De quanto em quanto tempo ir ao oftalmologista? CBO responde
Divulgado no 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia, documento do CBO estabelece intervalos mínimos de consultas por faixa etária e alerta para riscos de comorbidades como diabetes e glaucoma
📋 Em resumo ▾
- O Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) divulgou documento com diretrizes de periodicidade de consultas oftalmológicas baseado em evidências científicas.
- As recomendações variam conforme a faixa etária, desde o teste do reflexo vermelho no recém-nascido até consultas anuais obrigatórias após os 40 anos.
- Pacientes com diabetes, histórico familiar de glaucoma, prematuridade ou uso prolongado de corticoides exigem acompanhamento intensificado.
- O Brasil possui cerca de 1,5 milhão de pessoas cegas, e a maioria das causas de cegueira é evitável quando diagnosticada precocemente.
- Por que isso importa: O documento reforça que a prevenção é a única barreira eficaz contra a cegueira irreversível e cobra integração da saúde ocular desde a infância.
O Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) divulgou nesta quinta-feira (10), durante o 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia em Salvador (BA), um documento que estabelece a rotina ideal de consultas oftalmológicas para toda a população. Baseado em evidências científicas recentes, o texto define a periodicidade mínima de avaliações conforme a faixa etária e a presença de comorbidades, reforçando que a maior parte dos casos de cegueira no país é evitável com diagnóstico precoce.
O peso da cegueira evitável no Brasil
O Brasil estima em cerca de 1,5 milhão o número de pessoas cegas, contingente que tende a crescer com o envelhecimento da população. Dados internacionais compilados pelo CBO indicam que a maioria dos casos de baixa visão no mundo são reversíveis, sobretudo catarata e erros refracionais.
As quatro maiores causas de cegueira no país — catarata, glaucoma, retinopatia diabética e degeneração macular — acometem sobretudo os idosos. A catarata senil atinge 47,1% da população entre 65 e 74 anos e 73,3% acima de 75 anos. O glaucoma chega a 6% ou 7% após os 70 anos, e a degeneração macular relacionada à idade pode alcançar 10,3% dos indivíduos com 80 anos ou mais.
"Assegurar consultas oftalmológicas completas, com periodicidade adequada à idade e às comorbidades, realizadas por médicos oftalmologistas em estabelecimentos regulares, é medida de eficácia comprovada. Ela ajuda a população a preservar a qualidade de sua visão e é fundamental para o enfrentamento de problemas que, se não forem tratados, podem levar à cegueira evitável", afirma Maria Auxiliadora Frazão, presidente do CBO.
Periodicidade recomendada por faixa etária
Os intervalos de consulta recomendados pelo CBO são parâmetros mínimos de referência para pessoas sem doença ocular diagnosticada e que não apresentam fatores de risco. O julgamento clínico do médico oftalmologista é o que determina se os intervalos devem ser reduzidos.
Abaixo, a tabela consolidada com as recomendações por faixa etária:

Tabela 1

Tabela 2
Da maternidade à terceira idade: o calendário da visão
O acompanhamento oftalmológico começa na maternidade. O teste do reflexo vermelho, realizado ainda no berçário, detecta catarata e glaucoma congênitos, opacidades de córnea, tumores intraoculares, inflamações importantes e hemorragias intravítreas.
Nos primeiros anos de vida, a avaliação dos marcos do desenvolvimento visual, da fixação e do alinhamento ocular integra a rotina da puericultura. Os erros de refração não corrigidos são a principal causa de deficiência visual entre as crianças brasileiras, com repercussão direta sobre o rendimento escolar e a socialização. A ambliopia, popularmente conhecida como "olho preguiçoso", pode ser prevenida pelo exame oftalmológico realizado até os três anos de idade. Em âmbito internacional, estima-se que 40% das crianças cegas poderiam ter essa consequência evitada ou tratada com o acesso oportuno a serviços oftalmológicos.
A partir da idade escolar e adolescência, o período é marcado pela instalação e progressão mais rápida da miopia, cuja prevalência cresce de forma consistente entre escolares. Para adultos até 39 anos, a recomendação é de avaliação periódica mesmo na ausência de sintomas, já que doenças relevantes podem se instalar nessa faixa sem qualquer manifestação clínica.
Doenças crônicas exigem intensificação do acompanhamento
O documento do CBO estabelece que, na presença de doenças crônicas, histórico familiar de doenças oculares ou exposições a circunstâncias específicas, é necessária a intensificação do acompanhamento, com intervalos definidos pelo oftalmologista a partir da avaliação individual.
O caso mais emblemático é o do diabetes mellitus: cerca de 50% dos portadores desenvolverão algum grau de retinopatia diabética, proporção que chega a aproximadamente 80% após 25 anos de doença. O paciente diabético tem quase 30 vezes mais chance de tornar-se cego. A recomendação é de avaliação com pupilas dilatadas desde o diagnóstico e acompanhamento regular subsequente, sem aguardar a queixa visual.
Outros fatores de risco que demandam atenção específica incluem história familiar de glaucoma (parentes de primeiro grau têm de 4 a 8 vezes mais chances de desenvolver a doença), miopia elevada (que aumenta o risco de deslocamento de retina, glaucoma e degeneração macular miópica), prematuridade (recém-nascidos com peso igual ou inferior a 1.500 g ou idade gestacional igual ou inferior a 32 semanas), uso prolongado de corticoides (30% a 40% dos indivíduos apresentam elevação da pressão intraocular) e uso de lentes de contato.
O documento também alerta para pacientes em uso de agonistas do receptor GLP-1, substância presente em medicamentos como Ozempic e Wegovy: estudos apontam possível associação com neuropatias ópticas e alterações da retinopatia diabética, exigindo consultas oftalmológicas regulares na rotina de cuidados.
Legislação e o risco do atendimento por não médicos
A Lei nº 12.842/2013 estabelece como privativas do médico, entre outras atividades, a determinação do prognóstico relativo ao diagnóstico de doenças e a emissão de laudo dos exames de imagem e dos procedimentos diagnósticos invasivos. O CBO recomenda que apenas profissionais com Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em Oftalmologia atuem na área.
Além da habilitação profissional, o documento alerta para a importância de que o ambiente do atendimento seja adequado. Consultas e exames de diagnóstico devem ser realizados em locais que atendam às exigências da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) quanto à estrutura física, equipamentos e condições sanitárias.
"O médico oftalmologista precisa integrar o acompanhamento da saúde ocular do indivíduo desde a infância, e não apenas o momento em que a queixa visual aparece. Quando a percepção de perda motiva a busca por atendimento, boa parte das doenças que causam cegueira já provocou danos estruturais irreversíveis", explica Maria Auxiliadora Frazão.
Sem a realização de exames como fundoscopia, biomicroscopia e tonometria, a avaliação fica incompleta e há risco de condições como glaucoma e catarata não serem identificadas. Esse tipo de atendimento, que não respeita o previsto na Lei nº 12.842/2013, retarda o início do tratamento efetivo, aumentando as chances de perda visual irreversível.
O documento do CBO chega em um momento crítico para a saúde ocular brasileira. Com o envelhecimento acelerado da população e a escalada de doenças crônicas como diabetes e hipertensão, a pressão sobre o sistema de saúde para ampliar o acesso a oftalmologistas qualificados tende a crescer. A pergunta que resta é se o SUS e os planos de saúde terão capacidade de absorver essa demanda preventiva antes que ela se transforme em custos muito maiores com reabilitação e perda de produtividade.
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