Poder e Bastidores

Discurso de Lula na ONU: defesa da soberania e recado aos autocratas

Por Rodrigo Augusto Prando*

Compartilhar: WhatsApp X LinkedIn

Foi assaz esperado o discurso de Lula na 80ª Assembleia Geral da ONU. E tal expectativa deu-se devido ao momento histórico vivido, no Brasil e no mundo, mormente, por conta da política de Donald Trump, presidente dos EUA.

Historicamente, cabe ao Brasil abrir os trabalhos da ONU com o discurso inaugural do Chefe de Estado, portanto, coube a Lula, pela oitava vez, esse relevante papel no plano internacional. Ao usar o espaço para discursar, os líderes políticos costumam conjugar, retoricamente, fatos internos de seus países e elementos atinentes à conjuntura mundial. Com Lula não foi diferente. Além disso, o discurso costuma ser analisado em duas dimensões: conteúdo e forma.

Havia uma preocupação ligada à forma discursiva de Lula: ponderada ou agressiva, suave ou contundente. O presidente brasileiro não citou Trump em nenhum momento, mas deu seu recado de forma contundente, todavia, sem agressividade. Lula apresentou aquilo que o mundo presenciou como a guinada de um multilateralismo para um tipo de unilateralismo arrogante dos EUA.

O tarifaço trumpista e os ataques à soberania brasileira, bem como a aplicação de sanções como a Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes e sua família, cancelamento de vistos de autoridades brasileiras, foram abordados por Lula. E, em seu pronunciamento, deixou claro que a soberania, a democracia e as preservações de nossas instituições são inegociáveis. Afirmou, ainda, que o ex-presidente Jair Bolsonaro foi julgado, com plenos direitos garantidos, e condenado por crimes graves de atentado à democracia.

Lula fez, ainda, defesa de uma ordem mundial distante da polarização que foi característica do século XX e asseverou que o mundo conta, hoje, com múltiplos atores globais que merecem voz e respeito. Defendeu, também, a ONU e sua missão histórica; fez referência à fome que ainda mata milhares de pessoas no mundo e enfatizou a necessidade de proteção da infância. Em uma frase de efeito aduziu: “a pobreza é tão inimiga da democracia quanto o extremismo”. Não deixou de criticar as “big techs”, que usam as redes sociais para lucrar, mas não querem as responsabilidades atinentes ao negócio. O presidente disse que “regular não é restringir a liberdade de expressão” (novamente, crítica a Trump).

Ademais, no plano bélico, condenou o ataque do Hamas e, mais ainda, a reação, segundo sua visão, de Israel soterrando milhares de mulheres e crianças em um genocídio em uma Gaza destruída; condenou, novamente, a guerra entre Rússia e Ucrânia. Fez menção à diferença entre crime organizado e organizações terroristas (e isso por conta das ações militares dos EUA em territórios estrangeiros) e defendeu, por exemplo, Cuba, listada pelos americanos como um país que patrocina terrorismo.

Ao justificar seu governo e realizações, o presidente brasileiro indicou a saída do país do mapa da fome, a queda do desmatamento e a realização da COP 30 em Belém, chamando-a de COP da verdade, da saída das intenções para uma prática conservacionista.

Em síntese, no conteúdo e na forma, o discurso de Lula foi muito bem articulado. Foi inúmeras vezes aplaudido. O presidente sente-se à vontade neste espaço de poder e foi absolutamente claro em demonstrar como o governo Trump tem contribuído para gerar instabilidade política e econômica no mundo e, especialmente, esgarçado às boas relações com o Brasil, que datam de 200 anos.

Lula defendeu a soberania brasileira, deu claro recado aos autocratas e abordou os pontos fundamentais que trazem agruras e esperanças aos atores globais neste quarto de século.

Rodrigo Augusto Prando, Professor e Pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM). Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp