Grupo Toky: Justiça aprova recuperação judicial de Tok&Stok e Mobly
Justiça de São Paulo deferiu pedido do grupo que reúne Tok&Stok, Mobly e Guldi. Empresa cita dívida superior a R$ 1 bilhão e pede liberação de R$ 77 milhões retidos pela SRM Bank para pagar salários
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- Justiça de São Paulo aprovou o pedido de recuperação judicial do Grupo Toky, dono da Tok&Stok, Mobly e Guldi
- Grupo cita dívida superior a R$ 1 bilhão e cenário de juros altos, crédito restrito e endividamento das famílias
- Empresa pede liberação imediata de R$ 77 milhões retidos pela SRM Bank para pagar salários de mais de 2 mil funcionários
- Justiça concedeu stay period de 180 dias, suspendendo cobranças e ações de dívidas durante renegociação
- Por que isso importa: colapso do maior grupo de móveis e decoração da América Latina expõe fragilidade do varejo físico-digital no ciclo de juros elevados
O Grupo Toky, dono das marcas Tok&Stok e Mobly, anunciou nesta segunda-feira (15) que a 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo aprovou o processamento do pedido de recuperação judicial da companhia e de suas subsidiárias. A decisão vem um mês após o grupo protocolar o pedido, em 12 de maio, citando uma dívida superior a R$ 1,1 bilhão e um cenário insustentável para o setor de móveis e decoração.
A cronologia do colapso
A empresa entrou com o pedido de recuperação judicial após meses de negociações infrutíferas com credores. Em dezembro de 2025, o grupo havia conseguido um acordo para reduzir R$ 227 milhões em dívidas, mas o fôlego foi insuficiente. No primeiro trimestre de 2026, o prejuízo líquido consolidado saltou para R$ 75,5 milhões, segundo informações divulgadas ao mercado.
No dia do pedido de recuperação judicial, 12 de maio, as ações do Grupo Toky na B3 despencaram 41% — um dos maiores colapsos já registrados no varejo brasileiro em um único pregão. O mercado reagiu não apenas ao pedido em si, mas à confissão de que a fusão entre Tok&Stok e Mobly, anunciada em 2024 como a criação de um dos maiores grupos de varejo de casa e decoração da América Latina, não resistiu às turbulências macroeconômicas.
O pedido emergencial: R$ 77 milhões retidos e salários em risco
No pedido de recuperação judicial protocolado na Justiça de São Paulo, o Grupo Toky solicitou medidas urgentes para evitar o colapso das operações e garantir a continuidade das atividades, citando "risco de dano irreparável". Um dos principais pontos é a liberação imediata de cerca de R$ 77 milhões em valores de vendas feitas no cartão de crédito que estão retidos pela SRM Bank.
Segundo o grupo, o bloqueio desses valores afetou o caixa da empresa e colocou em risco pagamentos básicos, incluindo os salários de mais de 2 mil funcionários. A companhia também pediu à Justiça a suspensão, por 180 dias, de cobranças e ações por dívidas enquanto tenta renegociar os débitos com credores — o chamado "stay period".
Outro ponto crucial do pedido é a manutenção de contratos e serviços considerados essenciais para o funcionamento da empresa. O grupo quer impedir interrupções em operações de logística, transporte, sistemas digitais, computação em nuvem, energia elétrica e abastecimento de água.
Quem são os credores e o que está em jogo
Os maiores credores do Grupo Toky são Banco do Brasil, Santander e Bradesco, segundo informações divulgadas pelo mercado. A dívida declarada é de R$ 1,12 bilhão, incluindo obrigações entre empresas do grupo. A Toky também reúne a marca Guldi, voltada ao segmento de colchões, que está incluída no processo de recuperação.
A empresa afirmou que o objetivo do pedido é preservar as operações, manter os serviços e criar condições para renegociar as obrigações financeiras. Mas o comunicado oficial não esconde a gravidade da situação: "Apesar dos esforços empregados pela administração na negociação da reestruturação do endividamento junto aos credores da controlada Tok&Stok, o cenário macroeconômico adverso tornou insustentável a continuidade das operações nos moldes atuais."
O cenário que derrubou um gigante
Segundo a empresa, a decisão foi tomada após dificuldades enfrentadas pelo setor de móveis e decoração, como juros altos, aumento do endividamento das famílias e crédito mais restrito. Esse cenário reduziu as vendas e afetou o caixa do grupo. A Toky também afirmou que vinha negociando a reestruturação das dívidas da Tok&Stok com credores, mas que o endividamento continuou crescendo.
O pedido foi ajuizado perante a Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível do Estado de São Paulo, sob segredo de justiça. A notícia acendeu o alerta não apenas entre investidores, mas também nos fundos logísticos que têm contratos com o grupo — a Tok&Stok e a Mobly operam com uma rede extensa de centros de distribuição e megastores espalhadas pelo país.
A fusão que não resistiu à realidade
O Grupo Toky foi criado em 2024 após a união entre a Mobly e a Tok&Stok, duas marcas tradicionais do setor de móveis e decoração no Brasil. A fusão deu origem a um dos maiores grupos de varejo de casa e decoração da América Latina, combinando operações físicas e digitais.
A Mobly foi fundada em 2011 por Victor Pereira Noda, Marcelo Rodrigues Marques e Mário Carlos Fernandes Filho, com foco em vendas online de móveis e itens de decoração. A empresa recebeu investimentos da Rocket Internet e expandiu sua atuação para lojas físicas, contando atualmente com 11 unidades entre megastores, outlets e lojas compactas.
Já a Tok&Stok foi fundada em 1978 pelos franceses Régis e Ghislaine Dubrule. A marca ganhou espaço no mercado brasileiro ao apostar em móveis modernos, modulares e acessíveis, acompanhando o crescimento da classe média urbana e do mercado de apartamentos no país.
"Apesar dos esforços empregados pela administração na negociação da reestruturação do endividamento junto aos credores, o cenário macroeconômico adverso tornou insustentável a continuidade das operações."
O que a recuperação judicial significa na prática
Recuperação judicial é um processo em que uma empresa com dificuldades financeiras pede proteção à Justiça para renegociar dívidas e evitar a falência, enquanto continua funcionando. Durante o stay period de 180 dias, a empresa fica protegida contra execuções de dívidas e tem tempo para apresentar um plano de recuperação aos credores.
Mas a aprovação do processamento é apenas o primeiro passo. A partir de agora, o Grupo Toky terá que apresentar um plano concreto de reestruturação, negociar com os credores (especialmente os bancos) e demonstrar que tem condições de voltar à saúde financeira. Se o plano for rejeitado ou se a empresa não conseguir honrar os compromissos assumidos, a falência pode ser decretada.
O varejo de móveis sob o microscópio
O caso do Grupo Toky não é isolado. Nos últimos anos, a recuperação judicial deixou de ser exceção e passou a ocupar espaço permanente no noticiário econômico nacional. O setor de móveis e decoração, em particular, tem sido duramente atingido pela combinação de juros altos, inflação persistente e queda no poder de compra das famílias.
A pergunta que fica não é apenas sobre o futuro da Tok&Stok e da Mobly, mas sobre quantos outros gigantes do varejo brasileiro estão operando no limite — sustentados por fusões que prometiam sinergias mas não resistiram ao primeiro ciclo de aperto monetário. Enquanto os credores esperam o plano de recuperação, os consumidores observam as prateleiras. E o mercado, como sempre, faz a contagem dos danos.
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