Radar do Judiciário

Foragidas do 8 de Janeiro são presas nos EUA ao tentar asilo no governo Trump

Quatro brasileiras investigadas por atos antidemocráticos enfrentam deportação após entrada ilegal no Texas

Compartilhar: WhatsApp X LinkedIn

Quatro mulheres brasileiras, foragidas da Justiça por envolvimento nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023 em Brasília, foram presas nos Estados Unidos após cruzarem ilegalmente a fronteira em busca de asilo político durante o governo de Donald Trump.

Detidas no Texas, elas agora aguardam deportação, em um caso que expõe as tensões entre as políticas migratórias rígidas de Trump e a fuga de investigados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil. As informações foram inicialmente publicadas pelo jornal O Globo e confirmadas pelo Departamento de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE).

As brasileiras identificadas como Raquel de Souza Lopes, Michely Paiva Alves, Rosana Maciel Gomes e Cristiane da Silva são acusadas de participação nos ataques que resultaram na depredação dos prédios dos Três Poderes em Brasília, um episódio que abalou a democracia brasileira. Após o STF determinar a extradição de envolvidos nos atos golpistas, as quatro estavam na Argentina, de onde partiram rumo aos EUA, na esperança de encontrar refúgio sob a administração de Trump, aliado político do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A cronologia das prisões

Raquel de Souza Lopes, de 52 anos, natural de Joinville (SC), foi a primeira a ser detida. Segundo as autoridades americanas, ela ingressou ilegalmente nos EUA em 12 de janeiro de 2025, pela região de La Grulla, no sudeste do Texas. Presa no mesmo dia pela patrulha de fronteira, foi transferida na véspera da posse de Trump, em 19 de janeiro, para o centro de detenção El Valle, em Raymondville, Texas. Condenada no Brasil a 17 anos de prisão por depredar o Palácio do Planalto, sua defesa nega envolvimento direto nos atos de vandalismo, mas a sentença já foi proferida pelo STF.

As outras três — Michely Paiva Alves, Rosana Maciel Gomes e Cristiane da Silva — cruzaram a fronteira um dia após a posse de Trump, em 21 de janeiro, na região de El Paso, no sudoeste do Texas. Detidas imediatamente, elas também foram encaminhadas a centros de detenção do ICE. Michely é ré por cinco crimes, incluindo tentativa de golpe de Estado e associação criminosa, enquanto Rosana e Cristiane foram condenadas por participação nos atos. Todas aguardam o processo de deportação, que pode levá-las de volta ao Brasil para cumprir suas penas.

A fuga pelo continente

A trajetória das foragidas começou em abril de 2024, quando deixaram o Brasil pela fronteira seca com a Argentina, em Santa Catarina. Permaneceram em Buenos Aires até novembro, quando a Justiça argentina, pressionada pelo pedido de extradição do ministro Alexandre de Moraes, em 15 de outubro de 2024, passou a persegui-las. A partir daí, iniciaram uma longa jornada rumo aos EUA, passando por Chile, Peru, Colômbia e México. No Chile, cruzaram o Deserto do Atacama; no Peru, entraram por Santa Rosa; e, após passagem pela Colômbia, chegaram ao México, de onde tentaram ingressar no território americano.

De acordo com informações apuradas pelo UOL, o plano era aproveitar a relação de proximidade entre Trump e Bolsonaro para solicitar asilo político. Contudo, a política migratória de Trump, marcada por uma postura linha-dura contra imigrantes ilegais, frustrou suas expectativas. Em discurso recente, o presidente americano declarou: “Decidi e declarei uma importante emergência nacional na nossa fronteira com efeito imediato, proibindo a entrada de todos os imigrantes ilegais, que eram muitos, e comecei a enviá-los de volta para os lugares de onde vieram.”

Contexto político e migratório

A posse de Donald Trump em 20 de janeiro de 2025 trouxe uma nova onda de medidas restritivas à imigração. Logo nos primeiros dias de governo, ele assinou decretos que eliminaram o aplicativo CBP One — usado para agendar pedidos de asilo — e ampliaram a presença de militares na fronteira. Segundo o Valor Econômico, essas ações enfrentam resistência judicial, mas têm sido eficazes em deter imigrantes, mesmo aqueles em busca de refúgio. No último domingo (16 de março), mais de 200 venezuelanos foram deportados para El Salvador, em uma operação que Trump justificou com a controversa Lei de Inimigos Estrangeiros, de 1798.

Para o professor Jeremy Slack, da Universidade do Texas em El Paso, entrevistado pela Folha de S.Paulo, as medidas de Trump devem ser contestadas nos tribunais, mas o reforço na segurança dificulta travessias, especialmente em áreas como o deserto do Arizona.O crime organizado está cada vez mais envolvido, recrutando até crianças como coiotes,” alertou Slack, destacando o agravamento da crise migratória.

Repercussão e defesa

No Brasil, o caso reacende debates sobre os desdobramentos do 8 de janeiro. O STF já condenou mais de 200 pessoas pelos atos golpistas, e 293 permaneciam presas até abril de 2023, segundo balanço da Corte. A fuga das quatro mulheres evidencia os esforços de alguns investigados para escapar da Justiça, mas também a dificuldade de encontrar refúgio em países com políticas migratórias rígidas.

A defesa de Raquel de Souza Lopes, em entrevista ao UOL, afirmou que ela “não praticou vandalismo” e que a família busca um advogado nos EUA para contestar a deportação. Já a defesa de Rosana Maciel Gomes alegou ao STF que ela “entrou em choque” ao ver a depredação no Palácio do Planalto e não danificou bens públicos. Amigos de Rosana procuraram o consulado brasileiro em Houston, mas não obtiveram resposta até o momento. As defesas de Michely e Cristiane não se pronunciaram publicamente.

O que vem a seguir?

Enquanto aguardam deportação, as quatro brasileiras permanecem em centros de detenção no Texas, sob custódia do ICE. O Itamaraty, procurado pelo Poder360, não se manifestou sobre o caso até o fechamento desta reportagem. Se retornarem ao Brasil, enfrentarão as penas determinadas pelo STF, que variam de condenações por vandalismo a acusações mais graves, como tentativa de golpe de Estado.

O episódio reflete não apenas as consequências dos atos de 8 de janeiro, mas também os desafios enfrentados por brasileiros que buscam escapar da Justiça em um cenário internacional de crescente controle migratório. A aliança entre Trump e Bolsonaro, que alimentou as esperanças das foragidas, mostrou-se insuficiente diante das prioridades do governo americano, que já deportou milhares desde o início do mandato. A história dessas mulheres, agora detidas a milhares de quilômetros de casa, é um capítulo a mais na complexa trama política que une Brasil e Estados Unidos em 2025.