Painel Rondônia

Indígena de Rondônia enfrentou preconceito para cursar faculdade de biomedicina

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Via Painel Político


“Preconceito na faculdade a gente enfrenta sim. Por ser indígena, talvez algumas pessoas não aceite a gente tão fácil. Eu tive que lutar e seguir em frente”, diz Tonica Suruí, hoje biomédica.

Casada com um professor indígena, mãe de uma criança de 3 anos de idade, morando hoje na cidade de Jaru (terra indígena Uru Eu Wau Wau, aldeia Jaru), distante 543 quilômetros de Porto Velho, RO, a índia Tonica Homangadje Surui, 28 anos, enfrentou muitas dificuldades para concluir o curso superior de biomedicina em uma faculdade particular da Capital. O nome dela significa: conquista de uma mulher.

Tônica teve que deixar a cidade de Cacoal (481 quilômetros de PVH), na Aldeia Lapetanha na Terra Indígena 7 de setembro que pertence ao povo Paiter Suruí, e se mudou para Porto Velho, onde iniciou os estudos após ganhar uma bolsa universitária.

Distante de casa teve que contar com o apoio dos familiares e ficou na casa da amiga Neidinha Suruí (ativista ambiental) que ela chama de mãe, para ter como ir para a faculdade. Tonica é sobrinha de Neidinha. Como ela fala a língua “Tupi Mondé” outro desafio foi se adaptar ao português do homem branco.

Tonica é a indígena mais jovem e talvez a única mulher formada em biomedicina no Estado. E diz que foi complicado se adaptar na cidade grande. “Entender as coisas da cidade foi bem diferente. Eu tinha que saber conviver com tudo isso e com a minha cultura. Tudo isso foi difícil pra mim”.

A colação de grau ocorreu na noite da última quinta-feira, 09, com a presença da família, integrantes da aldeia e amigos. Foi uma noite de festa e realização de um sonho. Durante a pandemia ela teve que fazer os estudos em casa online, e também teve problemas em razão da baixa qualidade do sinal de internet na aldeia.

“Preconceito na faculdade a gente enfrenta sim. Por ser indígena, talvez algumas pessoas não aceite a gente tão fácil. Eu tive que lutar e seguir em frente”, diz Tonica.

Para ela foi um grande teste ter que ficar provando a todo tempo que era capaz. “A gente se sente excluído. Pra mim foi muito difícil. Eu enfrentei dificuldades para entender as palavras que eu não sabia durante o curso. A minha dificuldade maior, foi buscar informações para saber o que era aquilo”.

A biomedicina é uma das áreas das ciências da saúde voltada para pesquisa e análise de doenças humanas com o objetivo de compreender as causas, efeitos, fatores ambientais e epidemiológicos e assim desenvolver, aprimorar diagnósticos e tratamentos.

“Fazer biomedicina pra mim foi muito importante. Para fazer esse curso tem que ter muita sabedoria. Eu comecei estudar e vi que era muito importante para os indígenas. Como usamos plantas medicinais, com ajuda da biomedicina podemos desenvolver mais coisas para aldeia”, diz ela.

Agora a biomédica quer realizar outro sonho que é ajudar seu povo com os conhecimentos que adquiriu. “Eu posso ajudar não só a etnia Paiter Suruí como outras etnias também. E eu vejo isso como meu futuro. Meu plano é ajudar meu povo e oferecer o meu melhor na minha área de biomédica”.

ÍNDIOS NAS UNIVERSIDADES – Nos últimos 12 anos os indígenas ocuparam mais bancos de universidades em busca de conhecimento e formação superior. Mas existem enormes desafios para fazer com que os povos tradicionais possam cursar universidades.

Desde 2010, houve um aumento de 842% no número de estudantes indígenas nos cursos de graduação, passando de 2.723 para 25.670 alunos. No mesmo período, o crescimento geral de estudantes foi de 48%.

De acordo com o Censo da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), de 2017, são mais de 56.7 mil indígenas no ensino superior no país, número que representa 0,68% do total de 8,3 milhões de estudantes matriculados.

O principal motivo do crescimento do número de indígenas nas universidades é a Lei de Cotas. As cotas da legislação federal são exclusivas para estudantes de escolas públicas e, dentro de suas subdivisões, há a categoria por etnia (pretos, pardos e indígenas).

Inicialmente, a reserva para cotistas era de 12,5% do total de vagas das instituições. Em 2016, as cotas subiram para 50% das oportunidades, as quais se subdividem, ainda, por renda e etnia. O pico do ingresso de indígenas se deu em 2016, ano da redefinição das cotas. (Por FranciscoCosta.jor.br)

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