Flávio Bolsonaro estreia no Nordeste em Alagoas sem Lira, JHC e Marina Candia
Candidato do PL à Presidência desembarcou em Maceió nesta terça (25) para abrir a campanha na região que concentra 27% do eleitorado nacional, mas viu aliados-chave faltarem ao ato.
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- Flávio Bolsonaro (PL-RJ) iniciou em Maceió (AL) sua campanha presidencial pelo Nordeste, sem a presença do deputado Arthur Lira (PP), do ex-prefeito JHC (PSDB) e da candidata ao Senado Marina Candia
- Pesquisa Quaest divulgada véspera da visita mostra Lula com 44% das intenções de voto em Alagoas contra 29% de Flávio, distância de 15 pontos
- No cenário nacional, levantamento Genial/Quaest aponta Lula com 35% ante 26% de Flávio no primeiro turno, com vitória petista por sete pontos no segundo turno
- Alagoas deu a Lula 58,68% dos votos no segundo turno de 2022, quase 300 mil votos de vantagem sobre Jair Bolsonaro
- Por que isso importa: a estreia capixaba... nordestina expõe as costuras frágeis da aliança bolsonarista em um reduto histórico de Lula, decisivo para as contas de outubro.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) desembarcou nesta terça-feira (25) no Aeroporto Internacional Zumbi dos Palmares, em Maceió, para abrir sua agenda de campanha pelo Nordeste. O candidato à Presidência pelo Partido Liberal (PL) escolheu Alagoas como porta de entrada numa região onde seu principal adversário, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), tem histórico de vantagem larga.
Ele chegou acompanhado do deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), candidato a vice na chapa, e de lideranças políticas do estado, entre elas o deputado estadual Cabo Bebeto (PL-AL) e o vereador Leonardo Dias (PL). Depois do desembarque, seguiu-se uma carreata de aproximadamente oito quilômetros entre o aeroporto e a região central de Maceió — a programação não previa palanque ou comício.
Recepção sem Lira, JHC e Marina Candia
A ausência mais comentada do dia foi a dupla que Flávio tenta reunir sob seu palanque estadual: o deputado federal Arthur Lira (PP-AL) e o ex-prefeito de Maceió João Henrique Caldas, o JHC (PSDB-AL), não participaram da recepção no aeroporto. A esposa de JHC e candidata ao Senado, Marina Candia (PSDB), também não compareceu.
Mesmo sem os aliados ao lado, Flávio confirmou, durante coletiva, JHC como candidato do grupo ao governo de Alagoas e destacou Alfredo Gaspar como a principal liderança de sua campanha no estado. Ele reforçou o discurso publicamente:
"Aqui, o nosso candidato a governador é o JHC, é um palanque importante. O JHC vai estar com a gente na campanha."
Sobre os motivos das faltas, a assessoria de Lira informou que verificaria o motivo da ausência, enquanto a equipe de JHC afirmou que a agenda do ex-prefeito não havia sido divulgada e não comentou por que ele não participou do evento. A explicação oficial, portanto, ainda não existe.
O caso de Lira chama atenção porque ele não é um aliado qualquer: foi presidente da Câmara dos Deputados de fevereiro de 2021 a fevereiro de 2025 e manteve relação próxima com Jair Bolsonaro durante seu governo, disputando agora a continuidade de sua influência política por meio de uma vaga no Senado. Já JHC enfrenta um limitador partidário: pertence ao PSDB, legenda que adotou neutralidade na corrida presidencial, o que torna sua aproximação pública com Flávio politicamente mais delicada.
Números apertados em Alagoas e no país
A visita ocorreu no dia seguinte à divulgação de um retrato eleitoral desfavorável. Um dia antes, a Quaest mediu uma diferença de 15 pontos entre os dois principais presidenciáveis em Alagoas: Lula aparece com 44% das intenções de voto, contra 29% de Flávio, enquanto Renan Santos (Missão) tem 2% e os demais candidatos registram 1% ou menos. No plano local do Senado, outro levantamento também favorece o grupo ligado a Lira: o deputado federal Arthur Lira (PP) lidera de forma absoluta a disputa pelo Senado em Alagoas, segundo pesquisa da TDL — o que talvez explique por que ele não sente necessidade de vincular sua imagem à campanha presidencial em ato público.
O histórico eleitoral do estado reforça o desafio: em Alagoas, Lula venceu Jair Bolsonaro no segundo turno de 2022 com 58,68% dos votos, abrindo vantagem de quase 300 mil votos sobre o então presidente. Reverter esse quadro em pouco mais de um mês de campanha nacional é a aposta de Flávio ao escolher o estado para a largada nordestina.
No panorama nacional, os números também não sorriem à candidatura. Pesquisa Genial/Quaest de janeiro mostrou Lula na liderança da corrida presidencial com 35% das intenções de voto, com Flávio Bolsonaro em segundo lugar, com 26%, e Ratinho Júnior mais distante, com 9%. Em segundo turno, Lula venceria Flávio Bolsonaro por uma margem de sete pontos percentuais. O mesmo levantamento identificou um obstáculo estrutural para o sobrenome: para 43% dos entrevistados, um candidato de oposição fora da família teria mais chances de derrotar Lula, enquanto apenas 34% acreditam que alguém com o sobrenome Bolsonaro conseguiria vencer a disputa.
A distância, porém, vinha diminuindo em pesquisas mais recentes. Um levantamento AtlasIntel/Bloomberg de março apontou Lula e Flávio Bolsonaro em técnico empate na simulação de segundo turno, com o senador aparecendo à frente por um ponto percentual, embora dentro da margem de erro. A alternância entre cenários de vitória folgada de Lula e empates técnicos ilustra a volatilidade da corrida a menos de dois meses da votação de outubro.
Um palanque costurado às pressas
A composição da chapa alagoana que Flávio tenta exibir como unidade nasceu de um rearranjo de última hora. Em 6 de agosto, durante transmissão ao vivo, o candidato à Presidência anunciou a composição do palanque em Alagoas: JHC na disputa pelo Governo do Estado e Marina Candia e Arthur Lira como candidatos ao Senado. A mudança só ocorreu porque o deputado federal Alfredo Gaspar deixou a corrida por uma vaga no Senado para aceitar o convite de Flávio Bolsonaro e disputar a Vice-Presidência da República, abrindo espaço para Lira na chapa.
O coordenador da campanha nacional, Rogério Marinho (PL-RN), detalhou a divisão de papéis:
"Em Alagoas, é a Marina Candia, que vai nos ajudar lá, que é a esposa do candidato ao governo, JHC, e Arthur Lira, do PP."
Nos bastidores, a leitura é a de que a saída de Gaspar da disputa ao Senado foi interpretada como um movimento que favoreceu Lira, que ganhou espaço na disputa por uma das duas vagas. Ainda assim, o ato desta terça mostrou que a convergência de interesses locais com a chapa presidencial ainda não se traduziu na presença conjunta das principais lideranças em público.
O tabuleiro estadual tem ainda outra frente hostil ao grupo de Flávio: Renan Filho e Renan Calheiros estão no campo de Lula, os dois senadores mais tradicionais da política alagoana, herdeiros de uma máquina eleitoral que ajudou a construir a vantagem petista no estado em 2022.
Por que o Nordeste pesa tanto na conta eleitoral
A escolha de abrir a campanha pela região não é aleatória. O Nordeste reúne cerca de 43,5 milhões de eleitores e concentra aproximadamente 27% do eleitorado brasileiro, o que faz da região um dos principais focos das campanhas presidenciais. É também o reduto mais consistente de votos de Lula desde 2002, o que torna qualquer avanço ali um indicador relevante para o segundo turno.
Apesar do resultado estadual desfavorável, Maceió tem particularidades: o estado combina um resultado estadual favorável a Lula com uma capital que apoiou Bolsonaro em 2022. É esse recorte urbano que a campanha de Flávio tenta explorar como ponto de apoio para ampliar presença na região.
A agenda em Alagoas segue nos próximos dias com paradas estratégicas: um encontro com empresários na Associação Comercial de Maceió e, à noite, a celebração dos 111 anos da Assembleia de Deus no estado, evento de peso no meio evangélico. Na quarta-feira (26), o senador segue para Arapiraca, onde participa de uma motocarreata.
Promessa de retorno e o peso do sobrenome
Ao discursar para apoiadores em Maceió, Flávio fez a aposta mais explícita da jornada, prometendo:
"Ano que vem quero voltar aqui como Presidente da República e trarei junto comigo meu pai, Jair Messias Bolsonaro."
A frase reforça o vínculo que sustenta toda a candidatura: Flávio foi escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) como representante do grupo político na sucessão presidencial, com a candidatura oficializada pelo PL como candidato à Presidência da República durante convenção nacional realizada em 25 de julho, em São Paulo. O aval veio depois de Flávio anunciar, em dezembro de 2025, a pré-candidatura ao Planalto após receber a indicação do pai.
O apelo ao sobrenome, no entanto, é também o principal obstáculo identificado pelas pesquisas: quase a metade dos eleitores prefere um nome de oposição fora do clã Bolsonaro para enfrentar Lula (Genial/Quaest). É esse dilema — precisar do capital político do pai sem herdar sua rejeição — que a estreia isolada em Alagoas, sem aliados relevantes ao lado, deixou mais visível.
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