Debate dos vices em Rondônia: ataques e saúde dominam
Enquanto titulares fizeram debate morno na Band, vices protagonizaram confrontos diretos com ataques pessoais. Saúde dominou novamente, sem propostas novas
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- Rondoniaovivo realizou na noite de terça (18) o primeiro debate entre os seis candidatos a vice-governador de Rondônia.
- Sargento Machado protagonizou o momento mais agressivo da campanha: chamou adversários de "comédia" e "traíra" e disse conhecer "vagabundo só de olhar".
- Saúde dominou o debate, repetindo o padrão do confronto entre titulares: filas, cirurgias atrasadas e o fantasma do João Paulo II.
- Cirone Deiró atacou a gestão estadual: orçamento dobrou de R$ 9 bi para R$ 18 bi sem entregas visíveis.
- Por que isso importa: O debate dos vices revelou mais sobre as chapas do que o confronto dos titulares — e expôs que a campanha de 2026 em Rondônia terá confronto direto, não apenas discurso de palanque.
Se o debate entre os candidatos ao governo na Band foi morno, o confronto entre os vices, realizado na noite de terça-feira (18) pelo Rondoniaovivo, pegou fogo. Em quase duas horas de transmissão, os seis candidatos a vice-governador protagonizaram ataques pessoais diretos, acusações de traição e um embate sobre o aumento do ICMS que os titulares evitaram. A saúde, mais uma vez, dominou a pauta — com diagnósticos duros, mas sem propostas que saíssem do lugar-comum.
O contraste: titulares mornos, vices em ebulição
O apresentador Ivanilson Frazão abriu o debate com um recado direto ao eleitor: "muita gente fala que o vice não tem importância. Isso é um grande engano". A frase funcionou como profecia. Enquanto os cabeças de chapa se limitaram a discursos genéricos na Band, os vices partiram para o confronto.
A diferença está no formato e na postura. Com 30 segundos para perguntar, 1 minuto e 30 segundos para responder e réplicas de 45 segundos, os vices não tiveram tempo para rodeios. E, diferente dos titulares — que ainda medem palavras para não perder o eleitor moderado —, os vices jogaram para a plateia já convertida.
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O debate teve acompanhamento jurídico da OAB, representada pelos advogados Vanessa Esber e Nelson Maciel, e anunciou um próximo confronto entre os candidatos ao governo marcado para 18 de setembro, na Praça das Caixas d'Água, em Porto Velho.
Quem são os seis vices na disputa
O debate apresentou ao eleitor seis perfis distintos:
Sargento Machado, vice de Samuel Costa (PSB), é policial militar da Zona Leste de Porto Velho e fez da segurança pública sua bandeira única.
Delegado Rodrigo Camargo, vice de Marcos Rogério (PL), foi delegado da Polícia Civil por dez anos e deputado estadual, com forte atuação na pauta das pessoas com deficiência — "não foi escolha política, foi escolha do meu coração", disse, ao se apresentar como pai atípico.
Cirone Deiró, vice de Hildon Chaves (União Brasil), é deputado estadual, mato-grossense de nascimento, com família em Rondônia desde 1976.
Luiz Teodoro, vice de Expedito Netto (PT), é advogado e ex-presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB.
Everton Leoni, vice de Adailton Fúria (PSD), é jornalista, ex-vereador e ex-deputado estadual.
Mauro Santos, vice de Pedro Abib (MDB), é procurador de carreira do município de Ariquemes, filho de agricultores, e apresentou-se como "Dr. Peão".
Sargento Machado: o momento mais agressivo da campanha
O ponto alto — ou mais baixo, dependendo da leitura — do debate foi a fala de Sargento Machado. Questionado por Mauro Santos sobre como enfrentaria a crise fiscal do estado, o policial militar abandonou o tema e partiu para o ataque pessoal.
"Eu conheço o faccionado só de olhar. Eu conheço vagabundo só de olhar", disparou Machado, antes de listar adversários como alvos.
Machado chamou o Delegado Camargo de "comédia" e "traíra", acusando-o de não ter apoio da Polícia Civil. A Expedito Netto, atribuiu o rótulo de "traíra" por ter votado pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. A Cirone Deiró, dirigiu a acusação mais dura: "o senhor é acostumado a mamar nas tetas públicas".
O tom rompeu com qualquer padrão de debate eleitoral e transformou o bloco em um acerto de contas. Mauro Santos, alvo indireto da fala ("eu não sei do que o senhor se alimenta", disse Machado), respondeu com ironia: "eleitores, vejam do que a política não precisa mais".
O episódio deve render pedidos de direito de resposta e, possivelmente, representações na Justiça Eleitoral. Mas cumpriu seu propósito: colocou Machado — até então um desconhecido da maioria do eleitorado — no centro da conversa.
ICMS e servidores: o embate Cirone x Camargo
O confronto mais técnico da noite opôs Cirone Deiró e Delegado Camargo em torno do aumento do ICMS aprovado na Assembleia Legislativa. Cirone negou ter votado a favor do reajuste, afirmando estar em Cacoal no dia da votação, e contra-atacou: acusou Camargo de ter deixado o projeto ser votado, quando poderia ter pedido vista, para depois posar diante das câmeras como único contrário ao aumento.
"É um tipo de política que eu não concordo. A gente acerta votando, a gente erra votando, mas tem que ter dignidade", afirmou Cirone.
Camargo respondeu deslocando o tema para os servidores públicos: acusou o governo de beneficiar "as castas superiores" com a chamada "Banga podre" da remuneração e prometeu, em nome da chapa com Marcos Rogério, retomar a revisão geral anual — congelada desde 2014 —, criar um programa de consignado com juros de 1% ao ano e um plano de saúde para os servidores.
Saúde: o tema que se repetiu (e por quê)
Assim como no debate dos titulares, a saúde dominou as falas. E não por acaso: é o problema mais citado nas ruas e o mais difícil de responder sem constrangimento.
Luiz Teodoro trouxe os dados mais duros da noite. Citou relatório do Tribunal de Contas do Estado segundo o qual, a cada mil crianças nascidas em Rondônia, 17 morrem antes de completar um ano. E narrou o caso de um jovem de Guajará-Mirim que, após quatro anos esperando um psiquiatra, tirou a própria vida.
"Por que se constrói depressa e rápido o Tribunal de Justiça, um palácio do governador, o prédio da Assembleia? E por que não priorizar a saúde?", questionou Teodoro.
Everton Leoni prometeu uma "revolução na regulação", com fila classificada por urgência, telemedicina e a construção do novo hospital de urgência — "é impossível que Fúria construiu dois hospitais em Cacoal e não vá construir um em Porto Velho". Cirone Deiró falou em interiorização do atendimento. Mauro Santos defendeu concurso público e valorização dos profissionais da saúde.
Propostas novas, porém, não apareceram. O debate dos vices repetiu o diagnóstico do debate dos titulares: todos sabem qual é o problema; nenhum mostrou como resolvê-lo.
Orçamento dobrou, entregas não apareceram
A crítica mais estrutural da noite veio de Cirone Deiró, que apontou a contradição da gestão estadual:
"Quando eu entrei na Assembleia, o governo tinha nove bilhões de orçamento. Sete anos e meio depois, está 18 bilhões. E nós não vemos obras importantes no estado de Rondônia."
A fala ecoa o discurso de quase todos os candidatos ao governo — com uma diferença importante: Cirone é deputado estadual e integra a base que sustentou o atual governo na Assembleia. A contradição entre criticar o orçamento sem entregas e ter votado com o governo não passou despercebida e pode ser explorada pelos adversários nos próximos confrontos.
Agricultura familiar: o tema de abertura
O primeiro confronto do debate, sorteado, tratou de agricultura familiar. Cirone Deiró perguntou; Mauro Santos respondeu com números: Rondônia tem 120 mil propriedades rurais, 80% delas pequenas. Prometeu assistência técnica, redução do custo de produção e apoio financeiro ao pequeno agricultor — e apresentou-se como "Dr. Peão", orgulhoso das origens no campo.
O tema, porém, ficou em segundo plano diante da escalada de ataques que dominaria os blocos seguintes.
O que o debate dos vices revela sobre as chapas
O confronto do Rondoniaovivo funcionou como radiografia das chapas:
A chapa de Samuel Costa aposta no confronto direto e na retórica da segurança — com todos os riscos que isso traz. A de Marcos Rogério tenta combinar autoridade policial com sensibilidade social. A de Hildon Chaves vende experiência legislativa, mas carrega o peso da contradição governista. A de Expedito Netto faz oposição frontal com discurso de direitos humanos. A de Fúria aposta no discurso de gestão. E a de Pedro Abib tenta se posicionar como a "nova política" contra os nomes repetidos.
O dado mais relevante: nenhum vice defendeu com entusiasmo o atual governo estadual. Nem mesmo Cirone Deiró, cujo candidato é o ex-prefeito da capital e ex-integrante da base governista. O distanciamento do Palácio Rio Madeira parece ser o único consenso entre as seis chapas.
A pergunta que fica
O debate dos vices mostrou que a campanha de 2026 em Rondônia será mais agressiva do que o confronto dos titulares sugeriu. Se Sargento Machado abriu a temporada de ataques pessoais logo no primeiro encontro, o eleitor deve se preparar: os próximos debates terão mais confronto do que proposta.
A questão é se o ataque rende voto — ou se o eleitor rondoniense, pragmático por tradição, vai cobrar dos vices aquilo que os titulares também não entregaram: soluções concretas para um estado com orçamento de R$ 18 bilhões e filas de quatro anos para uma cirurgia.
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