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Decisão de Eduardo Bolsonaro de pedir licença e morar nos EUA gera reação negativa nas redes e divide opiniões

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O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, anunciou nesta semana que se licenciará temporariamente de seu mandato na Câmara dos Deputados e se mudará para os Estados Unidos. A decisão, justificada pelo parlamentar como uma resposta à suposta "perseguição" sofrida por ele e seu pai no Brasil, gerou uma onda de reações negativas nas redes sociais e intensificou o debate político no país. Segundo levantamento da consultoria Bites, publicado pelo jornal O Globo, 60% das menções ao caso online demonstraram desaprovação, enquanto apenas 13,5% foram favoráveis, com 26,5% mantendo-se neutras.

Em um vídeo divulgado em suas redes sociais na terça-feira, 18 de março, Eduardo afirmou que sua saída do Brasil é motivada por um ambiente de hostilidade criado, segundo ele, pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes. "Se Alexandre de Moraes quer prender meu passaporte ou mesmo me prender para que eu não possa mais denunciar seus crimes nos EUA, então é justamente aqui que vou ficar e trabalhar mais do que nunca", declarou o deputado. Ele também anunciou que abdicará de seu salário parlamentar durante o período de licença, com o objetivo de "se dedicar integralmente" à busca por sanções contra o que chama de "violadores dos direitos humanos" no Brasil.

Repercussão nas redes e análise política

A reação online foi imediata. De acordo com a análise da Bites, que monitorou 354 mil postagens, a maioria dos internautas criticou a decisão, questionando a legitimidade dos argumentos apresentados por Eduardo. "Os argumentos dele não ficaram tão claros para os aliados ao ponto deles saírem em defesa dele", observou Manoel Fernandes, diretor da consultoria, ao O Globo. A polarização política, marca registrada do cenário brasileiro recente, também se refletiu nas redes: enquanto apoiadores do bolsonarismo enxergaram a atitude como uma resistência a supostos abusos judiciais, opositores a classificaram como uma "fuga covarde".

Parlamentares de esquerda foram rápidos em reagir. O deputado Rogério Correia (PT-MG), vice-líder do governo Lula na Câmara, chamou Eduardo de "covarde" e sugeriu que a licença seria uma tentativa de escapar de responsabilidades no Brasil enquanto "conspira contra o país" nos EUA. Já Lindbergh Farias (PT-RJ), líder do PT na Câmara, celebrou a decisão como uma vitória política, destacando que ela impede Eduardo de assumir a presidência da Comissão de Relações Exteriores, cargo para o qual seu nome vinha sendo cotado. "A fuga de Eduardo Bolsonaro é uma vitória a respeito da impossibilidade de ele assumir a Comissão", escreveu Farias no X.

Por outro lado, a mídia internacional interpretou o movimento de maneira distinta. Uma reportagem do The New York Times intitulada "Filho de Jair Bolsonaro diz que buscará asilo nos Estados Unidos" sugeriu que a mudança pode ser uma estratégia calculada para reforçar a narrativa bolsonarista de vitimização e buscar apoio no exterior. Fernandes, da Bites, reforça essa percepção: "A mídia americana, mesmo a mais liberal, está comprando a ideia do asilo político. Isso indica que o movimento dele não foi intempestivo, existe uma lógica sendo construída."

Contexto e motivações

A decisão de Eduardo ocorre em um momento delicado para o bolsonarismo. Na próxima terça-feira, 25 de março, a Primeira Turma do STF analisará uma denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra Jair Bolsonaro por suposta tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. Caso aceita, o ex-presidente se tornará réu, o que pode intensificar a pressão sobre a família e seus aliados. Eduardo, que não é investigado diretamente nesse caso, responde apenas a processos por difamação no STF, mas alega que sua permanência no Brasil o coloca em risco.

Fontes próximas ao deputado, citadas pelo Valor Econômico, revelam que ele já vinha articulando sua estadia nos EUA desde o fim de fevereiro, quando viajou ao país pouco antes do Carnaval. Nos últimos 19 dias, Eduardo se reuniu com autoridades da administração de Donald Trump e participou de eventos conservadores, como a Conservative Political Action Conference (CPAC). Seu objetivo, segundo aliados, é pressionar por sanções contra Moraes e articular um projeto na Câmara dos Representantes dos EUA que poderia barrar a entrada do ministro no país.

O Partido Liberal (PL), ao qual Eduardo é filiado, emitiu uma nota afirmando que "recebe com tristeza" a decisão, mas reiterou seu respeito ao parlamentar. "Foi uma decisão pessoal e corajosa", disse o deputado Altineu Côrtes (PL-RJ), vice-presidente da Câmara, ao O Globo. Ele esclareceu que a escolha não foi debatida com a cúpula do partido. Na tarde desta quarta-feira, o deputado Filipe Barros (PL-PR) foi eleito presidente da Comissão de Relações Exteriores. Eduardo havia indicado o nome do deputado Luciano Zucco (PL-RS).

Implicações e futuro

A licença de Eduardo Bolsonaro, que não tem prazo definido, levanta questões sobre seu futuro político e o impacto no bolsonarismo. Pela legislação brasileira, ele não perde o mandato durante o afastamento, mas um suplente só será convocado se a licença ultrapassar 120 dias. Enquanto isso, o deputado planeja permanecer nos EUA, onde seu visto atual de 90 dias pode ser estendido caso ele solicite asilo político, uma possibilidade que já foi ventilada em entrevistas.

Analistas políticos veem a movimentação como uma tentativa de manter o bolsonarismo vivo no cenário internacional, especialmente com a reeleição de Donald Trump fortalecendo laços entre a direita brasileira e americana. "Se for um plano estruturado, poderá gerar um encadeamento de eventos nos EUA", avalia Fernandes, da Bites, sugerindo que Eduardo poderia ganhar espaço em veículos conservadores como a Fox News. Por outro lado, críticos apontam que a ausência de Eduardo no Brasil pode enfraquecer sua base eleitoral em São Paulo, onde foi reeleito em 2022 com mais de 1,2 milhão de votos.

Enquanto o STF se prepara para julgar Jair Bolsonaro e a oposição intensifica suas críticas, a decisão de Eduardo Bolsonaro coloca mais um capítulo na saga da família que dominou a política brasileira na última década. Resta saber se sua estratégia nos EUA trará os resultados esperados ou se consolidará a percepção de que, como disse Rogério Correia, "a fruta nunca cai longe do pé".