iFood denuncia a Keeta ao Cade — e também está sob investigação
Dona de cerca de 75% do mercado, a plataforma pede ao órgão antitruste medidas contra os subsídios da rival chinesa — enquanto responde, ela mesma, por cláusulas de exclusividade
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- O iFood (unidade brasileira da Prosus) protocolou nesta segunda-feira (31/8) uma representação no Cade contra a Keeta, da chinesa Meituan, por "prática predatória".
- Acusa a rival de operar abaixo do custo, com cupons de até R$ 250 e descontos de até 80%, bancados pelo caixa da matriz chinesa.
- Pede três coisas: processo administrativo, medida preventiva para cessar os subsídios e acesso periódico aos dados de custo e precificação da Keeta.
- A Keeta rebate: diz que o mercado brasileiro é "anticompetitivo e disfuncional", dominado por um único player, e que os cupons apenas incentivam a experimentação.
- Por que isso importa: o próprio iFood, líder do setor, opera sob acordo com o Cade e é investigado por cláusulas de exclusividade — o regulador observa os dois lados
O iFood levou ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) uma queixa formal contra a Keeta, plataforma da chinesa Meituan, acusando a rival de "prática predatória" no mercado de entrega de comida. Protocolada nesta segunda-feira (31), a representação pede que o órgão antitruste barre imediatamente os subsídios da concorrente. A Keeta, por sua vez, acusa o iFood de dominar o setor com contratos de exclusividade — e o próprio iFood já é alvo de investigação do Cade por essa razão.
O que o iFood pede ao Cade
Segundo a empresa — braço brasileiro da holandesa Prosus —, a Keeta opera com prejuízo por pedido no Brasil e sustenta a operação com capital da matriz chinesa, o que configuraria venda abaixo do custo para conquistar mercado e eliminar concorrentes. A denúncia aponta cupons de até R$ 250 e descontos de até 80%, que, na leitura do iFood, elevam a frequência de pedidos sem aumentar o gasto real do consumidor, levando restaurantes a investir em capacidade para atender uma demanda em parte artificial.
A representação faz três pedidos: abertura de processo administrativo contra a Keeta; adoção de medida preventiva para cessação imediata da precificação abaixo do custo; e acesso periódico aos dados de custos e preços da plataforma, para monitoramento independente pelo órgão. Para Lucas Marini Pittioni, vice-presidente sênior de assuntos jurídicos, políticas públicas e M&A do iFood, a disputa não se dá pelo melhor serviço, e sim pela capacidade de bancar, ao mesmo tempo, descontos agressivos e altos pagamentos a entregadores.
"Não se trata de uma competição baseada em mérito", afirmou Lucas Marini Pittioni, do iFood.
A China como exemplo — e o alerta de Hong Kong
Para sustentar o risco, o iFood recorre à experiência da própria China. A empresa cita um estudo da Universidade Fudan, de Xangai, segundo o qual, no auge da guerra de subsídios em 2025, o volume de pedidos dos restaurantes subiu 7% enquanto a receita efetiva caiu 4%. A consequência, segundo a nota distribuída pelo iFood, teria sido o fechamento de restaurantes e uma queda de 30% a 50% na renda dos entregadores.
A companhia pede pressa. Argumenta que a demora regulatória no Brasil poderia repetir o que diz ter observado em Hong Kong e no Oriente Médio: entrada rápida e subsidiada da Keeta, saída de concorrentes e, depois, aumento das taxas cobradas dos comerciantes. É a tese clássica do preço predatório — perde-se dinheiro hoje para cobrar mais amanhã, quando a concorrência já tiver ido embora.
A defesa da Keeta: "monopólio" e exclusividade
Do outro lado, a leitura se inverte. Sem citar o iFood diretamente, a Keeta descreve o mercado brasileiro de delivery como "anticompetitivo e disfuncional", marcado por um único player que concentraria mais de 80% do setor. A empresa afirma que os cupons servem apenas para incentivar a experimentação inicial e que a aposta real está em reter o consumidor pela qualidade — e mira as cláusulas de exclusividade que, na sua visão, travam a concorrência há anos.
Os números da chegada explicam a reação. A Keeta desembarcou em São Paulo em 2025 com plano de investir US$ 1 bilhão em cinco anos e, segundo o analista Abe Yousef, da Sensor Tower, superou a Rappi em usuários ativos mensais em apenas três meses. A controladora Meituan classificou o Brasil, no balanço do segundo trimestre, como um mercado "muito atraente", ainda que "bem diferente" dos demais.
A Keeta chama o mercado brasileiro de "anticompetitivo e disfuncional", dominado por um só player.
O outro lado da balança: o iFood também está sob a lupa
Aqui está o ponto que a queixa não destaca. Antes da chegada da Keeta, a fatia do iFood era estimada em cerca de 75% do mercado. E essa liderança já rende ao próprio iFood atenção do antitruste: desde 2023, a empresa opera sob um Termo de Compromisso de Cessação firmado com o Cade, que limita contratos capazes de impedir restaurantes de atuar em outras plataformas. Desde 2025, o órgão monitora possíveis descumprimentos — e, em maio de 2026, abriu investigação para apurar as práticas da companhia.
Ou seja: quem denuncia prática predatória é a plataforma dominante, que responde, ela mesma, por suposto abuso de posição via exclusividade. Não é uma contradição que anule a denúncia — venda abaixo do custo e cláusula de exclusividade são condutas distintas, e ambas podem, em tese, ser anticompetitivas. Mas o contexto muda a pergunta: o Cade não julga um mocinho e um vilão, e sim dois modelos de dominância disputando o mesmo mercado sob o seu olhar. Não por acaso, o órgão já vinha acompanhando o setor — abriu um procedimento de mercado em novembro de 2025 e, em junho de 2026, publicou nota técnica sobre subsídios agressivos financiados por grande capacidade financeira.
Um tabuleiro maior
A briga local é capítulo de um movimento global. Plataformas de entrega se expandem para fora da China em meio à desaceleração e à regulação mais dura por lá, onde a própria Meituan enfrentou escrutínio antitruste. O Brasil virou vitrine desse avanço — e a disputa respinga em vizinhos do setor: no início de agosto, o diretor financeiro da Uber, Balaji Krishnamurthy, atribuiu a desaceleração das corridas no país à forte concorrência das plataformas de entrega por motociclistas. Uber e iFood, vale lembrar, fecharam parceria no fim de 2025.
A pergunta que o Cade terá de responder é também a mais difícil de responder a tempo: até onde o desconto agressivo é competição saudável que beneficia o consumidor e trinca um quase monopólio — e a partir de onde ele vira estratégia para, amanhã, cobrar mais caro de todo mundo? A resposta certa depois que os concorrentes já saíram do mercado não conserta nada.
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