros com menor representatividade feminina na política. Segundo dados do Ministério Público Federal em Rondônia, o estado não tem senadoras, conta com apenas duas deputadas federais (Cristiane Lopes e Sílvia Cristina) , cinco deputadas estaduais e apenas três prefeitas nos 52 municípios. Em Porto Velho, há apenas duas vereadoras.

Nas eleições de 2022, Rondônia teve 56 candidaturas femininas ao cargo de deputada federal. Dessa montanha de nomes, apenas duas se elegeram — o que representa uma efetividade de 3,57%, uma das piores do país. O estado recebeu R$ 21,1 milhões do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) para candidaturas femininas naquele pleito, o que significa que cada mulher eleita custou, em média, R$ 10,5 milhões aos cofres públicos.

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"Uma das explicações para o baixo número de eleitas é a existência de candidaturas fictícias femininas ou candidaturas laranjas femininas, lançadas apenas para cumprir a cota de gênero."

— Ministério Público Federal em Rondônia

As cassações que mancharam Rondônia em 2024

O problema não é apenas teórico. Em março de 2026, o Tribunal Regional Eleitoral de Rondônia (TRE-RO) condenou dois casos de fraude à cota de gênero nas eleições municipais de 2024, ambos com manifestação do MP Eleitoral.

Em Governador Jorge Teixeira, uma candidata do União Brasil a vereadora teve apenas um voto (0,016% do total) e admitiu não ter votado em si mesma. Não morava no município, não fez campanha, não distribuiu material de propaganda e apresentou prestação de contas sem movimentação financeira relevante — com doações inferiores a R$ 2 mil. O TRE cassou o Demonstrativo de Regularidade de Atos Partidários (Drap) do partido, o que acarretou a cassação dos diplomas de todos os eleitos e suplentes, anulação dos votos e recontagem dos quocientes eleitoral e partidário. A candidata foi declarada inelegível por oito anos.

Em Teixeirópolis, uma candidata do PL teve apenas quatro votos, não morava no município (residia em Ji-Paraná), não fez campanha em redes sociais nem em rádio e TV. O TRE também cassou o Drap do partido, com as mesmas consequências.

O paradoxo das cotas: mais candidatas, menos representação

A Lei nº 12.034/2009 estabelece que cada partido deve preencher no mínimo 30% e no máximo 70% de candidaturas de cada sexo nos cargos proporcionais. A regra, reforçada por decisões do STF e do TSE, também exige que 30% dos recursos do FEFC e do tempo de propaganda eleitoral sejam destinados a mulheres.

O resultado, contudo, foi um aumento quantitativo sem correspondência qualitativa. Nas eleições entre 2018 e 2024, a média de candidaturas femininas foi de 34%, mas apenas 17% se elegeram. O Brasil ocupa a 139ª posição em ranking internacional sobre mulheres no parlamento, entre 184 países.

Em fevereiro de 2024, o TSE aprovou uma resolução inédita que endureceu os critérios para identificar fraudes. Pela nova norma, incorre automaticamente em fraude a candidata a vereadora com votação zerada ou pífia, sem importar o motivo alegado. Também será considerada laranja a candidatura feminina com prestação de contas idêntica a outra ou que não promova atos de campanha em benefício próprio.

O caso Galdiana Silva: candidatura legítima ou preenchimento de cota?

A candidatura de Galdiana Silva não se enquadra nos critérios objetivos de fraude. Ela tem ocupação definida (oficial de justiça), atuação pública visível (presidente de comissão do IBDFAM), e os 141 votos de 2024, embora modestos, demonstram alguma mobilização eleitoral — muito mais do que as candidatas cassadas em Rondônia, que tiveram 1 e 4 votos.

O problema, contudo, é outro: a viabilidade. Com apenas 141 votos em uma eleição municipal, quais são as chances reais de obter a votação necessária para uma das 8 vagas de deputada federal em um estado onde apenas 3,57% das candidatas mulheres se elegem em pleitos nacionais?

O MDB de Rondônia, ao registrar Galdiana, cumpre a cota de gênero. Mas cumprir a cota não é o mesmo que investir na candidatura. Sem recursos de campanha, sem tempo de televisão significativo e sem estrutura partidária robusta, a candidata corre o risco de ser mais um número estatístico — não de fraude, mas de fracasso previsível.

O que está em jogo para as mulheres de Rondônia

A representação feminina no estado é tão deficitária que qualquer candidatura legítima deveria ser celebrada. Mas a suspeita generalizada sobre candidaturas femininas — alimentada pelos casos de fraude documentados — acaba por prejudicar até as candidaturas reais. O eleitor desconfia. O partido não investe. A candidata fica isolada.

A pergunta que a candidatura de Galdiana Silva deixa no ar é: as cotas de gênero foram criadas para abrir espaço às mulheres na política, mas será que não se tornaram, na prática, um mecanismo de produção de candidaturas descartáveis? Se o objetivo era empoderar, por que tantas mulheres ainda precisam concorrer sem recursos, sem apoio e, muitas vezes, sem a menor chance de vitória?

Em Rondônia, onde apenas 3 em 52 prefeitas são mulheres, a resposta ainda está em aberto. E Galdiana Silva, com seus 141 votos de 2024 e sua candidatura a deputada federal em 2026, é mais uma peça desse quebra-cabeça — legítima, talvez; viável, provavelmente não; representativa, definitivamente sim, mas não da forma como a lei imaginou.

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