Ex-diretor da PF é indiciado por corrupção e lavagem na Operação Rejeito
Delegado Rodrigo Teixeira, ex-diretor de Polícia Administrativa da PF, é acusado de atuar como sócio oculto em empresa de fachada que negociava direitos minerários em troca de influência institucional — incluindo obstrução de investigações e vazamento de dados sigilosos
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- O delegado Rodrigo de Melo Teixeira, ex-diretor de Polícia Administrativa da PF e ex-superintendente em Minas Gerais, foi indiciado por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e embaraço à investigação de organização criminosa
- A PF aponta que Teixeira atuava como sócio oculto da empresa Gmais Ambiental, registrada em nome da esposa, e controlava negociações de direitos minerários que já renderam R$ 4 milhões
- Mensagens interceptadas mostram o delegado orientando reuniões, gerenciando operações financeiras e articulando indicações estratégicas para cargos públicos em Minas Gerais
- O indiciamento é um desdobramento da Operação Rejeito, que desbaratou esquema bilionário de corrupção no setor de mineração envolvendo a ANM, a FEAM e dezenas de empresas de fachada
- Por que isso importa: Um delegado da cúpula da principal instituição de investigação criminal do país integrava o núcleo central de uma organização criminosa — e usava o cargo para proteger o próprio esquema
A Polícia Federal indiciou o delegado Rodrigo de Melo Teixeira, ex-diretor de Polícia Administrativa da instituição e ex-superintendente em Minas Gerais, por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e embaraço à investigação de organização criminosa. O indiciamento, formalizado em agosto de 2026, é um desdobramento da Operação Rejeito e expõe como um agente do mais alto escalão da corporação se infiltrou no núcleo de um esquema bilionário de fraudes no setor de mineração — usando o próprio cargo como moeda de troca.
Como o delegado virou sócio oculto de uma empresa de fachada
Para os investigadores, Teixeira atuava "como servidor corrompido no núcleo central da organização criminosa". A PF aponta que o delegado controlava negociações com investidores e empresários minerários, orientava reuniões e gerenciava operações financeiras ligadas à Gmais Ambiental, empresa registrada formalmente em nome da esposa, Daniela Santos Wandeck, mas da qual Teixeira seria sócio oculto e administrador de fato.
A Gmais detém 13,3% da Brava Mineração, empresa que aparece em negociações de direitos minerários. Os investigadores encontraram trocas de mensagens que mostram a atuação direta do delegado na gestão e nos negócios da empresa. Em um dos grupos de mensagens da companhia, 95% das mensagens teriam sido enviadas por ele — incluindo documentos e procurações com mineradoras.
A entrada de Teixeira na sociedade, diz a PF, não foi "gratuita em sua essência". Representava uma operação de "troca de influência em razão do cargo por participação societária, em que sua figura institucional funcionava como instrumento estratégico de proteção, pressão e facilitação junto à administração pública". Os direitos minerários negociados pelo grupo já renderam ao delegado R$ 4 milhões e podem resultar em até R$ 27 milhões em ganhos futuros.
"Sua presença no negócio representava, para os demais membros do grupo, acesso direto à máquina pública, o que, em ambientes altamente regulados como o setor minerário, é percebido como ativo extremamente valioso."
O embaraço à investigação e o uso do cargo como escudo
Mensagens encontradas pela PF apontam que Teixeira usou uma delegada para realizar uma ação contra uma empresa para favorecer um empresário com quem mantinha negociações de ativos minerários. O delegado, segundo as conversas, também tentou obstruir uma das investigações sobre corrupção no setor de mineração em andamento na Superintendência da PF em Minas Gerais.
A PF obteve provas de que Teixeira chegou a se reunir com investigados para tratar de inquérito sigiloso em curso na própria corporação. Para os investigadores, "a iniciativa de agendar a reunião para tratar de assuntos relativos a uma investigação policial em curso demonstra o poder de bastidores que ele exercia — e que foi, precisamente, o ativo negociado em troca de sua entrada na estrutura societária".
Teixeira também teria atuado para retirar um delegado da chefia da área de combate à corrupção da PF em Minas Gerais. Em depoimento informal prestado em setembro de 2023, quando ainda ocupava a diretoria em Brasília, o delegado negou categoricamente qualquer vínculo com a Gmais Ambiental — versão que, segundo a PF, "não encontra correspondência nas evidências reunidas pelas investigações".
Do superintendente mineiro à diretoria em Brasília
Teixeira foi superintendente da PF em Minas Gerais antes de ser nomeado diretor de Polícia Administrativa em Brasília, em janeiro de 2023. Mensagens interceptadas mostram que, nos primeiros dias da nova gestão, empresários investigados já comentavam a nova função do delegado: "O Rodrigo Teixeira já tá lá. Já tá mandando e desmandando lá na PF. Já tá reorganizando tudo lá dentro".
Nas conversas, discutiram a indicação de nomes para a Superintendência da PF em Minas Gerais de forma a "não complicar a vida da mineração feio". Teixeira, segundo os diálogos, estava "avaliando ainda, olhando alguns amigos dele" para a indicação.
A PF aponta ainda que o delegado negociava direitos minerários de alto valor, inclusive em áreas com barragens classificadas entre as sete de maior risco de rompimento do país, conforme documentos da ANM (Agência Nacional de Mineração).
O esquema bilionário da Operação Rejeito
A Operação Rejeito, deflagrada em setembro de 2025, desbaratou uma organização criminosa especializada em fraudar licenciamentos ambientais para mineração irregular em Minas Gerais. O esquema movimentou R$ 1,5 bilhão e mantinha projetos em andamento com potencial econômico superior a R$ 18 bilhões.
O grupo operava por meio de mais de 40 empresas de fachada e corrompia agentes públicos da ANM, da FEAM (Fundação Estadual do Meio Ambiente), do IEF (Instituto Estadual de Florestas) e do Ibama. Entre os presos estavam o então diretor da ANM Caio Mário Trivellato Seabra Filho, o ex-deputado estadual João Alberto Paixão Lages (MDB) — apontado como articulador político do esquema — e o empresário Alan Cavalcante do Nascimento, identificado como chefe da organização.
Teixeira foi preso preventivamente na deflagração da operação e ficou detido até dezembro de 2025. Sua defesa alega que as provas são "etéreas". O espaço segue aberto para manifestação.
A Operação Rejeito representa o maior desmantelamento de organização criminosa ambiental da história recente mineira, expondo como o sistema de licenciamento foi sistematicamente corrompido por interesses privados.
O que muda com o indiciamento de um delegado da cúpula
O indiciamento de Teixeira coloca em xeque não apenas a conduta individual de um agente público, mas a capacidade da própria PF de monitorar seus quadros mais altos. Um delegado que ocupava a diretoria de Polícia Administrativa — cargo de comando direto da instituição — usava o acesso a informações sigilosas, o poder de indicação e a estrutura investigativa como ferramentas de proteção a um esquema criminoso.
A pergunta que o caso deixa no ar é institucional: se um diretor da PF podia atuar como sócio oculto de uma empresa de fachada minerária, orientar reuniões de negócios, vazar dados de investigações e tentar obstruir inquéritos da própria corporação sem ser detectado por quase três anos, quantos mecanismos de controle interno falharam no caminho? E, mais importante: o que garante que não haja outros?
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