Eleições 2026

Debate Band em RO: cortes, ataques e promessas sem lastro

Dois minutos e meio por resposta, confrontos pessoais e repetição de pautas marcaram o primeiro debate ao governo. Transcrição completa revela o que as câmeras não mostraram

Debate Band em RO: cortes, ataques e promessas sem lastro
📷 Divulgação
📋 Em resumo
  • Primeiro debate entre candidatos ao governo de Rondônia durou 2h30 e foi transmitido pela Rondovisão TV (afiliada da Band) nesta terça (18).
  • Formato com respostas de 1min30s a 2min sabotou a profundidade: todos os seis candidatos foram cortados ao final de suas falas.
  • Confronto entre Samuel Costa e Expedito Netto teve acusações de "psicopatia", "golpe democrático" e traição partidária.
  • Adailton Fúria atacou Marcos Rogério com vídeo de gestante de Ji-Paraná; senador admitiu frustração por hospital não construído.
  • BR-364, pedágios, João Paulo II e Caerd dominaram o debate como lugares-comuns, sem propostas diferenciadas.
  • Samuel Costa foi o único a apresentar proposta disruptiva: taxar a soja — e foi vaiado em praça pública por isso.
  • Por que isso importa: O primeiro debate não definiu a corrida, mas revelou que nenhum dos seis candidatos está preparado para o confronto direto — e que o eleitor de Rondônia terá de escolher entre estilos, não entre projetos.
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O primeiro debate entre candidatos ao governo de Rondônia nas eleições de 2026, realizado pela Rondovisão TV nesta terça-feira (18), durou duas horas e meia e entregou menos do que prometeu. Os seis candidatos — Marcos Rogério (PL), Hildon Chaves (União Brasil), Adailton Fúria (PSD), Expedito Netto (PT), Samuel Costa (PSB) e Pedro Abib (MDB) — repetiram lugares-comuns, sofreram cortes constantes e protagonizaram mais ataques pessoais do que debates propositivos.

A transcrição integral do confronto, feita pelo Painel Político, revela detalhes que as câmeras não captaram: os avisos insistentes do mediador sobre o tempo, as falas truncadas, os pedidos de direito de resposta negados e a frase que pode definir o tom da campanha — "para de ser psicopata", dita por Samuel Costa a Expedito Netto.

O formato que sabotou o debate

Antes de analisar o conteúdo, é preciso entender o continente. O formato do debate foi desenhado em cinco blocos: perguntas temáticas sorteadas, confronto direto com tema livre, perguntas de entidades representativas, segundo confronto direto e considerações finais.

O problema foi o tempo. No primeiro bloco, cada candidato tinha 1 minuto e 30 segundos para responder perguntas complexas sobre saúde, educação, segurança, tecnologia e infraestrutura. No confronto direto, eram 45 segundos para perguntar, 2 minutos para responder, 1 minuto para réplica e 1 minuto para tréplica.

O resultado foi previsível: raciocínios truncados, promessas genéricas e a impossibilidade de detalhar qualquer proposta.

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"O senhor já tem 15 segundos", alertou o mediador a Hildon Chaves durante sua resposta sobre tecnologia. O ex-prefeito de Porto Velho mal havia começado a desenvolver seu raciocínio.

O monitor de tempo, posicionado abaixo da linha dos olhos dos candidatos, também gerou desconforto. Chaves pediu que o equipamento fosse elevado "para facilitar a visualização". A coordenação atendeu ao pedido no bloco seguinte — um detalhe técnico que diz muito sobre a improvisação do formato.

O episódio da energia: Fúria culpou a Energisa, a emissora retificou

O debate começou com atraso por causa de uma queda de energia. Adailton Fúria atribuiu o problema à Energisa, distribuidora de energia de Rondônia. Samuel Costa aproveitou o momento para confrontar Fúria no bloco de confronto direto.

"Fúria, o oitavo mandamento do velho testamento diz não levantarás falso testemunho. Anteriormente o senhor havia dito que o problema aqui da transmissão foi da Energisa. Os homens erram. Os grandes homens reconhecem quando erram", provocou Costa.

A produção do debate precisou retificar publicamente: "A falta de energia no início do debate ocorreu por uma questão interna aqui na emissora e não teve relação com a distribuidora de energia." A retificação foi lida duas vezes ao vivo — um constrangimento que Fúria precisou absorver diante das câmeras.

Cada candidato sob a lupa

Marcos Rogério (PL): O senador chegou ao debate carregando a maior rejeição medida até agora — 43% dos eleitores afirmam que não votariam nele de jeito nenhum, segundo levantamento divulgado pelo Painel Político. Sua estratégia foi tentar se posicionar como gestor realizador, mas foi encurralado por Adailton Fúria sobre a promessa de oito anos de construir um hospital em Ji-Paraná que nunca saiu do papel.

"O senhor virou vereador prometendo construir um hospital de Ji-Paraná. O senhor virou deputado federal prometendo. O senhor virou senador prometendo. E esse hospital não saiu do papel", disparou Fúria, exibindo o vídeo de Tatiana e Gael — uma gestante de Ji-Paraná que precisou viajar a Cacoal para dar à luz.

Marcos Rogério admitiu a frustração: "Isso também me deixa muito frustrado. É verdade que há muito tempo eu quero construir um novo hospital em Ji-Paraná. E é por isso que eu sou candidato a governador. Porque como parlamentar a gente pode mandar o recurso. Mas quem tem a caneta e o poder da execução é o gestor."

Adailton Fúria (PSD): O ex-prefeito de Cacoal tentou se posicionar como gestor municipal bem-sucedido — citando obras de saneamento, tarifa zero no transporte público e a maternidade municipal. Mas foi confrontado por Samuel Costa sobre sua relação com o governador Marcos Rocha, que o apoia.

Fúria tentou se distanciar: "Eu não sou continuidade de governo nenhum. Eu sou continuidade da gestão que eu vou fazer como governador do estado." A resposta não convenceu. Samuel Costa contra-atacou com a analogia mais dura do debate: "Parece que o senhor quer tratar o governador Marcos Rocha como uma garota de programa na madrugada. Aí quando é a luz do dia, não quer assumir o governo."

Fúria reagiu visivelmente incomodado: "Isso é ruim, cara. Um homem cristão, um homem que enfrentou pandemia, um governador reeleito. Isso é desnecessário num debate como esse."

Hildon Chaves (União Brasil): O ex-prefeito de Porto Velho apostou no discurso de gestão e combate à corrupção, mas foi o candidato mais genérico do debate. Suas respostas sobre saúde, tecnologia e infraestrutura se resumiram a "gestão efetiva", "combate à corrupção" e "eficiência dos recursos" — sem detalhar como.

Na tréplica contra Pedro Abib sobre pedágios, Hildon tentou se posicionar como o candidato da responsabilidade: "Eu me sinto desconfortável quando candidatos aqui recentemente garantiram, prometeram resolver a questão do pedágio. Isso é falta de responsabilidade e de respeito com a população. Isso denota fraqueza moral."

Expedito Netto (PT): O petista foi o alvo preferencial de Samuel Costa, que o acusou de traição partidária, dissimulação e de tentar derrubar candidaturas do PSB, incluindo a senadora Neidinha Suruí. Netto tentou se manter no campo institucional: "Meu partido é o Partido dos Trabalhadores. É o 13. O seu é o 40. Se você tem alguma coisa pra resolver com o partido, eu acho que não é comigo."

Mas Costa não recuou: "Tu tem que vir aqui e dizer pra executiva nacional tirar essa perseguição esdrúxula. Não é no tapetão. Eu sei o que é que tu quer fazer. Tu quer fazer 50, 80 mil votos pra tu votar pra Secretaria Nacional e ficar de boa."

Samuel Costa (PSB): Foi o candidato mais agressivo do debate — e também o que apresentou a proposta mais polêmica. No bloco das entidades, ao responder à CDL sobre fortalecimento do comércio, Costa propôs taxar a produção de soja:

"Eu vou tributar a turma da soja. Podem me vaiar, me detonar nas redes sociais, mas passou da hora da gente fazer o que o Mato Grosso, o Mato Grosso do Sul, Pará fez. Essa turma da soja gera que tipo de emprego? É só trabalho precário, análogo, intermitente. Não gera emprego."

Foi o único momento em que um candidato confrontou diretamente o agronegócio — setor que representa a maior fatia do PIB rondoniense. A reação de Hildon Chaves no comentário foi de defesa do agro: "Toda a cadeia da soja, eu respeito o seu posicionamento, mas ela, por si só, está transformando o nosso estado de Rondônia."

Pedro Abib (MDB): O emedebista foi o candidato que mais tentou se diferenciar pelo conteúdo técnico. Suas respostas sobre regularização fundiária, ciência e tecnologia para o campo e reforma tributária foram as mais estruturadas do debate.

"Riqueza gera riqueza. Hoje nós temos seis mil quinhentas e cinquenta propriedades com CAR iniciado, sendo que só vinte por cento delas já teve uma análise. Isso é nefasto para a economia de Rondônia", afirmou Abib.

Mas sua postura técnica não gerou confronto nem destaque midiático. No contexto de um debate marcado por ataques pessoais, Abib ficou invisível.

O confronto mais duro: Samuel Costa vs Expedito Netto

O bloco de confronto direto entre Samuel Costa e Expedito Netto foi o ponto mais baixo — e mais revelador — do debate. O que começou como uma pergunta sobre a Caerd se transformou em uma sequência de acusações pessoais.

Costa acusou Netto de tentar cooptá-lo com cargo federal: "Tu implorou para o ministro Paulo me prometer emprego de secretário nacional do consumidor para eu abrir mão da candidatura."

Depois, atacou a trajetória política de Netto: "Há dez anos atrás, tu votou pelo impeachment da Dilma. Tu tinha que aproveitar essa oportunidade e pedir perdão a todo o eleitorado do PT, que está te apoiando agora. Depois, tu tentou derrubar a Luciana Oliveira, senadora do PT."

Netto tentou se manter institucional: "Samuel, eu tenho um grande apreço pela sua pessoa. Agora, tudo o que você falou são ataques pessoais e que eu não tô aqui pra responder."

Mas Costa não parou. Na tréplica, disparou: "Tu é poder. Quando tu era deputado federal, tu tava com o Bolsonaro. Tu não é nem esquerda nem direita. Tu é poder." E encerrou com a frase que deve dominar as redes sociais: "Você é frio, cara. Para de ser psicopata. Isso é doença. Vão se tratar, viu? Vocês não tão legais."

O pedido de direito de resposta de Netto foi negado pela comissão jurídica do debate.

O bloco das entidades: o que o setor produtivo cobrou

O terceiro bloco do debate trouxe perguntas de entidades representativas: Fecomércio, Aprosoja, CDL, Cremero, Fiero e Sebrae. As perguntas foram mais técnicas e específicas, mas as respostas seguiram o padrão genérico dos blocos anteriores.

A Aprosoja questionou sobre escoamento da produção. Marcos Rogério respondeu com dados sobre estradas: "Rondônia tem pouco mais de 6, entre 6 e 7 mil quilômetros de rodovias estaduais. Só 1.500 quilômetros hoje tem asfalto. O resto é tudo estrada de chão." Pedro Abib complementou com o dado da rodovia 421, onde o gado chega "todo machucado" ao frigorífico.

A Fiero trouxe a questão da reforma tributária e a extinção dos incentivos fiscais até 2032. Adailton Fúria prometeu "acabar com o pedágio" como solução — promessa que Hildon Chaves classificou como "fraqueza moral". Marcos Rogério criticou a reforma federal: "O imposto aumentou. O governo continuou aumentando o imposto."

O Cremero perguntou sobre o PCCS dos médicos e terceirização. Hildon Chaves respondeu com o discurso de gestão. Samuel Costa complementou com a denúncia de "cartelização na saúde" e "pejotalização" — "Ninguém quer trabalhar na medicina para ganhar um salário de 25 mil reais porque essa turma criou tal da pejotalização, que é o desmonte da saúde."

A BR-364 e os pedágios: a pauta que todos prometem e ninguém resolve

A BR-364 apareceu em praticamente todas as falas do debate. A questão dos pedágios foi o tema que mais gerou promessas vazias. Adailton Fúria prometeu acabar com os pedágios "implantados pela política". Hildon Chaves questionou a viabilidade. Marcos Rogério defendeu "estradas boas" como alternativa.

Nenhum candidato apresentou um plano concreto para a rodovia — se pedágio, se concessão, se investimento público direto. O tema foi tratado como slogan, não como política pública.

O fantasma de Marcos Rocha: continuísmo ou ruptura?

A relação com o governo Marcos Rocha foi o fio condutor de vários confrontos. Adailton Fúria, apoiado pelo governador, tentou se posicionar como "novo" sem romper com o atual governo. Samuel Costa explorou essa contradição com a analogia da "garota de programa".

A pergunta de fundo que o debate não respondeu é: o governo Rocha é um ativo ou um passivo eleitoral? Fúria precisa do apoio do governador para se viabilizar, mas precisa se distanciar dele para não herdar a rejeição. Essa equação não foi resolvida no debate — e deve dominar os próximos confrontos.

As considerações finais: biografias, apelos e a frase de Santa Agustina

No último bloco, cada candidato teve 2 minutos para considerações finais. As falas seguiram o padrão do debate: mais emoção do que conteúdo.

Samuel Costa fez o discurso mais elaborado, citando Santa Agustina: "A esperança tem duas filhas lindas e belas: a indignação e a coragem. A indignação nos ensina a não aceitar as coisas como são e a coragem nos ensina a enfrentá-las." Também acusou um candidato não identificado de "golpe democrático" e "vilipendiar o estado democrático de direito".

Pedro Abib apostou na apresentação pessoal: "Eu sou professor. Eu sou médico veterinário. Advogado. Eu sou pai de duas filhas lindas. Sou esposo. Eu sou cristão. Mas eu sou cristão de fé vivida."

Marcos Rogério fez o apelo emocional sobre sua origem: "Eu nasci aqui em Rondônia numa linha rural, numa época que não tinha nem energia elétrica. E eu já ouvia naquela época há cerca de 40 anos que esse estado seria o estado mais forte, mais rico do país."

Expedito Netto agradeceu à família e ao presidente Lula. Adailton Fúria citou realizações em Cacoal.

Hildon Chaves relembrou sua trajetória de promotor a empresário da educação.

O que cada candidato precisa corrigir para o próximo debate

O primeiro debate não definiu a corrida, mas revelou fragilidades claras:

Marcos Rogério precisa lidar com a rejeição de 43% e com as acusações de promessas não cumpridas. Sua estratégia de "caneta de governador" não convenceu.

Adailton Fúria precisa resolver a equação do continuísmo: como ser apoiado por Marcos Rocha sem herdar a rejeição do governo.

Hildon Chaves precisa sair do discurso genérico de "gestão e anticorrupção" e apresentar propostas concretas com números e cronogramas.

Expedito Netto precisa sobreviver ao bombardeio de Samuel Costa e se posicionar como alternativa viável da esquerda.

Samuel Costa precisa modular a agressividade — ou transformá-la em vantagem eleitoral, dependendo da reação do eleitorado.

Pedro Abib precisa encontrar um momento de confronto que o tire da invisibilidade técnica.

A pergunta que o debate não respondeu

O primeiro debate do Band Eleições 2026 em Rondônia funcionou como um espelho: mostrou ao eleitor que nenhum dos seis candidatos tem, hoje, um projeto de governo diferenciado e defensável em 90 segundos.

A repetição de pautas — BR-364, pedágios, João Paulo II, Caerd — não é coincidência. É o sintoma de uma campanha que ainda não encontrou seu eixo. Os candidatos sabem o que o eleitor quer ouvir, mas não sabem como entregar.

O eleitor rondoniense, pragmático por tradição, vai observar os próximos debates com uma pergunta simples: quem vai resolver o que prometeu — ou quem vai apenas prometer novamente?

A resposta não virá em 1 minuto e 30 segundos. Mas virá em 4 de outubro.

Veja a íntegra:



Versão em áudio disponível no topo do post.

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