Globo sob investigação: MPF apura acesso a área restrita no aeroporto
MPF investiga se equipe da emissora acessou área restrita do Aeroporto do Galeão sem passar por segurança; Receita diz que autorizou filmagens, mas PF não foi avisada
📋 Em resumo ▾
- O Ministério Público Federal (MPF) abriu inquérito contra a Globo para apurar irregularidades em reportagem no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro.
- A equipe da emissora teria acessado áreas restritas sem passar por revista de equipamentos e sem avisar a Polícia Federal, segundo o MPF.
- A Globo afirma que cumpriu todos os protocolos e que ainda não foi notificada formalmente sobre o inquérito.
- O superintendente da Receita Federal no Rio, Claudiney Cubeiro dos Santos, diz que as filmagens foram autorizadas pela alfândega.
- Por que isso importa: O caso escancara um conflito institucional antigo entre PF e Receita sobre quem controla a segurança aeroportuária, afetando a cobertura jornalística
O Ministério Público Federal (MPF) abriu um inquérito contra a Globo para apurar possíveis irregularidades cometidas por uma equipe de jornalismo durante uma reportagem no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro. A investigação foi revelada pela Folha de S. Paulo e coloca a emissora no centro de um conflito institucional que transcende o caso específico: a disputa de competência entre a Polícia Federal (PF) e a Receita Federal sobre o controle da segurança aeroportuária.
Segundo o MPF, a equipe da Globo teria acessado áreas restritas do aeroporto sem passar pelos procedimentos de segurança obrigatórios, como revista de equipamentos e mochilas, e sem aviso prévio à Polícia Federal — órgão que, segundo a própria PF, não foi comunicado pela Receita sobre as filmagens.
O que o MPF aponta e o que a Globo diz
A ação do Ministério Público Federal é clara em seus questionamentos: teria a equipe de jornalismo da Globo burlado protocolos de segurança para obter imagens exclusivas do trabalho dos agentes da Receita Federal na fiscalização de passageiros?
A emissora, por meio de nota, informou que ainda não foi notificada formalmente sobre o inquérito, mas defendeu sua conduta. "A equipe de jornalismo cumpriu todos os protocolos dos órgãos competentes para realização da reportagem", afirmou a Globo.
Do outro lado da controvérsia está o superintendente da Receita Federal no Rio de Janeiro, Claudiney Cubeiro dos Santos. Ao Ministério Público, o superintendente afirmou que as filmagens foram autorizadas e que a equipe da Globo seguiu os protocolos exigidos pela alfândega — órgão sob sua jurisdição.
"Quando dois órgãos federais dão versões opostas sobre o mesmo protocolo, quem paga a conta é a imprensa, que fica no fogo cruzado de uma guerra de competência que deveria ser resolvida internamente."
A queda de braço entre PF e Receita
O caso da Globo não é um incidente isolado. Ele é apenas o capítulo mais recente de uma disputa institucional que se arrasta há anos entre a Polícia Federal e a Receita Federal sobre quem tem autoridade para controlar a segurança das áreas aeroportuárias.
A PF sustenta que é responsável por toda a segurança aeroportuária, incluindo o controle de acesso a áreas restritas. A Receita, por sua vez, argumenta que a alfândega — onde atuam seus agentes fiscais — está fora do escopo da PF e sob sua jurisdição exclusiva.
No início deste ano, essa divergência ganhou contornos públicos quando a PF proibiu a equipe do reality show "Aeroporto – Área Restrita", do Discovery Channel, de filmar o trabalho dos agentes da Receita na fiscalização de passageiros. A justificativa foi exatamente a mesma: a PF alegou que qualquer filmagem em área restrita do aeroporto precisa de sua autorização prévia, independentemente de a Receita ter permitido.
O impacto na liberdade de imprensa
O inquérito contra a Globo levanta uma questão delicada: até que ponto a imprensa pode ser penalizada por uma disputa de competência entre órgãos públicos que não conseguem resolver suas diferenças internamente?
Jornalistas que cobrem questões de segurança pública, fiscalização aduaneira e combate ao crime organizado dependem de acesso a áreas restritas para produzir reportagens de interesse público. Se cada órgão federal tiver sua própria interpretação sobre quem deve autorizar o acesso, a cobertura jornalística fica refém de uma burocracia que não existe em outros países.
A Globo, até o momento, não foi notificada formalmente sobre o inquérito. Mas o simples fato de o MPF ter aberto a investigação já envia um sinal preocupante para as redações: o risco de ser investigado por seguir as regras de um órgão, enquanto outro órgão diz que as regras são diferentes.
"A liberdade de imprensa não pode ser refém de uma guerra de egos institucionais. Se a PF e a Receita não conseguem definir quem manda no aeroporto, que resolvam isso entre elas, não na cabeça do jornalista."
O que vem pela frente
O inquérito do MPF deve ouvir a equipe da Globo, os agentes da Receita Federal que autorizaram as filmagens e os representantes da Polícia Federal que alegam não ter sido comunicados. A expectativa é de que o Ministério Público tente entender se houve falha de comunicação entre os órgãos ou se alguém agiu de má-fé.
Enquanto isso, a reportagem jornalística continua. E a pergunta que fica é: quantas outras reportagens de interesse público deixarão de ser feitas porque a imprensa não quer correr o risco de ser investigada por um conflito que não criou?
O caso da Globo no Galeão não é sobre uma emissora que burlou a segurança. É sobre dois órgãos federais que não conseguem conversar entre si — e sobre a imprensa que paga o preço dessa incompetência institucional.
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