EUA assumem controle da única mina de terras raras do Brasil em negócio de US$ 2,8 bilhões
Transação com a Serra Verde, em Goiás, combina dinheiro, ações e financiamento estatal americano — e coloca o Brasil no centro da disputa geopolítica com a China por minerais críticos
📋 Em resumo ▾
- USA Rare Earth adquire 100% da Serra Verde, única mineradora de terras raras em operação no Brasil, em negócio avaliado em US$ 2,8 bilhões
- Estrutura do pagamento: US$ 300 milhões em dinheiro + 126,9 milhões de ações novas da compradora; fechamento previsto para o terceiro trimestre de 2026
- Agência estatal americana (DFC) injetou US$ 565 milhões com cláusulas de prioridade de fornecimento para os EUA e opção de participação acionária
- Produção atual da Serra Verde: cerca de 6.500 toneladas anuais de óxidos de terras raras (TREO), com meta de suprir mais da metade do mercado global fora da China até 2027
- Por que isso importa: O acordo consolida a estratégia de Washington para reduzir dependência da China — que controla mais de 70% do refino mundial — e posiciona o Brasil como peça-chave na nova corrida por minerais críticos.
A USA Rare Earth (empresa americana de mineração e processamento de minerais críticos) anunciou em 20 de abril de 2026 a aquisição definitiva da Serra Verde (mineradora brasileira de terras raras sediada em Goiás) por um valor patrimonial de aproximadamente US$ 2,8 bilhões. A transação, que deve ser concluída no terceiro trimestre deste ano, combina pagamento de US$ 300 milhões em dinheiro com a emissão de 126,9 milhões de novas ações da compradora. "Temos um offtake até o final de 2026 de venda para a Ásia. Agora há discussões em andamento sobre daí para a frente. Temos o mercado aberto." — afirma Ricardo Grossi, COO da Serra Verde, em entrevista ao Brazil Journal. A operação marca um ponto de inflexão na geopolítica dos minerais críticos. Com a aquisição, os Estados Unidos passam a controlar a única mina de terras raras em larga escala em operação no Brasil — país que detém a segunda maior reserva mundial desses elementos.
Como funciona a estrutura do negócio
A transação não se resume a uma compra tradicional. Além dos US$ 300 milhões em dinheiro e das ações emitidas, a Serra Verde já havia garantido, em fevereiro de 2026, um pacote de financiamento de US$ 565 milhões da DFC (Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos EUA), agência governamental americana. Esse financiamento vem com cláusulas estratégicas: prioridade de fornecimento da produção para o mercado americano e uma opção para que o governo dos EUA adquira participação acionária minoritária na mineradora. Na prática, Washington não apenas financiou a expansão da Serra Verde, mas assegurou acesso preferencial a um insumo crítico. A produção atual da unidade de Minaçu, no norte de Goiás, gira em torno de 6.500 toneladas métricas anuais de óxido total de terras raras (TREO). A meta, com os investimentos em otimização, é atingir capacidade nominal plena até o final de 2027, quando a operação deverá representar mais da metade de todo o suprimento mundial de terras raras pesadas fora da China.
Por que as terras raras importam — e por que a China domina
Terras raras são um grupo de 17 elementos químicos essenciais para a fabricação de ímãs permanentes, baterias de veículos elétricos, turbinas eólicas, smartphones e sistemas de defesa avançados. Apesar do nome, não são necessariamente escassas — mas seu processamento é complexo, caro e ambientalmente sensível.Hoje, a China controla mais de 70% da produção global de minério e cerca de 90% da capacidade de refino e separação desses elementos. Essa concentração gera vulnerabilidade estratégica para EUA, Europa e outros blocos que dependem desses insumos para suas indústrias de ponta."Quando vim para cá, eu mesmo nunca tinha ouvido falar muito em terras raras, e eu sou engenheiro de minas. Mas isso entrou em uma escalada de atenção desde o ano passado, e despertou interesse." — declara Ricardo Grossi, COO da Serra Verde. A entrada dos EUA no capital da Serra Verde é, portanto, menos uma operação financeira e mais um movimento de política industrial. Ao garantir fornecimento prioritário e opção de equity, Washington busca criar uma cadeia de suprimentos alternativa à chinesa — e o Brasil, com suas reservas e capacidade operacional já em marcha, tornou-se peça central desse tabuleiro.
O que fica para o Brasil — e o que pode escapar
A venda da Serra Verde levanta questões sobre soberania, desenvolvimento tecnológico e captura de valor. A mineradora foi fundada há quase duas décadas em Minaçu (GO) e, até recentemente, tinha como acionistas fundos de private equity americanos (Denham Capital, Energy & Minerals Group) e britânicos (Vision Blue). Com a transação, o controle acionário passa integralmente para a USA Rare Earth. O financiamento do DFC, embora benéfico para a expansão da produção, vincula parte do output futuro ao mercado americano. Resta saber se o Brasil conseguirá reter etapas de maior valor agregado da cadeia — como separação, metalurgia e fabricação de componentes — ou se seguirá exportando óxidos para processamento no exterior. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), chegou a se reunir em Washington, no início de fevereiro, com o vice-secretário de Estado dos EUA, Christopher Landau, para discutir parcerias em minerais críticos. O encontro sinaliza o interesse do estado em atrair investimentos, mas também expõe a assimetria: enquanto o Brasil oferece o recurso, os EUA definem as regras do jogo.
Cenário futuro: dependência, oportunidade ou ambos?
A aquisição da Serra Verde pelos EUA não é um fim, mas um capítulo inicial. O fechamento previsto para o terceiro trimestre de 2026 ainda depende de aprovações regulatórias no Brasil e nos Estados Unidos. Enquanto isso, a Serra Verde mantém contratos de venda com compradores asiáticos até o fim deste ano.Para o leitor brasileiro, a pergunta estratégica é: como transformar vantagem comparativa (reservas) em vantagem competitiva (cadeia industrial completa)? A resposta exigirá políticas públicas coordenadas, investimento em P&D e capacidade de negociação em um mercado global cada vez mais fragmentado por interesses geopolíticos. O Brasil tem o minério. Tem a operação em escala. Agora precisa decidir que tipo de parceiro quer ser — e que valor pretende reter em seu próprio território.
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