Indígenas bloqueiam BR-364 em Cacoal e escalam protesto contra DSEI
Após ocupação pacífica da sede do distrito sanitário há duas semanas, lideranças de 16 etnias interditam rodovia federal e exigem exoneração da coordenadora do órgão.
📋 Em resumo ▾
- Grupo de indígenas de diferentes etnias bloqueou totalmente a BR-364 na ponte do distrito de Riozinho, em Cacoal (RO), provocando longas filas nos dois sentidos.
- A principal reivindicação é a exoneração da atual coordenadora do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) de Vilhena, além de denúncias de falta de medicamentos e veículos sucateados para transporte de pacientes.
- O protesto é a segunda mobilização em duas semanas: antes do bloqueio, lideranças já haviam ocupado pacificamente a sede do DSEI em Cacoal sem resposta das autoridades.
- Nem a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) nem o Ministério da Saúde se manifestaram oficialmente até o fechamento desta matéria.
- Por que isso importa: o episódio expõe fragilidades crônicas na atenção primária a cerca de 7.900 indígenas de 16 etnias em território que se estende por Rondônia e Mato Grosso, reacendendo o debate sobre a autonomia orçamentária dos DSEIs criados há mais de duas décadas.
Um grupo de indígenas de diferentes etnias interditou totalmente, na manhã desta quarta-feira (8), um trecho da BR-364, na altura da ponte do distrito de Riozinho, em Cacoal (RO). A manifestação provocou longas filas de veículos nos dois sentidos da rodovia e reúne lideranças que cobram, há semanas, melhorias na assistência à saúde prestada às aldeias da região.
Segundo relatos dos manifestantes, apenas veículos que transportam pacientes em situações de urgência e emergência estão sendo liberados para seguir viagem, enquanto o restante do fluxo permanece parado. Equipes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) acompanham o protesto no local, atuando na organização do trânsito e na tentativa de mediar o diálogo entre manifestantes e autoridades.
Exigência central: saída da coordenadora do DSEI
A principal bandeira do movimento é a exoneração da atual coordenadora do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) de Vilhena, identificada pelas lideranças apenas pelo nome Median. Reportagens locais apontam que os manifestantes reivindicam a saída da coordenadora do DSEI Vilhena, além de cobrarem melhorias no atendimento de saúde destinado às comunidades indígenas da região.
De acordo com os organizadores, a situação enfrentada nas aldeias é considerada crítica. Entre as principais reclamações estão a falta de medicamentos, veículos sucateados para o transporte de pacientes, deficiência no atendimento de urgência e emergência e a precariedade dos serviços básicos de saúde. Um dos veículos de imprensa regional detalhou ainda que, segundo os manifestantes, nem sequer os serviços primários básicos de saúde têm sido assegurados de maneira contínua, o que compromete a qualidade de vida e o acesso das populações indígenas aos seus direitos constitucionais.
"A situação enfrentada nas aldeias é considerada crítica", relatam organizadores do protesto, citando falta de medicamentos e frota sucateada para transporte de pacientes.
Escalada de um conflito que já dura semanas
O bloqueio desta quarta-feira não é um episódio isolado. Reportagem publicada há cerca de duas semanas já registrava que lideranças indígenas de diferentes povos haviam realizado, de forma pacífica, uma ocupação na sede do DSEI Vilhena, em Cacoal, com o objetivo de cobrar melhorias nos serviços de saúde prestados às comunidades indígenas da região e solicitar a exoneração da atual coordenadora da unidade.
Naquela ocasião, os participantes destacaram que a ocupação ocorreu de maneira ordeira, sem impedir atividades essenciais, na tentativa de abrir um canal de diálogo. Contudo, até aquele momento não havia informações sobre negociações conclusivas entre as lideranças e representantes do governo federal responsáveis pela administração da saúde indígena. A ausência de resposta parece ter motivado a escalada para o bloqueio total de uma rodovia federal, medida de maior impacto e visibilidade.
Quem são as comunidades atendidas pelo DSEI Vilhena
Criado nos anos 1990 como parte da política nacional de descentralização da saúde indígena, o DSEI Vilhena tem sede administrativa justamente em Cacoal e é um dos 34 distritos sanitários especiais indígenas existentes no país, vinculados à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), órgão do Ministério da Saúde. Documentos técnicos indicam que a área de abrangência do distrito soma 18 municípios entre Rondônia e Mato Grosso e 18 Terras Indígenas, totalizando uma população de 7.891 indígenas distribuídos em 177 aldeias, com diferentes povos em níveis variados de contato com a sociedade envolvente. Ao todo, o distrito possui 16 etnias, entre elas Aikanã, Akuntsu, Apurinã, Arara, Canoé, Cinta Larga, Kwazá, Macurap, Paresí, Parintintin, Rikbaktsa, Sakirabiar, Suruí, Terena e Nambikwara. Entre esses povos estão dois dos grupos indígenas mais isolados e vulneráveis do Brasil, os Akuntsu e os Kanoê, sobreviventes de contatos recentes e traumáticos com a sociedade envolvente, o que torna a qualidade do atendimento primário de saúde uma questão de sobrevivência étnica, não apenas de conforto sanitário.
Silêncio do governo federal e risco de agravamento
Até o momento, nenhuma das instâncias federais responsáveis se manifestou publicamente sobre as denúncias. Segundo apuração local, até a publicação da matéria, nem a Sesai nem o Ministério da Saúde haviam se manifestado oficialmente sobre as denúncias apresentadas pelos indígenas ou sobre o pedido de substituição da coordenadora do DSEI Vilhena.
Os manifestantes afirmam que a manutenção do bloqueio está condicionada a uma resposta concreta das autoridades. Os indígenas informaram que a manifestação será mantida até que representantes do Governo Federal e dos órgãos responsáveis pela saúde indígena apresentem respostas concretas às reivindicações do movimento. Motoristas que dependem da rodovia — importante corredor logístico que liga o interior de Rondônia a Cuiabá e ao restante do país — são orientados a buscar rotas alternativas enquanto a interdição persistir.
Um problema estrutural, não pontual
Especialistas em saúde indígena já haviam alertado, em relatórios técnicos anteriores sobre o mesmo distrito, que a diversidade cultural e a dispersão geográfica das aldeias — muitas acessíveis apenas por vias fluviais ou trechos precários de estrada — impõem desafios adicionais à gestão do DSEI Vilhena, que atua em quatro polos-base espalhados entre Rondônia e Mato Grosso. A recorrência de queixas sobre desabastecimento de medicamentos e frota sucateada sugere um problema de gestão continuada, e não um episódio isolado de má administração.
O caso de Cacoal ilustra uma tensão que se repete em outros DSEIs do país: a distância entre a estrutura formal criada pelo Sistema Único de Saúde Indígena (SasiSUS) e a capacidade operacional real de levar atendimento contínuo a populações que vivem em territórios remotos. Enquanto o Ministério da Saúde não se pronuncia, a pergunta que fica no ar é se o bloqueio de uma rodovia federal será suficiente para acelerar uma resposta que a ocupação pacífica da sede do distrito, semanas antes, não conseguiu obter.
Versão em áudio disponível no topo do post.